Bundesliga

“Nós já sabíamos, mas é brutal quando a hora chega”: O rebaixamento do Schalke está confirmado, depois de 30 anos na Bundesliga

Pela quarta vez em sua história, os Azuis Reais caem à segunda divisão do Campeonato Alemão

Ninguém, absolutamente ninguém, pode se dizer surpreso com o rebaixamento do Schalke 04. O descenso dos Azuis Reais vinha sendo gestado há pelo menos uma temporada e meia, com a impressionante derrocada do time de David Wagner no segundo turno da Bundesliga passada. O início da atual campanha se provou ainda pior. E o recorde de rodadas sem ganhar na primeira divisão alemã só não foi quebrado porque, a um jogo de igualar a marca histórica do Tasmania Berlim, de 31 jogos em jejum, o Schalke goleou o Hoffenheim. Foi um breve respiro, assim como o triunfo sobre o Augsburg há uma semana, numa campanha de míseras duas vitórias em 30 rodadas. E mesmo que o descenso fosse apenas uma questão de tempo, até a matemática fechar, “doeu mais que o esperado” – como tão bem definiu o clube em seu Twitter. Nesta terça, o rebaixamento se confirmou com a derrota por 1 a 0 na visita ao Arminia Bielefeld.

O resultado não deixa de ser emblemático. O Arminia Bielefeld é o clube de menor orçamento da Bundesliga e, quando conquistou o título da segundona, já era visto como candidato ao rebaixamento nesta temporada. Os recém-promovidos, porém, lutam de maneira bastante honrosa pela permanência. Fazem uma campanha acima de suas possibilidades e, dentro de casa, tinham obrigação de derrotar o Schalke. Conseguiram, com o triunfo por 1 a 0 garantido por um chute de fora da área de Fabian Klos, capitão e ídolo que completa uma década em Bielefeld. Os Azuis Reais sequer conseguiram reagir e ainda tiveram um jogador expulso. Com o resultado, o Arminia saiu do Z-3, embora aguarde o resultado dos concorrentes, num momento em que o desenrolar da Bundesliga é atrapalhado pelo surto de COVID-19 no Hertha Berlim. De qualquer maneira, a vitória desta terça corresponde ao crescimento recente do time, que até empate do Bayern arrancou.

Do lado do Schalke, a frustração foi vociferada por Gerald Asamoah, um dos maiores ídolos do clube, que atualmente trabalha como coordenador do departamento de futebol: “Nós sabíamos o que nos esperava, mas quando a hora chega, então você percebe que acabou – e isso é brutal. Desapontamos a todos. Todo mundo nesse time precisa se questionar. Imagino como os torcedores devem estar se sentindo. Estamos na lanterna, com 13 pontos, e se alguém disser que deu seu máximo, eu não sei o que faria com essa pessoa”.

O Schalke soma 13 pontos em 30 rodadas. A campanha do Tasmania Berlim em 1965/66 ainda é a pior da história da Bundesliga. Mesmo assim, os Azuis Reais ocupam atualmente o segundo posto de pior desempenho, atrás de outros sacos de pancadas notáveis do futebol alemão. O triunfo recente sobre o Augsburg até serviu para aliviar um pouco a barra e renovar os ares. Todavia, a goleada do Freiburg no final de semana voltou a esfriar o clima em Gelsenkirchen e, num teórico confronto direto, o Arminia Bielefeld se transformou no último carrasco de um rebaixamento anunciado.

Este é o quarto rebaixamento do Schalke em sua história. O primeiro aconteceu em 1980/81, num momento em que os Azuis Reais enfrentavam dificuldades financeiras. O time ficou a três pontos de permanecer na primeira divisão, numa derrocada que resultou na venda do ídolo Klaus Fischer ao Colônia. Ao menos, o time levantou a poeira rapidamente, com o acesso já conquistado na temporada seguinte. O problema foi que o Schalke não vivia um momento suficientemente estável e corria riscos até mesmo de não ter dinheiro para bancar sua licença na elite. Desta maneira, caiu de novo em 1982/83, derrotado pelo ascendente Bayer Uerdingen nos playoffs. De novo, a volta foi imediata, mas com a segunda colocação na segundona de 1983/84. Formado na própria base em Gelsenkirchen, Olaf Thon foi uma das gratas revelações daquela campanha.

Nas três temporada seguintes, o Schalke fez campanhas de meio de tabela na Bundesliga. Entretanto, o drama não tinha se encerrado por completo: na Bundesliga 1987/88, a equipe terminou na lanterna e sofreria seu descenso mais duro até então. Thon arrumou as malas para o Bayern e de novo os Azuis Reais precisaram se reconstruir na segundona, o que não foi simples. Na primeira tentativa de subir, o Schalke passou bem longe do acesso. Terminou no 12° lugar, apenas dois pontos acima do rebaixamento. O time passou inclusive um tempo na zona dos times que cairiam à terceirona, até uma guinada final que os safou do pior.

Na segunda temporada consecutiva em busca da promoção, em 1989/90, a situação foi um pouco melhor. Mesmo assim, o Schalke não teve forças para competir. Começou transitando pelo meio da tabela, aumentou seu nível no segundo turno e viu as ambições serem atrapalhadas por uma sequência de empates no fim, que deixou o time estacionado na quinta colocação. Por fim, o retorno à elite aconteceu na segundona de 1990/91. O Schalke subiu à liderança nas primeiras rodadas e se manteve por ali durante quase todo o tempo, por vezes caindo ao segundo lugar, mas terminando com a taça.

Vale frisar que o Schalke atravessava uma séria crise política, com recorrentes mudanças na gestão naquele período. Em janeiro de 1989, quando o temor de cair à terceirona era real, Günter Eichberg foi eleito o novo presidente. Dono de clínicas médicas, o excêntrico empresário injetou dinheiro nos Azuis Reais e também conseguiu contornar as dificuldades no futebol. Aos poucos, pareciam surgir bases seguras em Gelsenkirchen e o clube fazia planos de longo prazo – com investimento na base, bem como a construção de um novo estádio. O problema é que os negócios de Eichberg começaram a entrar em crise e logo ficou claro como sua gestão no Schalke também não era exemplar. As dívidas na verdade aumentaram através de empréstimos, com manobras financeiras que pareciam prontas a afundar a agremiação novamente.

Eichberg renunciou em 1993, pressionado pela própria federação alemã diante dos débitos enormes. Seu substituto na presidência foi Bernd Tönnies, um dos maiores empresários do ramo alimentício na Alemanha, que faleceu logo em 1994 – pouco depois do término da Bundesliga 1993/94, quando a equipe se safou do rebaixamento por um ponto. E logo a retomada aconteceria, sob a visão do diretor esportivo Rudi Assauer, colocado no cargo ainda por Eichberg. O ex-jogador é considerado o pivô do renascimento dos Azuis Reais. De fato, o clube escapou das incertezas e voltou a disputar títulos no fim dos anos 1990, conquistando a Copa da Uefa em 1996/97, assim como construiu a Veltins Arena. O problema é que nem todos souberam aproveitar o legado de Assauer, que permaneceu no posto até 2006. Mesmo com um estádio moderno à disposição e dívidas zeradas, o Schalke ruiu aos poucos, por mais que permanecesse entre os clubes mais ricos da Alemanha.

Neste ponto, um personagem principal é Clemens Tönnies, irmão mais novo de Bernd e que assumiu seu legado político no Schalke. O ex-presidente pode ser considerado como o responsável pelo atual rebaixamento no longo prazo. Na presidência a partir de 2001, Tönnies não soube gerir os recursos e passou a tomar uma série de decisões questionáveis. Ao longo da última década, o mandatário também lidou com uma série de acusações de fraudes em negócios pessoais e passou a ser execrado pela torcida principalmente depois de declarações racistas. Já em 2020, com um surto de COVID-19 em suas indústrias, por conta das péssimas condições às quais os trabalhadores eram submetidos, Tönnies se viu mais pressionado pela opinião pública e deixou o Schalke.

O novo Schalke rebaixado em 2020/21 é uma coleção de erros, principalmente em sua gestão. As dívidas aumentaram nos últimos anos, atualmente na casa dos €200 milhões, e a pandemia afetou as contas dos Azuis Reais mais do que qualquer outro clube de elite na Bundesliga. A ausência nas competições continentais cobrou seu preço, assim como os jogadores jovens perdidos de graça ou a preço de banana. Já a atual campanha indica as escolhas equivocadas ao comando técnico (com cinco treinadores diferentes) e à direção; o fraco elenco montado; e uma pane mental que reflete muito do que acontece além dos gramados – como listamos na última semana. O rebaixamento tão categórico é a soma de inúmeros erros, mas que ainda assim impressiona por uma campanha tão ridícula como esta.

A reconstrução do Schalke precisa começar agora. E, na verdade, já deu seus primeiros passos em março, quando uma série de dirigentes e membros da comissão técnica foram demitidos. O entrave, de qualquer forma, é acima de tudo na política do clube. Tönnies saiu, mas seus partidários continuam na gestão. Há um conflito intenso nos bastidores pelas cadeiras no conselho dos Azuis Reais, em eleições que acontecerão antes do início da segunda divisão. Além disso, o atual presidente tenta até mesmo uma mudança nos estatutos, sob o discurso de agilizar o processo sem precisar consultar tanto os 160 mil sócios – na promessa de uma “gestão mais profissional”, mas que pode reaproximar Tönnies do poder. Enquanto tais quedas de braço continuam, fica difícil criar alguma expectativa.

O Schalke também precisará fazer uma limpa no elenco, se desfazendo de medalhões e talvez vendendo alguns jovens para aliviar suas dívidas. Dimitrios Grammozis assumiu como treinador em março e nem pode ser colocado exatamente como problema, numa derrocada que foi além das capacidades dos treinadores, muito embora se espere um nome com mais estofo para conduzir o novo projeto. Ralf Rangnick era uma possibilidade, mas que já recusou assumir a bomba. E se o exemplo do Hamburgo está bem à vista na atual segundona, penando outra vez para buscar o acesso, o Schalke não pode esquecer sua própria história. Cair à terceira divisão já foi um risco que os mais antigos em Gelsenkirchen viveram.

Obviamente, também há condições claras de reconstrução. O Schalke possui uma das maiores torcidas da Alemanha, construída quando o time de operários dominava a liga nacional na virada dos anos 1920 para os anos 1930. Conta com um estádio moderno, que poderá ajudar bastante quando as arquibancadas forem reabertas. E ainda tem uma capacidade para atrair patrocinadores, especialmente se o trabalho bem feito for evidente. Mas, no momento, não é isso que acontece. O caos afasta empresas, com a Umbro, querendo antecipar o fim de seu contrato no fornecimento de material esportivo. Pior, afasta os próprios torcedores, cansados de tanta falta de respeito com a camisa. O rebaixamento é uma tragédia, claro. Porém, acaba apenas por concretizar muita coisa que já vinha sendo feita de maneira errada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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