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A tarde em que Ghiggia transformou o Maracanazo em realismo mágico

Hy-Brasil, O'Brazil e mais um montão de nomes definem uma uma ilha fantasma, no Oceano Atlântico, que só é visível a cada sete anos. Porém, mesmo quando é visível, ela não pode ser visitada. Você navega, vê, navega, vê, navega mais um pouco, cansa o braço, morre de frio, navega mais um pouco, mas não consegue alcancá-la. É uma perseguição implacável a algo visto e, ao mesmo tempo, impossível de ser sentido. Essa lenda irlandesa tem aproximadamente 700 anos. Até onde chega a nossa historiografia, o nome da ilha não tem relação comprovada com o nome que o nosso país receberia dos portugueses. Bem, pode não ter a ver com o nome. Só que tem relação com algumas coisas que, de vez em quando, insistem em acontecer nesta parte do planeta.

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O Maracanazo é um exemplo. A derrota na Copa de 1950 para o Uruguai vai continuar existindo para sempre, visível a cada ano, latejando na cabeça de cada brasileiro que já viveu, que vive e que ainda vai nascer. Mas, a partir de hoje, será impossível tocá-la fisicamente. A morte do uruguaio Alcides Ghiggia encerra o último capítulo de uma história de 65 anos – e num 16 de julho.

Ghiggia fez o gol da vitória uruguaia. Era o último jogador vivo daquele jogo. Sua morte foi divulgada pouco depois das 18h – o jogo de 1950 acabou por volta das 17h. O herói da Celeste se foi exatamente 65 anos depois do jogo em que impôs um silêncio de gerações ao Maracanã. Para deixar tudo ainda mais impressionante, Ghiggia morreu de ataque cardíaco – a doença, por definição, de toda pessoa que ama futebol.  A doença do coração que para de bater, que se parte, que se rompe. A doença que virou uma metáfora, até desgastada, para o que cada brasileiro sentiu quando Ghiggia chutou aquela bola no Maracanã.

– A MEMÓRIA: O encontro com os heróis derrotados de 1950
– A REVANCHE: Os jogos de 1965 entre brasileiros e uruguaios
– A HOMENAGEM: Por que Ghiggia merece os nossos aplausos 

Todos aqueles homens da final de 1950 eram grandes personagens e protagonizaram grandes cenas, dignas da obra trágica e mágica do Maracanazo. Uma delas, a minha favorita, é a do goleiro brasileiro Barbosa queimando as traves do gol de Ghiggia durante um churrasco. Porém, sempre faltaram as cenas finais. Cenas de Ghiggia administrando um supermercado perdido no Uruguai, o heroi que não precisa de mais nada exceto seu próprio heroísmo, eram boas – mas nunca foram suficientes para encerrar o livro. Até hoje. Ghiggia, administrando o mercado, morrendo no aniversário do dia mais triste do futebol brasileiro e no mais feliz do futebol uruguaio, no fim de uma tarde de inverno…

Essa é uma bela cena para fechar essa história. Tão boa que permite dizer que, se o Maracanazo não existisse, infelizmente, ele precisaria ser inventado.

A América Latina é o continente do realismo mágico na literatura – a escola que tratava o inacreditável como se fosse rotina, como se fosse banal. A Argentina nos deu Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. A Colômbia, Gabriel García Márquez. Brasil e Uruguai tiveram grandes autores de realismo mágico, mas nenhum deles conseguiu inventar uma história como o Maracanazo. Porque o Maracanazo, no final das contas, virou a obra insuperável desses dois países – que já foram apenas um, entre 1817 e 1825.

Em vez de começar no papel e povoar a memória de milhões de pessoas, o realismo mágico do Maracanazo começou no gramado – e Ghiggia é indiscutivelmente seu maior personagem.  Ele fechou a história e uniu Brasil e Uruguai para sempre. É uma lenda que paira no tempo – que a gente vê, e quer esquecer, vê e quer esquecer, vê e quer esquecer. Mas ela vai continuar sempre lá, chutando a bola no gol de Barbosa… A gente vê de longe, mas nunca mais vai poder tocar.

 

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