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Depois de muitas decisões ruins nas últimas temporadas, o finalmente garantiu uma boa notícia à sua torcida. Não foi o clube que anunciou diretamente, mas Marco Rose deixará o Borussia Mönchengladbach para assumir os aurinegros na próxima temporada. Enfim, o BVB ganha um treinador com imenso potencial e capacidade de fazer o time apresentar um futebol agressivo, como tanto se esperava no Signal Iduna Park. Porém, os aurinegros não deixam de estar numa encruzilhada. Ao priorizarem o planejamento a 2021/22, podem entregar um cenário duro ao novo comandante. Para tanto, o clube precisará contornar as turbulências desta temporada, geradas por decisões equivocadas de tempos atrás.

A raiz do problema no Borussia Dortmund está na manutenção de Lucien Favre para a atual temporada. O trabalho do antigo treinador não era bom, mas a melhora na reta final da Bundesliga passada fez a diretoria dar um voto de confiança. No fim das contas, o que se viu durante os últimos meses foi o custo desta escolha. Se já não rendia bem, o BVB conseguiu piorar na atual campanha. Virou uma equipe previsível, muito vulnerável defensivamente, com jogadores claramente desmotivados e bastante dependente de Erling Braut Haaland. Quando não tinha mais volta, a demissão aconteceu.

Edin Terzic chegou ao comando com um bom discurso e o rótulo de homem da casa, mas fica cada vez mais claro que o trabalho é maior que suas aptidões atuais. O Dortmund passou a oscilar demais, não resolveu antigos problemas e se afastou da briga pelo título na Bundesliga. Muito pior é o risco de sequer se classificar à próxima Liga dos Campeões. Os aurinegros estão a seis pontos do G-4 e, neste momento, parecem não depender apenas de suas próprias forças. Precisam secar também Eintracht Frankfurt e Wolfsburg, em ótima fase mais à frente, ganhando distância.

O Dortmund poderia recorrer a um treinador mais experiente para servir de tampão, como aconteceu com Peter Stöger quando Peter Bosz não deu certo. Nada estaria garantido. Então, os aurinegros preferiram assegurar a vinda de Marco Rose para daqui uns meses e ainda acreditar que Terzic pode cumprir seus objetivos. O elenco aurinegro é qualificado o suficiente para melhorar o desempenho e tirar a diferença para voltar ao G-4. Resta saber a motivação que ainda terá, quando parece que o clube preferiu cozinhar o restante da atual temporada em brando.

Na Champions League e na Copa da Alemanha, ainda restam esperanças. A partida contra o Sevilla foi uma prova que, com mais empenho e um chaveamento favorável, dá para fazer uma caminhada marcante nos mata-matas. Terzic pareceu até absorver um pouco do que virá com Marco Rose, ao preparar o time com três homens no meio-campo, uma estratégia que foi importante à vitória na Andaluzia. Ainda assim, o resultado também dependeu da vontade individual e do estrago causado por Erling Braut Haaland. Arrebentar na Champions certamente abrirá mais portas ao prodígio.

A questão ao Dortmund é que, neste momento, a Champions soa como um objetivo distante, que mais vale pela vitrine aos jogadores, e a Copa da Alemanha é um troféu a mais na estante, mas que não traz implicações ao planejamento de médio prazo. A Bundesliga, sim, tem influência clara aos próximos passos porque a vaga na próxima Champions é vital. Os aurinegros mantêm as receitas do torneio continental, a visibilidade além das fronteiras e também a capacidade no mercado de transferências. Precisa haver um senso de urgência sobre a maneira como o lugar entre os quatro primeiros ainda é fundamental.

Manter a regularidade num torneio de pontos corridos não é nada simples. O Dortmund precisa deixar de lado a noção de que os próximos meses no campeonato servirão apenas para preparar o terreno ao futuro treinador. Os erros precisam ser corrigidos por Terzic, a motivação dos jogadores tem que estar lá no alto e a preocupação deve ser mais em recobrar a competitividade do que apenas cumprir tabela. Tantas vezes, os aurinegros não apresentam uma equipe confiável. Mas dá para fazer mais ao estancar os recorrentes erros gerados por desatenção e aumentar a intensidade dos ataques.

Existe uma questão de foco no Borussia Dortmund, com o time largando mão da Bundesliga à medida que o Bayern se desgarrou. Neste ponto, cabe à diretoria também assumir responsabilidades e traçar objetivos de curto prazo, trabalhando o comprometimento interno e até mesmo criando meios de recompensar este gás. A mentalidade de Haaland e Sancho, de buscar um ano a mais na Alemanha antes de saírem em condições melhores, pode ser chave.

Se o Borussia Dortmund não se classificar à próxima Champions, há riscos claros. As perdas de Jadon Sancho e Erling Braut Haaland se tornam mais prováveis. Uma notícia um pouco mais reconfortante à torcida é que, segundo publicado pelo Bild nesta semana, a multa rescisória de Haaland não é tão baixa quanto se imaginava e ele poderá render um bom dinheiro mesmo se sair no próximo verão – não tão alto quanto padrões anteriores do mercado, mas ainda assim um valor capaz de fazer aquisições relevantes. De qualquer maneira, o objetivo do BVB deveria ser a manutenção de Haaland pelo tempo que for possível. Se o norte da equipe é conquistar títulos, fica difícil de acreditar num meio melhor do que segurar um dos mais letais atacantes do mundo.

Para isso, o atual grupo também precisa pensar no compromisso além e facilitar a vida de Marco Rose. O novo comandante chega com respaldo por aquilo que realiza no Gladbach, um clube que excede as expectativas e nesta temporada tem feito grandes apresentações especialmente nos duelos de mais peso. Por seus trabalhos anteriores, o treinador também conseguiu desenvolver muito bem jovens promessas (sobretudo no Salzburg) e apresentar um futebol bastante vertical. Seria uma proposta bem mais próxima dos anseios da torcida e até mesmo daquilo que deu certo sob as ordens de Jürgen Klopp – não sem coincidência, treinador de Rose quando este era defensor do Mainz 05. Entretanto, não dá para esperar a chegada do novo técnico com os braços cruzados. A vaga na Champions precisa ser um impulso neste início.

Pelo modelo de negócio, o Borussia Dortmund possui um elenco com potencial no curto prazo. Não dá para acreditar que Haaland ou Sancho passarão toda a carreira no Signal Iduna Park. As duas promessas escolheram os aurinegros pelo espaço que teriam e pela capacidade do clube em trabalhar com jovens, mas existe um teto para isso. O teto fica menor sem a Champions. Porém, com mais receitas em caixa e o torneio continental como vitrine, dá para preservar o time atual. E, com um bom trabalho coletivo dirigido por Rose, também se crê na capacidade dos aurinegros em ameaçarem o favoritismo do Bayern.

Hoje, o Dortmund precisa mais de uma estrutura dentro de campo do que de uma renovação em seu plantel. Reforços em alguns setores são necessários, principalmente na defesa, mas dá para acreditar que esse time pode ser muito mais competitivo com a chegada de um bom técnico e com a evolução dos atuais jogadores. Marco Rose oferece esta possibilidade para 2021/22. Mas, para tal, Sancho e sobretudo Haaland precisam ficar. Não dá para acreditar que os aurinegros vão acertar na loteria outra vez. Por mais que gere expectativas, sua eclosão ainda deve levar um tempo. É preciso aproveitar o momento – algo que o clube não fez, quando ainda insistia em Favre.

A classificação às quartas de final nesta edição da Champions pode ter um efeito importante, ao elevar o moral e a autoconfiança no Dortmund. Mas a mira ainda precisa estar na Bundesliga. As duas próximas rodadas serão vitais para emendar uma boa sequência, com o clássico diante do Schalke 04 e o encontro com o Arminia Bielefeld, dois dos adversários mais fracos do campeonato. Depois, vem exatamente o embate contra o Gladbach de Marco Rose na Copa da Alemanha e a visita ao Bayern no Campeonato Alemão, antes do reencontro com o Sevilla na Champions. A definição desta temporada, e da próxima, talvez se concentrem aí.

Marco Rose não poderá ajudar, mantido no Gladbach até o final da temporada e com objetivos parecidos aos do Dortmund. O alemão abriu mão da idolatria no Borussia Park e de um projeto de longo prazo, mesmo com expectativas mais baixas. Vai encarar a pressão no Signal Iduna Park e uma exigência bem maior por resultados. Se a crise gerada pela pandemia não deixa muitas margens à manobra na parte econômica, a ausência na Champions seria um golpe com efeitos prolongados no BVB. Para tanto, os jogadores precisam demonstrar empenho no projeto desde já e não devem esperar Marco Rose chegar para que o futuro comece.

Talvez a palavra chave ao Borussia Dortmund seja acomodação. Ao longo dos últimos anos, os aurinegros pareceram acomodados depois das campanhas históricas no início da década e da capacidade abundante para revelar talentos. O clube se acomodou e se apequenou, sem aproveitar sequer os momentos de instabilidade do Bayern. A contratação de Rose indica um ideal mais agressivo e ousado em campo, que também precisa se reproduzir na direção, onde Hans-Joachim Watzke e Michael Zorc perderam o moral faz tempo. Mas para que o reinício seja mais tranquilo, uma mudança de postura precisa vir agora.