Bundesliga

Depois de 36 anos, o clube mais dinamarquês da elite alemã ressurge na segundona

Se você já se debruçou sobre o mapa da Alemanha, reparou que há uma pequena porção do território que faz parte da Jutlândia – ou, trocando em miúdos, da península da Dinamarca. Schleswig-Holstein é um dos 16 estados do país: o mais setentrional, que também aparece entre os menores e os menos populosos. Historicamente, a região já pertenceu aos dinamarqueses e foi motivo de disputa entre os dois países, embora a situação tenha se apaziguado em 1920, quando um plebiscito permitiu a uma área mais ao norte do estado se integrar à Dinamarca. E o povo local, que sempre contou com um grande representante no futebol, assiste ao seu ressurgimento na pirâmide da Bundesliga. O tradicionalíssimo Holstein Kiel, campeão nacional em 1912, volta à segunda divisão pela primeira vez desde 1981.

VEJA TAMBÉM: Um mapa interativo para você mergulhar na história da Alemanha e do Campeonato Alemão

O Holstein Kiel é o único time de Schleswig-Holstein a já ter disputado o Campeonato Alemão em sua história. Fez sua estreia no primeiro nível em 1910, quando já alcançou o vice-campeonato. Dois anos depois, conquistou a histórica taça ao derrotar o Karlsruher. E as aparições na fase final da antiga competição nacional, que reunia os melhores representantes regionais, eram frequentes. Até a reestruturação do torneio em 1933, os tricolores se colocavam como principais concorrentes do Hamburgo pela taça na região norte, com seis conquistas e sete vices. Inclusive, protagonizaram uma das finais mais eletrizantes da história do campeonato, derrotados pelo Hertha Berlim por 5 a 4 em 1930.

Aos poucos, o Holstein Kiel perdeu força. A partir da metade final dos anos 1940, com o término da Segunda Guerra Mundial, já não conseguia mais se equiparar com o Hamburgo na Oberliga Norte. No máximo, chegou as dois vice-campeonatos, que o levaram à fase nacional do Campeonato Alemão. A última delas, em 1956/57. Desde então, os tricolores se tornaram meros figurantes na estrutura do futebol local, sem passar perto da Bundesliga desde o seu advento.

Durante a primeira década da nova liga, o Holstein Kiel ainda se manteve na segundona, mas sofreu o primeiro rebaixamento em 1974. Voltaria quatro temporadas depois, permanecendo até 1981, em sua última aparição no segundo nível. Depois disso, a torcida se acostumou com o clube perambulando entre a terceira e a quarta divisão. Pior, ainda viram o rival Lübeck ascender como principal representante de Schleswig-Holstein nos anos 1990. No máximo, podiam se orgulhar dos filhos da cidade que ajudaram a revelar, especialmente Andreas Köpke, mas também Sidney Sam, Fin Bartels, Max Christiansen, Fabian Reese, entre outros.

O início da atual década, contudo, já apontava que os torcedores de Kiel teriam motivos para sorrir. Mesmo na quarta divisão, o Holstein chegou às quartas de final da Copa da Alemanha, deixando o Mainz 05 pelo caminho. Também voltou à terceirona e viu sua média de público atingir o maior patamar desde a década de 1970. Assim, o ressurgimento na segunda divisão se tornou cada vez mais palpável, apesar das oscilações na tabela. Em 2015 ele quase veio, com a derrota para o Munique 1860 no playoff decisivo, com uma impensável virada dos bávaros se concretizando aos 46 do segundo tempo. Desta vez, ao menos, não houve o que atrapalhasse os tricolores.

Em uma disputadíssima campanha na terceira divisão da Bundesliga, o Holstein Kiel escalou até o topo da tabela. Começou a campanha em posições intermediárias, vacilando nos empates, até encadear suas vitórias a partir de fevereiro. A cinco rodadas do fim, apareceu pela primeira vez na zona de acesso, para não sair mais. E confirmou a comemoração com uma rodada de antecedência, ao bater o Sonnenhof Grossaspach por 1 a 0 no sábado. Muita festa para a torcida, que mantém uma digna média de 5,5 mil presentes por jogo. Outro a subir é o Duisburg, retornando à segundona após um ano. Já a vaga nos playoffs será disputada por Jahn Regensburg, Magdeburgo e Aalen.

Agora, é ver qual o potencial do Holstein Kiel na segunda divisão, geralmente equilibrada. De qualquer maneira, o mero retorno depois de mais de três décadas já vale bastante. Aumenta a representatividade regional da Bundesliga, assim como resgata a história de um velho campeão adormecido.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo