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Artilheiro do Mundial de 30, Stábile também foi técnico do timaço que nunca pôde ganhar a Copa

Guillermo Stábile quase sempre é lembrado como o artilheiro da primeira Copa do Mundo. O baixinho de enorme velocidade e faro de gol impressionante anotou oito gols no Mundial de 1930, liderando a Argentina rumo ao vice-campeonato. Aquelas foram as únicas partidas do ídolo do Huracán na seleção, antes de rumar para o futebol europeu graças à fama feita no Uruguai. O centroavante defendeu Genoa, Napoli e Red Star Paris, antes que a carreira fosse encurtada pelas lesões. Sem dúvidas, Stábile merece ser homenageado por tudo o que fez na Copa. Mas, no dia em que lenda completaria 110 anos, vale dizer que foi muito além.

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Quando vivia os seus últimos dias como jogador no Red Star, o clube fundado por Jules Rimet, Stábile mostrou que continuaria no futebol mesmo depois de pendurar as chuteiras. O argentino conciliava o ofício de atacante com o comando do time. Conquistou, inclusive, o acesso para a primeira divisão do Campeonato Francês, antes de receber o convite para assumir a seleção argentina em 1939. Ao mesmo tempo, também dirigia o San Lorenzo estrelado pelo espanhol Lángara, que ficou famoso por uma excursão no Brasil da qual saiu invicto.

A contribuição de Stábile à Albiceleste como técnico é muito maior do que a como jogador. Afinal, o comandante montou um dos maiores esquadrões da década de 1940 e construiu a maior hegemonia da história da Copa América. Entre 1941 e 1947, os argentinos levantaram a taça em quatro das cinco edições do torneio, ficando com o vice na outra. Timaço que, baseado na Máquina do River Plate, contava com Moreno, Pedernera, Sastre, Masantonio, Peucelle, Loustau e outros nomes tratados como mitos no futebol local. Pelas mãos do treinador, inclusive, é que o jovem Alfredo Di Stéfano chegou à equipe nacional.

A Segunda Guerra Mundial, contudo, impediu Stábile de ter o seu trabalho como técnico devidamente reconhecido pelo resto do mundo. Quando a Albiceleste estava no auge, o Mundial não foi realizado. E a greve de jogadores de 1949, assim como o El Dorado colombiano, enfraqueceu o seu elenco a partir da década de 1950. Entre discordâncias com a Fifa e os problemas internos, Argentina se ausentou das Copas do Mundo de 1950 e 1954, assim como das Copas Américas de 1949 e 1953. Durante aquela época, ao menos, Stábile colhia os louros no Campeonato Argentino, tricampeão com o Racing entre 1949 e 1951.

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A retomada da seleção em competições aconteceu em 1955, com a reconquista da Copa América. Dois anos depois, o bicampeonato, com direito a uma vitória por 3 a 0 sobre o Brasil de Gylmar, Djalma Santos, Zizinho, Evaristo, Didi e Pepe. O problema é que aquela geração argentina não possuía os mesmos talentos dos anos 1940 e os remanescentes já estavam em fim de carreira. Na Copa de 1958, a maior decepção de Stábile. O time já tinha demonstrado sinais de fraquezas nas Eliminatórias, ao perder para a Bolívia por 2 a 0 em La Paz. Mas na Suécia o vexame foi ainda maior. Sob a batuta dos veteranos Amadeo Carrizo e Ángel Labruna, a Albiceleste perdeu na estreia para a Alemanha por 3 a 1 e foi humilhada pela Tchecoslováquia por 6 a 1. A Argentina fechou a fase de grupos na lanterna do grupo.

Aquela foi a gota d’água para Stábile, após mais de 100 jogos e 19 anos no comando da seleção. O técnico ainda voltaria para conquistar o Pan-Americano de 1960, mas sequer teve a chance de disputar o Mundial de 1962. A partir de então, o (ainda hoje) comandante mais vencedor da história da Albiceleste começou a trabalhar como diretor da Escola Nacional de Técnicos. E faleceu em 1966, aos 61 anos, sem sequer ver a Argentina campeã do mundo. Uma honraria que poderia ser dele, como jogador ou treinador.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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