Alemanha

‘Na Alemanha, o torcedor é rei’: Por que política de ingressos da Bundesliga deveria ser referência

Especialista explica à Trivela motivo para clubes alemães priorizarem laços com torcedores em detrimento do lucro ao definir preços das entradas

Ano após ano, a Bundesliga se mantém como o campeonato com uma das maiores taxas de ocupações de seus estádios. Além da presença massiva em todas as rodadas, os torcedores preservam a cultura apaixonante das arquibancadas. E isso não seria possível se não fosse pelos preços acessíveis dos ingressos em comparação a outros locais.

Para 2025/26, os season tickets — pacotes de ingressos para toda temporada — mais baratos da Bundesliga variam de 150 a 260 euros (cerca de R$ 896 a R$ 1.500). Já na Premier League, por exemplo, os valores das entradas desta temporada vão de 345 a 1.127 libras (em torno de R$ 2.300 a R$ 7.700).

É mais caro assistir aos jogos de todas as equipes da League Two, a quarta divisão inglesa, em 2025/26 do que comprar o season tickets do Bayern de Munique. Enquanto os Bávaros cobram 175 euros (aproximadamente R$ 1.000) pelas entradas anuais, o Fleetwood Town disponibiliza seu pacote mais acessível por 199 libras (cerca de R$ 1.360).

A explicação para isso ultrapassa a esfera mercadológica, conforme analisa o professor de Economia dos Esportes Dominik Schreyer, na WHU – Otto Beisheim School of Management, da Alemanha.

A definição dos preços na Alemanha é menos influenciada pela lógica do mercado e mais pela cultura e política dos clubes — conta ele à Trivela.

Se aprofundar no tema é chegar à conclusão de que a política de definição dos preços da Bundesliga poderia ser referência no mundo.

Por que preços de ingressos na Bundesliga têm significado ‘simbólico’?

Thomas Müller em campanha de ingressos do Bayern
Thomas Müller em campanha de ingressos do Bayern em 2010/11 (Foto: Imago)

Vamos a uma breve viagem no tempo. O ano é 2010, e um artigo do jornal “The Guardian” já destacava como a Bundesliga é “antítese” da Premier League no que diz respeito à precificação de bilhetes.

Os ingressos para assistir a um jogo do Borussia Dortmund na época custavam em média 15 euros. O mais barato do Manchester United girava em torno de 27 libras, que seriam cerca de 31 euros na ocasião.

“Na Alemanha, o torcedor é rei”, escreveu o jornalista Jamie Jackson. A premissa prevalece após mais de 15 anos.

Torcedores do Dortmund  em 2010
Torcedores do Dortmund em 2010 (Foto: Imago)

Em 2022/23, o valor médio que os torcedores na Alemanha desembolsaram no bilhete que permite assistir a todos os jogos do ciclo da Bundesliga — o “tíquete de temporada” — em arquibancadas sem assentos era de 196,80 euros, segundo a “DW”, equivalente a 11,57 euros por partida.

Na famosa Muralha Amarela do Dortmund, a mais cara da liga, os aurinegros tinham que pagar em torno de 240 euros — 14,11 euros por jogo. Esse preço subiu para 250 euros em 2023/24 e foi alvo de protestos dos torcedores.

— Clubes alemães seguem a lógica econômica padrão, mas a aplicam moderadamente e com limites sociais mais claros se comparado a outras ligas europeias ou esportes americanos. (…) Os preços dos ingressos são decisão de governança — afirma Schreyer.

O especialista destaca o papel da regra 50+1 neste contexto. Segundo ele, grandes aumentos nos valores podem causar resistência da torcida nas assembleias e no conselho.

— A cena organizada de torcedores, especialmente os ultras, é influente. Eles não são consumidores marginais, mas sim centrais para o produto do estádio. Consequentemente, os preços têm significado simbólico. Aumentos significativos podem ser interpretados como comercialização excessiva e provocar protestos coordenados — enfatiza.

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O lado cultural da precificação dos ingressos na Bundesliga

A política “conservadora” de clubes alemães ao definir os valores dos ingressos não é restrita à primeira divisão do país e prevalece mesmo diante da alta demanda.

A Bundesliga e a Bundesliga 2 tiveram juntas seis times entre as 20 maiores médias de público do futebol europeu em 2025, de acordo com dados do “Transfermarkt”. Os dois primeiros colocados do ranking são Borussia Dortmund e Bayern de Munique, respectivamente.

Arquibancada com torcedores do Real Madrid no Bernabéu em 2025
Arquibancada com torcedores do Real Madrid no Bernabéu em 2025 (Foto: Imago)

O preço do passe de temporada do Real Madrid para os 19 jogos em casa em LaLiga em 2025/26 variou entre 305 e 2.462 euros — em experiências premium –, segundo o jornal “El Desmarque”.

O ingresso por partida costuma mudar conforme o duelo. Real Madrid x Getafe na rodada 26 custou de 75 a 115 euros nas categorias gerais e entre 250 e 850 euros como VIP.

Já no El Clásico contra o Barcelona o preço foi de 148 a 465 euros nas categorias gerais, e no VIP, o bilhete mais barato custou 990 euros.

No Manchester United, o tíquete de temporada esteve de cerca de 710 a 1.330 euros e compreendia as 19 rodadas como mandante na Premier League, conforme informações do “The Athletic”. O valor por duelo está entre 111 e 36 euros, a depender do jogo.

Em relação ao Milan, torcedores puderam pagar de 300 a 3.700 euros — experiências premium — para ter direito a assistir aos 19 embates da Série A no San Siro, que está distante das modernas e tecnológicas arenas em outras ligas.

O ingresso por jogo também varia conforme o peso do confronto. Contra Torino, assentos padrões vão de 19 a 139 euros, já diante da rival Internazionale, o mínimo é 134 euros, e o máximo, 529 euros.

O valor do tíquete de temporada no Dortmund para 2025/26 é de 1.100 euros na Categoria 15 (64,70 euros por jogo) e 905 euros na Categoria 1 (53,23 euros por jogo). Na arquibancada para ficar em pé, 260 euros (15,29 por jogo). Os montantes permitem ver in loco os 17 embates do time como mandante na Bundesliga.

No caso do Bayern, a entrada da Categoria 1 custa 890 euros (52,35 por jogo), e da Categoria 5 — que permite assistir em pé –, 175 euros (10,29 por jogo).

Se optar por ingressos avulsos, fãs do Dortmund podem desembolsar entre 18,50 e 77 euros para assistir ao duelo, e os torcedores bávaros, de 15 a 80 euros.

Acessibilidade faz parte da identidade da Bundesliga. Estádios cheios, arquibancadas para assistir ao jogo em pé e acessibilidade são ativos estratégicos — afirma o especialista.

Placa informa que ingressos para jogo do Hamburgo estão esgotados (Foto: Imago)

O ponto de referência é a base de fãs local, não a Premier League. Consequentemente, copiar os níveis de preço ingleses seria visto como desalinhamento cultural. (…) A comparação internacional é economicamente marginal e culturalmente incompatível com o modelo alemão — destaca.

Os clubes da Alemanha não sentem tanto o peso do que poderiam lucrar se equiparassem os valores aos praticados em outras ligas porque o eventual lucro não valeria o risco do impacto na reputação e na relação com seus fãs, analisa Schreyer.

Além disso, a receita de bilheteria representa fatia menor dos rendimentos totais dos times.

O Bayern de Munique é o clube alemão que registrou maior receita em 2025 (860,6 milhões de euros) de acordo com o “Deloitte Football Money League”. A parcela significativa do total compreende ao comercial (461 milhões), seguida pela parte relacionada à transmissões (252 milhões).

Torcida do Bayern em jogo na Allianz Arena
Torcida do Bayern em jogo na Allianz Arena. Foto: Imago

O Dortmund, por sua vez, registrou 531,3 milhões no geral, dos quais 227 milhões são referentes às transmissões e 209 milhões estão na conta do comercial.

— Do ponto de vista da economia do estádio, a maior parte da receita dos jogos vem de um número relativamente pequeno de lugares de hospitalidade e empresariais. Assentos padrões, especialmente as áreas em pé, contribuem menos financeiramente, mas são cruciais para a atmosfera, que depois é valorizada por patrocinadores e emissoras que buscam estádios cheios — ressalta o professor.

Essa cultura gera retornos que agregam mais valor à marca. “Alta ocupação, forte renovação de ingressos de temporada, demanda estável em ciclos mais fracos e uma marca global distinta. A atmosfera é parte do produto”, diz ele.

Proteger a cultura dos torcedores não é antieconômico, é otimização intertemporal.

Em outras palavras, a lógica costuma ser volume em vez de preço. E o histórico de torcedores leais, que lotam os estádios independentemente das circunstâncias, contribui nisso.

Equilíbrio é a chave para evitar o risco a longo prazo

Essa lealdade normalmente tem conexões com o local em que se reside e é passada de geração em geração. Por isso o professor diz que o maior risco em relação ao público da Bundesliga no futuro é que a paixão não esteja mais nos estádios.

Valores muito altos inviabilizariam a ida de grupos de baixa renda aos jogos e o futebol alemão perderia dois dos principais ativos: acessibilidade e atmosfera.

Torcida do Hoffenheim em jogo da Bundesliga
Torcida do Hoffenheim em jogo da Bundesliga (Foto: Imago)

Há ainda o risco na demanda impulsionada pelo turismo.

Embora possa aumentar as receitas de um clube a curto prazo, a vertente tende a ser um problema a longo prazo, explica Schreyer. “Turismo excessivo pode diluir a atmosfera e enfraquecer a experiência central”, analisa.

— Iniciativas como o “Fortuna For All”, do Fortuna Düsseldorf, em que o clube da Bundesliga 2 oferece entrada gratuita para determinadas partidas com o apoio de patrocinadores locais, ilustram essa lógica. Os executivos reconhecem que, se muitos torcedores locais não puderem comparecer, o crescimento e a marca vão sofrer a longo prazo.

Neste sentido, o desafio é a segmentação estratégica, que permite equilíbrio entre a monetização de setores premium e de demais áreas para facilitar aos alemães.

A redução de preços não é a ameaça estrutural. Perder a próxima geração, sim — conclui Dominik Schreyer.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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