Argentina

Simpático ou não, Verón para presidente

Verón não é o tipo de jogador simpático a muita gente. Não é, por exemplo, aos cruzeirenses. Por motivos óbvios, como a vitória na final da Libertadores, em pleno Mineirão. E por outros nem tão óbvios assim, como a sua rixa com o ídolo celeste, Sorín. Em biografia publicada no ano passado, ele jurou, inclusive, que o ex-lateral não compareceu à cerimônia de entrega das medalhas por medo de se ver obrigado a resolver ali mesmo as diferenças.

Verón é assim. Bem simples no trato de suas questões. Objetivo é palavra. Simples e objetivo também era – ou melhor, ainda é – o seu futebol. A exemplo de sua personalidade, a alguns, aí uma parcela menor, bem menor, também jamais soou muito simpático. É o caso do jornalista Enric González, correspondente por muito tempo do “El País” na Itália e jura que jamais ter sido agraciado por uma boa atuação do meia argentino.

Ficou feliz, por exemplo, ao tomar nota da transferência do jogador para o Manchester United, alguns anos atrás. Curta e grossa explicação: não gostava dos ingleses. Ainda não gosta. Como também não gosta muita gente de Verón. Confesso que, vez por outra, flutuo por esse grupo. Nunca o achei merecedor de uma transferência na faixa dos 40, 50 milhões, como ocorreu na sua ida para Old Trafford.

Vou de encontro a caras como Zico, que veem na simplicidade o ápice do futebol. Verón conseguiu chegar perto dele. Deveria ser reconhecido por isso, e é. Como também pelo sentido gerencial que sempre mostrou em campo. Em entrevista ao colega Leonardo Faccio, autor do livro “Messi, o garoto que sempre chegava tarde (e hoje é o primeiro)”, contou uma passagem interessante a respeito de seu jeito de ser.

Messi, que passava suas noites assistindo seriados com narcotraficantes colombianos, não conseguia dormir depois da notícia dada por Maradona. A notícia de que carregaria a braçadeira de capitão na última Copa. Pediu conselhos a Verón, companheiro de quarto. Queria saber como se portar. Verón foi sucinto. “Fale o que sentir”. Messi não falou e a Argentina travou.

Verón joga, fala e faz o que sente. Nunca se importou muito com a opinião dos outros. Talvez venha dessa a minha, a sua antipatia em relação a ele. Não deveria. Em contagem regressiva para o fim de sua carreira, o meia me parece ser aquela pessoa de quem dá pra se esperar algo novo, diferente. Quando digo algo novo, diferente, me refiro ao extracampo, a possíveis avanços nas questões gerenciais. Sempre refletiu essa imagem. Foi o que corroborou, em papo no já longínquo 2009, o repórter do La Nación, Claudio Mauri. “Ele é o diretor da equipe”.

Por equipe, Mauri referia-se ao Estudiantes. Uma aventura com data já acertada para término – ainda que não definitiva: fim do ano. A partir de lá, o jogador abre espaço para que o diretor assuma. Ainda ontem, Verón confirmou que passará a trabalhar na seleção argentina. Não mais como jogador, como esteve em agosto. E, sim, como dirigente – ou manager, um termo que não cai bem aos ouvidos de muitas pessoas pelos cantos da Afa. Dirigente, segundo explicou, do time principal e também das equipes menores, principalmente destas. Não é algo totalmente novo, o diário “Olé” já havia levantado a bola em agosto.

A julgar pela revolução que empreendeu no Estudiantes e por suas palavras também nesse sentido quando trata o futebol do país, dá pra esperar trabalho, bastante de alguém que não se conformará em ser apenas mais um no prédio de Ezeiza. Para ter ideia de seu comprometimento com o que assume, ao retornar ao Estudiantes, além de tê-lo feito numa espécie de aposta para trazer consigo também Nico Burdisso, financiou a compra de uma nova academia para a equipe, um ônibus para os garotos, abriu mão de parte de seus salários para investir na base e também na compra do volante Rodrigo Braña e por aí vai. Deu o seu toque de Midas em metade de La Plata e colheu. É esperar que colha também com a Argentina, seja ele simpático a você, a mim, ao Enric González ou não.

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Equipe Trivela

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