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Foi contra o Liverpool que o Dortmund colou a sua primeira figurinha das copas europeias

O peso do confronto é de decisão, mas acontece logo pelas quartas de final da Liga Europa. Borussia Dortmund e Liverpool farão o confronto das camisas mais pesadas ainda vivas no torneio, e cheio de nuances. Além dos reencontros de grandes personagens que envolverão os jogos no Signal Iduna Park e em Anfield, há um rico passado entre os gigantes. Afinal, aurinegros e alvirrubros já decidiram taça continental uma vez. Há 50 anos, o Dortmund bateu o Liverpool na decisão da antiga Recopa Europeia. Dentro do Hampden Park, em Glasgow, os alemães colaram a primeira figurinha europeia de seu álbum.

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Os tempos eram um tanto quanto diferentes nos dois clubes. O Dortmund vivia um momento de ascensão no futebol alemão. Conquistou os seus dois primeiros títulos alemães no final dos anos 1950 e havia se tornado candidato recorrente à taça com o início da Bundesliga, repetindo a comemoração na última edição da antiga Oberliga, em 1962/63. Para ir à Recopa, também erguera a Copa da Alemanha pela primeira vez em 1965. Já o Liverpool começava a estabelecer sua hegemonia sob as ordens do lendário técnico Bill Shankly. Conseguiu ser campeão inglês em 1964 e 1966, além de quebrar o seu jejum na Copa da Inglaterra de 1965, vencendo o Leeds de Don Revie na decisão.

Os dois times fizeram por merecer a vaga na final, batendo grandes adversários ao longo da campanha. O Dortmund deixou para trás Floriana e CSKA Sofia (base da Bulgária que disputou a Copa de 1966) antes de seus maiores desafios. Nas quartas de final, eliminou o forte Atlético de Madrid, dos lendários Aragonés, Adelardo e Ufarte. E ainda superou o West Ham nas semifinais, com direito a vitórias em Upton Park (2×1) e no antigo Estádio Rote Erde (3×1). Do outro lado, estavam Bobby Moore, Geoff Hurst e Martin Peters, que protagonizariam o título mundial da Inglaterra três meses mais tarde.

O Liverpool, por sua vez, começou logo superando uma pedreira: a Juventus de Luis del Sol, Chinesinho e Gianfranco Leoncini. Na sequência, o adversário foi o Standard de Liège, antes de derrotar o Honvéd de Lajos Tichy e Ferenc Sipos, estrelas da Hungria que eliminou o Brasil no Mundial de 1966. Já nas semifinais, ninguém menos que o célebre Celtic de Jock Stein, preparando-se para faturar a Champions na temporada seguinte. Apesar da derrota por 1 a 0 em Glasgow, os Reds avançaram graças ao triunfo por 2 a 0 em Anfield. Ao longo daquela temporada, os Reds conseguiram a proeza de usar apenas 14 jogadores – sendo apenas cinco substituições em todas as competições.

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A decisão aconteceu sob uma chuva torrencial no Hampden Park. Por isso, as arquibancadas estavam aquém de sua capacidade, com 41 mil espectadores – em esvaziamento que também costuma ser explicado pelas pioneiras transmissões ao vivo na TV. Apesar do gramado alagado, o primeiro tempo contou com boas chances para os dois lados, e o destaque ao goleiro Tommy Lawrence. Gols, no entanto, só na etapa complementar. Explorando os contra-ataques, Sigfried Held abriu o placar aos alemães com 16 minutos com um belíssimo chute de fora da área, mas logo na sequência o Liverpool buscou a igualdade com Roger Hunt – em tento assinalado como irregular pelo bandeira, após a bola sair pela linha de fundo, mas confirmado pelo árbitro. A jogada gerou enorme confusão, com direito a invasão de campo, antes que o duelo fosse reiniciado.

Sem novos gols no tempo regulamentar, a final seguiu para a prorrogação. E consagrou um herói improvável em Dortmund. Criado na base do Schalke 04, Reinhard Libuda é considerado um dos maiores ídolos dos Azuis Reais. Ainda assim, passou três anos nos rivais e marcou o tento que, segundo a própria torcida aurinegra, foi o segundo mais importante do clube no século – atrás apenas da consagração na Champions de 1997. O lance decisivo aconteceu aos dois minutos do segundo tempo extra. Após uma saída de bola de Tommy Lawrence, Libuda tentou encobrir o goleiro da intermediária. A bola tocou na trave, no capitão Ron Yeats e entrou. Sorte de campeão.

Por 31 anos, a Recopa permaneceu como única conquista continental do Dortmund. E, em alta, o clube cedeu três titulares à Alemanha Ocidental para a final da Copa do Mundo de 1966: o goleiro Hans Tilkowski, o ponta Lothar Emmerich e o centroavante Sigfried Held. Na polêmica decisão, porém, quem comemorou foi Roger Hunt, principal representante dos Reds na seleção inglesa. Uma história que merece ser relembrada, diante do novo capítulo que se escreverá na Liga Europa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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