Os 50 anos do jogo que transformou a história do Bayern de Munique na Bundesliga
Em junho de 1972, o Bayern fez um confronto direto com o Schalke 04 na rodada final da Bundesliga e faturou o título no recém-inaugurado Estádio Olímpico de Munique

O Bayern de Munique comemora, em 2022, os 50 anos de um marco. Afinal, parte dos torcedores bávaros compreende que o ano fundamental para a transformação do clube numa potência se deu em 1972. Naquele momento, a equipe passou a atuar no Estádio Olímpico de Munique e iniciou uma de suas maiores séries de conquistas, que garantiu um tricampeonato na Bundesliga e também o tri na Copa dos Campeões da Europa. Uma data-chave demarca esse sucesso: 28 de junho. Foi o dia em que o Bayern atuou pela primeira vez no Estádio Olímpico, exatamente numa decisão pela última rodada do Campeonato Alemão. Líder e vice-líder se enfrentavam, com o Schalke 04 podendo impor uma enorme decepção na Baviera se conquistasse o triunfo. O resultado, porém, traduz a supremacia: 5 a 1 para os bávaros, fora o baile. O esquadrão fechou aquela campanha com 101 gols, ainda hoje um recorde da liga, incluindo os impressionantes 40 tentos de Gerd Müller.
Àquela altura, o Bayern de Munique se colocava como uma força na Alemanha Ocidental e também como um dos clubes em ascensão na Europa. Essa grandeza era garantida principalmente por uma geração dourada que emergiu a partir de meados dos anos 1960, sob as ordens do técnico iugoslavo Zlatko Cajkovski, um revolucionário pela forma como lapidou a base e criou uma identidade de jogo à agremiação. Franz Beckenbauer e Sepp Maier eram amigos de infância que mudaram os rumos dos bávaros, num momento em que o Munique 1860 era o principal time da cidade. Apesar da ausência nas primeiras edições da Bundesliga, o Bayern não demorou a decolar a partir de seu acesso em 1964/65. Aquela também foi a primeira temporada de um fenômeno chamado Gerd Müller, o centroavante com porte de halterofilista que passou a empilhar gols.
O final da década de 1960 já é transformador para o Bayern. Tanto é que os louros começam a vir logo na temporada de estreia na Bundesliga, em 1965/66, quando o time paralelamente conquista a Copa da Alemanha depois de um hiato de nove anos. Serão dois representantes do clube na Copa do Mundo de 1966, com Maier servindo de goleiro reserva e Beckenbauer se colocando entre as revelações do torneio. E um passo ainda maior para a fama internacional aconteceu em 1966/67, com o título da Recopa Europeia, no primeiro troféu continental dos bávaros. Apesar do apoio da torcida alemã em Nuremberg, o Rangers tinha uma reputação maior além das fronteiras. Franz Roth determinou a vitória do Bayern por 1 a 0 com uma finalização acrobática. O momento glorioso ainda contaria com o bicampeonato na Copa da Alemanha dias depois.

Os sucessos, todavia, não se tornaram tão frequentes ainda. O Bayern contava com uma espinha dorsal bastante jovem, que pegava embalo. Beckenbauer, Maier e Müller não passavam dos 23 anos e gradativamente ganhavam a companhia de outros símbolos do clube, como Georg Schwarzenbeck e o próprio Franz Roth. Levaria um tempo para que a conquista da Bundesliga finalmente se consumasse, em 1968/69, encerrando um jejum do clube de 37 anos sem faturar o principal troféu da Alemanha – em temporada que ainda rendeu a dobradinha com a Pokal. Nomes como Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Roth e Müller foram onipresentes na campanha da liga. O elenco ainda contava com outros ídolos daquela década, mais veteranos, como Werner Olk, Rainer Ohlhauser e Dieter Brenninger. Já no banco, Branko Zebec mantinha o legado do compatriota Cajkovski e dava mais ênfase ao trabalho de preparação física.
Naquele momento, porém, a hegemonia na Bundesliga passaria às mãos de outro clube. O Borussia Mönchengladbach também desfrutava de sua geração dourada. Günter Netzer, Jupp Heynckes, Rainer Bonhof, Berti Vogts e Herbert Wimmer formavam uma espinha dorsal tão brilhante quanto a do Bayern. Tinham ainda um treinador do calibre de Hennes Weisweiler. Não à toa, os Potros foram bicampeões nacionais em 1969/70 e em 1970/71. Os bávaros amargaram dois vices consecutivos, quatro pontos atrás na primeira campanha e só dois na segunda, com o dessabor de perder a liderança exatamente na última rodada de 1970/71, com uma derrota para o modesto Duisburg. A recuperação na Copa da Alemanha em 1971, com o quarto troféu em seis edições da competição, não era totalmente satisfatória para a qualidade que os bávaros possuíam.
A Copa de 1970 havia elevado os status de Gerd Müller, Beckenbauer e Maier ao de estrelas mundiais. O centroavante levou a Bola de Ouro naquele ano. Os bávaros também faziam grandes campanhas nos torneios continentais, apesar das eliminações durante as fases mais agudas para potências como Milan, Saint-Étienne e Liverpool. Existia margem para aproveitar aquele talento do Bayern e estabelecer feitos maiores. Uma figura decisiva para isso seria Udo Lattek, nomeado treinador em março de 1970. Assistente da seleção, o comandante assumia pela primeira vez um clube. Entretanto, sua escolha tinha sido diretamente recomendada por Beckenbauer e ele vinha respaldado pelos craques da seleção. Não demorou a deslanchar, mesmo que a primeira temporada completa tenha acabado de maneira ruim na Bundesliga 1970/71.

O Bayern entrou na temporada de 1971/72 com um elenco bastante experimentado. Maier, Beckenbauer e Müller passavam dos 26 anos. Outros jogadores de qualidade tinham sido contratados mais recentemente, como o lateral Johnny Hansen e o volante Rainer Zobel. E o setor de formação permanecia como uma fonte inesgotável de talento, agora com a ascensão de Paul Breitner como um craque na lateral esquerda e também de Uli Hoeness como um jogador muito aplicado no setor ofensivo. As credenciais dos bávaros eram evidentes, por mais que a concorrência também merecesse respeito.
O Borussia Mönchengladbach ainda era o principal candidato à Salva de Prata, com a chance de estabelecer um inédito tri na era Bundesliga. Jogadores como Heynckes e Bonhof estavam cada vez mais afiados ao lado do maestro Netzer e do xerife Vogts. O Colônia tinha craques de seleção como Wolfgang Overath e Hannes Löhr. O mesmo se dava com o Eintracht Frankfurt estrelado por Bernd Hölzenbein e Jürgen Grabowski. Era preciso respeitar também o Hamburgo, por mais que Uwe Seeler e Willi Schulz viessem em fim de carreira. Porém, o time que se prontificou como principal ameaça ao Bayern foi o Schalke 04.
Os Azuis Reais não eram campeões nacionais desde 1958 e sequer tinham terminado no pódio da Bundesliga a partir da criação do campeonato em 1963. Mas reuniam virtudes sob as ordens do técnico Ivica Horvat, velho companheiro de Cajkovski e Zebec na seleção iugoslava. Jogadores de seleção sustentavam as ambições do Schalke na defesa, como o goleiro Norbert Nigbur, o líbero Klaus Fichtel, o lateral Helmut Kremers e o zagueiro Rolf Rüssmann. O ataque combinava outros dois convocáveis nas pontas, com Erwin Kremers (irmão gêmeo de Helmut) e o mágico Stan Libuda. Já o homem de referência era Klaus Fischer, que estourava entre os principais atacantes do país.

A temporada de 1971/72 começou com duas vitórias e dois empates do Bayern nas primeiras quatro rodadas. Isso permitiu que o Schalke ocupasse a liderança por 11 rodadas, com nove vitórias nesse intervalo. Em tempos nos quais os resultados da Bundesliga não eram muito lógicos, os Azuis Reais perderam a ponta com uma derrota por 7 a 0 na visita ao Gladbach, então terceiro colocado. Foi a deixa para que o Bayern assumisse brevemente o topo, até ser derrotado pelo Eintracht Frankfurt e permitisse que o Schalke recobrasse a primeira colocação ao final da 15ª rodada. De qualquer maneira, a situação permanecia parelha.
A resposta do Bayern na rodada seguinte veio com um resultado histórico. Foi em 27 de novembro de 1971 que os bávaros golearam o Borussia Dortmund por 11 a 1 em Munique. Os aurinegros vinham num momento de claro enfraquecimento e seriam rebaixados ao final daquela temporada, mas nada que justificasse a sapatada. Era uma prova da qualidade do esquadrão de Udo Lattek, com quatro gols de Gerd Müller. O problema para o time ocorreu na rodada seguinte, com a viagem do Bayern a Gelsenkirchen. O Schalke venceu o confronto direto por 1 a 0 e terminou o primeiro turno na liderança. Os bávaros somavam três pontos a menos, na segunda colocação, enquanto o Gladbach era o terceiro com cinco pontos a menos que os Azuis Reais.
O segundo turno começou com alguns novos empates do Bayern, mas também uma série invicta e goleadas implacáveis. Os bávaros enfiaram 7 a 0 no Oberhausen, 5 a 1 no Bochum, 4 a 1 no Stuttgart, 6 a 2 no Werder Bremen. Nesta altura, assumiram a liderança depois que o Schalke perdeu para Werder Bremen e Hertha Berlim num intervalo de três partidas. De qualquer maneira, faltava mais de um quarto do campeonato para acontecer e muita coisa poderia rolar. O Bayern até voltou a perder, num 3 a 0 para o Duisburg, que já tinha sido algoz na última rodada de 1970/71. Ao menos, isso não custou a ponta, com empates do Schalke contra Gladbach e Kaiserslautern no mesmo período. O clube de Gelsenkirchen também enfrentava turbulências nos bastidores, com a revelação de evidências de um caso de manipulação de resultados na temporada anterior – quando os Azuis Reais facilitaram uma derrota para o Arminia Bielefeld no intuito de evitar o descenso dos adversários. Ao todo, 13 jogadores do elenco seriam suspensos, mas só nos meses seguintes. Desde já ficava o ruído.

Quando restavam mais quatro rodadas para o fim da Bundesliga, o Bayern liderava com um ponto a mais que o Schalke, 47 a 46. Os demais concorrentes já tinham ficado para trás, inclusive o Gladbach, que abusou das derrotas como visitante nesta campanha. E a reta final seria disputada cabeça a cabeça, com uma tabela mais dura para os bávaros. Em 20 de maio, o Bayern ganhou por 4 a 1 do Colônia e o Schalke emplacou 6 a 2 no Arminia Bielefeld. O novo triunfo dos bávaros ocorreu nos 6 a 3 para cima do Frankfurt, ao passo que os Azuis Reais ganharam do Bochum por 2 a 0. E quando o clímax estava perto de ser atingido, uma pausa de três semanas interrompeu a Bundesliga em junho.
A razão era nobre, de fato: a Alemanha Ocidental se classificou para a fase final da Eurocopa, após uma memorável vitória diante da Inglaterra, e disputaria a competição na Bélgica. O Nationalelf teve um pouco mais de uma semana para se preparar, antes de derrotar a Bélgica por 2 a 1 na semifinal e a União Soviética por 3 a 0 na decisão. Era o primeiro passo na consagração de uma geração, que inevitavelmente impactava no Bayern. Seis jogadores do clube foram convocados para a Euro 1972, em elenco dividido com outros sete membros do Gladbach e apenas um do Schalke. O técnico Helmut Schön escalou na decisão Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Breitner, Hoeness e Müller. O centroavante marcou dois para garantir o inédito título europeu.
A Euro 1972 poderia pesar de diferentes maneiras na reta final da Bundesliga. Sem dúvidas, os principais jogadores do Bayern estavam energizados pelo feito com a Alemanha Ocidental. Entretanto, também se desgastaram mais, enquanto o Schalke passou o período em treinamentos. Na retomada do campeonato, os bávaros tiveram um resultado bem mais modesto no reencontro com o Dortmund e venceram por apenas 1 a 0 em Rote Erde, ainda que o gol de Franz Krauthausen tenha saído nos minutos iniciais. O Schalke também sofreu. Só arrancou os 2 a 1 sobre o Stuttgart em Gelsenkirchen aos 44 do segundo tempo, num pênalti convertido por Klaus Fischer. O desempenho em casa dos Azuis Reais naquela temporada seria histórico: com 16 vitórias e um empate, permanecendo até hoje como um recorde da liga.

A rodada final possibilitou uma verdadeira decisão. O Bayern recebeu o Schalke 04 em Munique, com a persistente diferença de um ponto separando o líder do vice-líder. Quem vencesse ficaria com a Salva de Prata, enquanto o empate seria suficiente aos bávaros. E o esquadrão de Udo Lattek teria um reforço importante naquela tarde. Ao longo de toda a campanha, o Bayern tinha disputado seus jogos no Estádio Grünwalder, histórica casa dividida com o Munique 1860 desde 1926. No entanto, o Estádio Olímpico de Munique tinha acabado de ser inaugurado. Um mês antes, a Alemanha Ocidental derrotou a União Soviética por 4 a 1 em amistoso, com quatro gols de Gerd Müller (e quem mais?) para iniciar a história. A primeira partida oficial, e a primeira do Bayern, seria exatamente aquele explosivo embate com o Schalke na última rodada da Bundesliga.
De certa maneira, o Estádio Olímpico foi uma oportunidade providencial para o Bayern de Munique, por todo o seu contexto. Quando a cidade alemã ocidental foi escolhida como sede das Olimpíadas, em abril de 1966, o clube ainda estava em sua primeira temporada na Bundesliga. Ganharia de presente a praça esportiva mais moderna do planeta, pronta para receber também uma Copa do Mundo. Com isso, as possibilidades financeiras se expandiam, em tempos nos quais a bilheteria fazia muita diferença nas receitas. O Estádio Grünwalder não podia receber mais do que 44 mil espectadores, enquanto o Olímpico abrigava quase 80 mil. O dinheiro em caixa seria essencial, inclusive, para que os bávaros preservassem seus craques e oferecessem salários melhores, quando existiam propostas de outros clubes e uma noção de que os astros recebiam menos do que deveriam.
O impacto da ocasião se tornou visível pela mobilização que a partida causou em Munique, mesmo com a transmissão ao vivo da TV local. Uma semana antes, todos os ingressos já estavam vendidos. O Bayern precisou colocar uma placa em sua sede para dizer que “pedidos adicionais são inúteis”. A bilheteria bateu o recorde de 1,1 milhão de marcos alemães. Enquanto isso, as arquibancadas estiveram abarrotadas com 79 mil torcedores. Todos prontos para apoiar os bávaros e presenciar uma ocasião histórica.
Udo Lattek escalou o Bayern com força máxima. Sepp Maier estava no gol, com Beckenbauer e Schwarzenbeck formando a dupla de zaga. Hansen e Breitner eram os laterais. O meio-campo tinha a sustentação de Zobel, com Roth e Hoeness se aproximando do ataque. Franz Krauthausen e Willi Hoffmann eram os pontas, mas quem destruía mesmo no ataque era Gerd Müller. Àquela altura, o Panzer já tinha anotado incríveis 40 gols no campeonato – o recorde que perdurou por 49 anos, até que Robert Lewandowski ousasse superá-lo duas temporadas atrás. Do outro lado, o Schalke também alinhava seu time respeitável, especialmente pelo trio de frente formado por Erwin Kremers, Klaus Fischer e Stan Libuda. Não conseguiram impedir o agigantamento do Bayern.

Não seria uma partida tão fácil para o Bayern de início. O Schalke levava perigo nos contra-ataques e teve uma bola salva em cima da linha após escanteio, até que o primeiro gol dos bávaros saísse aos 31 minutos. Após cobrança de escanteio, o talismã Roth desviou e Hansen guardou de cabeça. A porteira se abriu e o segundo gol não demorou, com a participação do outro lateral, aos 40. Breitner arrancou pelo meio e tabelou com Müller. O prodígio infiltrou-se na defesa e bateu por cima de Nigbur, sem dar chances para o goleiro.
Uma ponta de esperança para o Schalke ressurgiu aos dez minutos, quando Klaus Fischer descontou num rebote de Maier. A reação não passou disso. O terceiro gol do Bayern saiu aos 24, com a segunda assistência de Gerd Müller. O centroavante deu um lançamento magistral para Hoffmann, que bateu na saída de Nigbur. Para piorar, o goleiro se lesionou e precisou ser substituído. Se parecia difícil uma virada com três gols dos Azuis Reais, a goleada alvirrubra tomou forma aos 35, com o quarto, num rebote definido por Uli Hoeness. O golpe fatal na goleada por 5 a 1, finalmente, teria a classe de Beckenbauer. O Kaiser cobrou uma falta no canto e balançou as redes pela última vez. A história se cumpria.
O Bayern de Munique fechou a Bundesliga com 101 gols. É uma marca que permanece inalcançada 50 anos depois, mesmo com tantos timaços surgindo. E aquele seria o pontapé inicial de uma trajetória mais vitoriosa no Estádio Olímpico. Os bávaros foram novamente campeões da Bundesliga em 1972/73 e em 1973/74. Nesta temporada, iniciaram também seu tri na Copa dos Campeões, com troféus acumulados em 1973/74, 1974/75 e 1975/76. Paralelamente, os heróis daquela equipe se consagrariam com outra camisa no mesmo palco. A Copa do Mundo de 1974 serviu de ápice àquela famosa geração, com a vitória sobre a Laranja Mecânica liderada por gols de Gerd Müller e Breitner, permitindo que Beckenbauer levantasse a taça.
Nestes 50 anos desde a inauguração do Estádio Olímpico, o Bayern levou 30 títulos da Bundesliga. Teve alguns períodos mais instáveis na própria década de 1970, algumas dificuldades financeiras, uma mudança de estádio. Os títulos nacionais se tornaram mais frequentes paulatinamente, com os intervalos de seca menores, até que o atual decacampeonato se encadeasse. Mas não dá para negar que aquela goleada sobre o Schalke possui uma mística especial nessa história. É como se todo o gosto dos bávaros por levantar a Salva de Prata se iniciasse ali. Nenhum outro clube alemão sabe se portar tão bem nos momentos decisivos, ainda que uma decisão como aquela, de confronto direto na última rodada, nunca mais tenha acontecido na Alemanha.



