Felizes, mas encrencados

Nesta quarta-feira, a seleção alemã precisava vencer Gana para assegurar um lugar nas oitavas de final e espantar a zebra que rondava o Grupo D. O golaço de Özil, além de selar a vitória por 1 a 0, também foi capaz de garantir ao time a primeira colocação da chave e acabar com a apreensão que tomava conta do país inteiro. Os comandados de Joachin Löw não contavam, porém, com as patinadas da Inglaterra, que tropeçou contra norte-americanos e argelinos e ficou com a segunda posição no Grupo C. As duas equipes agora se enfrentam nas oitavas de final.
O confronto, que já foi final de Copa do Mundo em 1966, quartas de final em 1970 e semifinal em 1990, será o segundo jogo entre campeões mundiais dessa Copa – o primeiro foi o patético 0 a 0 entre França e Uruguai -. E provavelmente mudará um pouco os planos de Joachin Löw, afinal de contas, encarar norte-americanos ou eslovenos nas oitavas seria muito mais cômodo, e, para que isso acontecesse, bastaria apenas sofrer o empate contra os ganenses.
Por mais que o discurso externo do comandante alemão seja o de que “em Copa do Mundo não se pode escolher adversários”. A ideia de vencer as oitavas de final com relativa tranquilidade e jogar tudo contra a Argentina nas quartas para chegar as semifinais e, assim, igualar o resultado de 2006, certamente passou pela cabeça de Löw. O que é bastante compreensível, pois ficar entre as quatro primeiras seleções do mundo com uma equipe jovem e remendada, já seria um grande feito.
Contra os ingleses, porém, isso não vai ser possível, e os motivos são óbvios. Os ingleses possuem um time individualmente qualificado e experiente, que deu mostras de evolução no primeiro tempo da vitória contra a Eslovênia. Além disso, a competência de Fabio Capello como treinador é inquestionável, e ele tem totais condições de acertar a mão a partir da segunda fase.
Caso percam, os comandados de Löw entrarão para a história negativamente: seria a segunda vez que uma seleção alemã não fica entre as oito primeiras colocadas de um Mundial. A primeira foi em 1938, na França, quando eles foram eliminados pelos suíços logo na primeira fase. O restante do retrospecto é invejável: foram três títulos, quatro vice-campeonatos, quatro eliminações nas semifinais e quatro nas quartas de final – ou segunda fase de grupos, no caso de 1978 -.
Sobre a partida contra Gana, pode-se dizer que, em vários momentos, os alemães toparam com um adversário covarde e pouco criativo, mas que, dono de um contra ataque veloz, teve chances de empatar e até de vencer o jogo. O goleiro Neuer ajudou a evitar o desastre com uma atuação segura e viu o capitão Philipp Lahm salvar dois gols, sendo um deles em cima da linha, mostrando mais uma vez que vive um momento técnico exuberante.
No meio-campo, quem comandou as ações foi Bastian Schweinsteiger, que atuou como primeiro volante, marcou, iniciou jogadas e acrescentou muita qualidade à saída de bola do time. Ele foi substituído por Toni Kroos após sentir uma lesão na coxa, e, dependendo da seriedade do problema, poderá desfalcar a equipe no duelo contra os ingleses. O que seria, por si só, catastrófico, pois não há uma reposição qualificada no banco de reservas.
Entre os jovens, Sami Khedira e Thomas Müller tiveram uma atuação discreta, muito aquém das duas primeiras partidas. O primeiro ainda compensou com muita luta na defesa, assumindo o posto de primeiro volante após a saída de Schweinsteiger, mas o segundo acabou sendo substituído por Piotr Trochowski, que entrou bem, acrescentou velocidade ao time pelo lado direito e poderá ganhar a posição se mantiver o nível demonstrado.
Quem acabou sendo decisivo, porém, foi Özil, que fez o gol da vitória com um belo chute de fora da área. Mas o fato é que, durante o jogo inteiro, ele errou muito mais do que acertou, oscilando muito e falhando na articulação de jogadas. Ele perdeu uma chance cara a cara com o goleiro no primeiro tempo e ainda tentou simular um pênalti pela segunda vez nesse Mundial, mostrando que ainda precisa amadurecer mentalmente para aproveitar o imenso potencial que possui.
No ataque, Podolski e Cacau correram muito, lutaram contra uma defesa bem postada, mas tiveram atuações discretas, sem muito brilho, assim como Jerome Boateng, que entrou no lugar de Badstuber e chamou mais a atenção por fazer o histórico duelo com seu irmão, Kevin-Prince. Na zaga, Mertesacker e Friederich cometeram pequenas falhas, mas no geral não comprometeram.
Peso tirado das costas
Após o jogo, o clima entre os alemães era de alívio pela classificação conquistada, sobretudo para Mesut Özil, herói da classificação. “Fiquei triste com a chance perdida no primeiro tempo, mas pude me redimir com o gol da vitória e ajudar a seleção alemã”, declarou. Ele foi, obviamente, capa dos grandes jornais nacionais, que, em algum momento de suas matérias sobre o jogo, usaram a frase “Özil leva alemães à felicidade” para descrever o sentimento no país.
O Kaiser Franz Beckembauer, por sua vez, ressaltou a importância da classificação e foi além: disse que os alemães chegam para as oitavas mais fortes do que os ingleses. “Nossos jogadores estão mais descansados, e isso faz sentido, porque se disputa menos partidas na temporada alemã”, escreveu, em artigo para o jornal “Bild”.
Na entrevista coletiva pós o jogo, o técnico Joachin Löw fez algumas críticas ao time, que, segundo ele, tocou mal a bola e, por isso, teve que correr muito para criar oportunidades. Ele afirmou que confia numa melhora nas oitavas de final, mas também se mostrou muito preocupado com a contusão de Schweinsteiger e certamente já pensa nas possibilidades de remontar o time sem o seu meio-campista mais experiente.



