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Batendo pênaltis e corações, Newell’s tira Boca e sonha

A vida de torcedor traz sentimentos que dificilmente podem ser descritos com precisão. A noite no estádio Marcelo Bielsa, no Parque da Independencia, em Rosario, foi assim. O Newell’s Old Boys, melhor time da Argentina no momento, recebeu o Boca Juniors, o time mais vencedor em Libertadores do país, para o jogo de volta das quartas de final da Copa. E os torcedores sofreram, todos eles, mandantes e visitantes. Todos sofreram, mas só uma das torcidas comemorou no fim. Um sentimento que é de alegria, mas também é de alívio. Um enorme alívio dos vencedores.

Ser melhor nunca foi garantia de nada. Não é na vida, não é no futebol.O Newell’s é melhor que o Boca. Tem um técnico que faz grande trabalho, Gerardo “Tata” Martino, tem Scocco, artilheiro e um dos melhores argentinos no momento, tem uma equipe com jogadores experientes, como Heinze – que surpreendentemente, tem sido um bom jogador da equipe – e Maxi Rodríguez, autor do gol na disputa de pênaltis que marcou a classificação.

O que aconteceu no estádio é um dos momentos que ficarão para sempre na memória dos torcedores do Newell’s e marcado sempre na história da Libertadores. As disputas de pênaltis na Libertadores nunca mais serão as mesmas. Dificilmente uma disputa por vaga nas penalidades alcançará o nível épico da noite de quarta-feira em Rosario.

O jogo só chegou a esse ponto porque a partida de ontem foi novamente um empate por 0 a 0, como tinha sido na Bombonera. Mas, dessa vez, o Boca Juniors parecia ter levado uma vantagem psicológica. Afinal, com um time pior, segurou a força do Newell’s, mesmo quando teve um jogador expulso, Clemente Rodríguez, aos 12 minutos do segundo tempo. O Boca Juniors de Carlos Bianchi se fechou, tentou impedir, de todas as formas, que o Newell’s chegasse ao gol da classificação. Uma equipe organizada, bem postada e que segurou o empate.

Os pênaltis vieram e uma disputa de pênaltis, como se sabe, é muito mais mental do que técnica. E por isso o Boca teria a vantagem. É um time mais experiente na Libertadores, conseguiu impedir a vitória do time mais forte na casa do adversário e tem Riquelme e Bianchi. Se a disputa de pênaltis é psicológica, aquilo que se viu foi uma disputa muito mais psico do que lógica. Nenhuma lógica sobrevive à insanidade de 13 cobranças para cada lado para decidir quem se classifica.

Riquelme teve que cobrar duas vezes, porque todos os dez cobradores de cada lado já tinham batido pênaltis. Se na primeira Román errou, na segunda acertou. Mas quem erraria na segunda vez que cobraria era Burrito Martínez. Foi aí que o Newell’s teve, pela quarta vez, a faca e o queijo na mão, o matchpoint para acabar com a disputa. Perdeu as três anteriores, mas desta vez, Maxi Rodríguez cobrou e levou a torcida à loucura no estádio. Era a classificação, esperada, dramática, terrível, mas também épica.

Os perdedores deixaram o gramado lamentando, mas Riquelme juntou os jogadores, tentando animá-los. O capitão do Boca agradeceu à torcida antes de deixar o gramado, enquanto os jogadores do Newell’s comemoravam. Esse espírito se refletiu nas declarações de Bianchi depois do jogo. “Enfrentamos o melhor time da Argentina de igual para igual. Não há motivo para ter vergonha da eliminação”. É verdade. O Boca fez muito em chegar às quartas de final. Por pouco, não foi à semifinal. Uma eliminação é sempre triste e esta foi dramática, mas vergonha não deve ser o sentimento dos bosteros.

Nunca esquecerão esse dia. Nem vencedores, nem vencidos. Nem aqueles que sequer torcem para qualquer um dos dois times. Ficará marcado para sempre na história da Copa Libertadores. E o Newell’s, ainda sem título da Libertadores, vislumbra essa conquista inédita. O sonho segue vivo. Sonho que em 1992 foi parado pelo São Paulo, nessas mesmas disputas de pênaltis que agora glorificaram. E, ao que tudo indica, outro brasileiro estará no caminho dos leprosos. Será que desta vez a história será diferente?

Veja como foi a disputa de pênaltis épica:

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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