Alemanha

Como um sonho: Autor de um golaço, Podolski viveu a despedida perfeita da seleção

“Traumtor”. A palavra em alemão é usada para definir um verdadeiro golaço. Ao pé da letra, quer dizer “o gol dos sonhos”. E poucas vezes seu uso se encaixou tão bem quanto nesta quarta, no Signal Iduna Park, durante a despedida de Lukas Podolski da seleção alemã. Afinal, o camisa 10 anotou uma pintura que certamente só habitava em seus melhores sonhos. O duelo contra a Inglaterra teve pouca coisa interessante. Com um time cheio de novatos, o Nationalelf sofria e via Marc-André ter Stegen segurar o empate. Até Poldi aparecer. Até Poldi sublinhar a história marcante que escreveu com a equipe nacional. Até anotar o Traumtor que encerra de maneira brilhante a trajetória de 130 jogos e 49 gols pela Alemanha (terceiro maior do país em ambos os números), definindo a vitória por 1 a 0 sobre os ingleses.

A emoção tomou conta da atmosfera em Dortmund antes mesmo do apito inicial. Como esperado, Podolski vestiu a braçadeira em sua última partida. Recebeu homenagens da seleção alemã, recebendo (com os olhos marejados) uma placa e flores antes da execução dos hinos. Enquanto isso, nas arquibancadas, as lembranças se espalhavam entre os torcedores. Foram dezenas de cartazes agradecendo ao camisa 10. E a Muralha Amarela, tão famosa por seus mosaicos, não deixou a ocasião passar em branco, escrevendo o apelido de Poldi em meio às cores da seleção.

mosaico

Quando a bola rolou, entre duas seleções recheadas de garotos, a Inglaterra conseguiu impor o seu jogo. Trocava passes com qualidade, trabalhava no campo de ataque e forçava a saída de bola alemã. Mesmo com Toni Kroos e Julian Weigl à frente da zaga, o Nationalelf errava muitos passes. E o gol dos ingleses só não saiu por detalhes. Adam Lallana chegou a carimbar a trave, enquanto Ter Stegen salvou no mano a mano com Dele Alli.

A Alemanha melhorou na volta para o segundo tempo. Ter Stegen até voltou a trabalhar, com defesaça em chute cruzado de Eric Dier, mas o time de Joachim Löw começava a encontrar mais espaços no ataque. Julian Brandt incomodava pela ponta direita e, substituído, viu André Schürrle manter o seu serviço. Enquanto isso, Podolski parecia preparar algo especial. O camisa 10 já tinha protagonizado os raros ataques germânicos na primeira etapa. Passou a chamar o jogo ainda mais para si. Até tirar o coelho da cartola, aos 24 minutos.

A jogada do golaço não nasceu do nada. Começou em uma ótima troca de passes dos alemães no ataque. Até Schürrle preparar a bola para o homenageado da noite, Podolski. O atacante limpou o caminho e, do meio da rua, soltou o balaço de canhota. O chute cheio de efeito tinha um destino certo: o ângulo da meta de Joe Hart, indefensável. O que a ocasião especial precisava para uma explosão de alegria e de aplausos para o veterano. Na comemoração, o camisa 10 pôde extravasar toda a sua euforia.

Depois disso, já não havia muito mais a se esperar do jogo. Foram mais algumas chances de gol, a principal delas em chute rasteiro de Leroy Sané, que Joe Hart conseguiu agarrar. O melhor ficaria para a substituição de Podolski. Saiu ovacionado pelos torcedores no Signal Iduna Park, de maneira completamente merecida. Um ponto final a uma carreira respeitabilíssima na seleção – que, no fim das contas, acaba sendo infinitamente mais notável que sua trajetória por clubes. Quando a bola parou de rolar, Poldi foi festejado pelos companheiros, enquanto também celebrou subindo as grades para abraçar a torcida – incluindo torcedores do Colônia, o clube onde é ídolo.

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Ao longo dos últimos 13 anos defendendo o Nationalelf, Podolski não foi o jogador mais constante. Surgiu como um fenômeno em seu início, sobretudo na Copa de 2006, e com o tempo perdeu importância – mas apenas em campo, e não no ambiente. Se o camisa 10 foi mantido como homem de confiança de Joachim Löw por tanto tempo, isso também aconteceu por aquilo que agregou além do futebol. Pela personalidade e pela longevidade, se tornou uma das lideranças da equipe. E, mesmo participando pouco dos jogos, ajudou bastante na conquista do Mundial de 2014. Os alemães souberam lidar com a responsabilidade sem sentir o peso sobre as costas. Poldi contribuía para esta leveza e para a identidade que se criou em um grupo de jogadores mais brasileiros que o próprio Brasil.

Quando se pensa em Podolski na seleção alemã, é preciso diferenciar dois períodos distintos. Até 2010, o atacante foi um dos protagonistas, autor de 40 gols, já entre os 10 maiores artilheiros do Nationalelf em todos os tempos. A partir de então, se transformou em uma peça útil, mais pela influência do que pelo poder de decisão em si. O que se manteve sempre, ao longo de toda a passagem, foi o sorriso no rosto do camisa 10. Simboliza não apenas a alegria de Poldi por jogar, mas também o orgulho de um país que se reencontrou no futebol através do Mundial de 2006. Coube justamente ao veterano encerrar a história daquela geração na equipe nacional, o último a se despedir entre os membros daquele elenco.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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