Bundesliga

CEO do Borussia Dortmund: “Nosso concorrente não é o Real Madrid. É a Netflix”

Carsten Cramer também defendeu a regra 50+1 da Bundesliga e descartou investimentos de Arábia Saudita e Catar, nas “atuais circunstâncias políticas”

Embora algumas soluções propostas sejam esdrúxulas, como a Superliga Europeia, parece haver um consenso entre dirigentes dos principais clubes europeus: o futebol precisa trabalhar para reter o interesse do público, em um mundo que ampliou a oferta de entretenimento, com redes sociais e serviços de streaming, e que tende a uma capacidade de concentração cada vez mais incompatível com 90 minutos de bola rolando.

Nessa linha, o CEO do Borussia Dortmund, Carsten Cramer, elegeu o seu principal concorrente: não um clube rico e poderoso como o Real Madrid, mas a Netflix. Em entrevista ao jornal alemão Neue Zürcher Zeitung, afirmou que é necessário garantir que a nova geração continue interessada em futebol, entre outros motivos, pelo fator social.

– Se a mídia decidir deixar de dar atenção ao futebol porque não interesse o suficiente, temos que ter cuidado. Temos um problema real com a religião. A política está perdendo popularidade de uma forma que não poderia ser pior. Além da música, o futebol talvez seja a única cola social que ainda une as massas, independentemente de origem, idade ou classe social.

– O futebol tem muito a ver com cultura e rituais. Com tradição e história. Na Fórmula 1, olham menos para trás. Os carros precisam dar o próximo passo. O futebol tem mais um elemento de desaceleração. Mas temos que crescer. Afinal, nosso concorrente não é o Real Madrid, mas a Netflix ou outra atividade de lazer – completou.

O argumento de tornar o futebol um produto mais atrativo foi utilizado pelos defensores da Superliga Europeia – da qual o Borussia Dortmund não se interessou em participar. O projeto acabou naufragando, mas a Uefa fez uma concessão aos interesses dos grandes clubes mudando o formato da Champions League. O que também atraiu críticas, mas Cramer está otimista.

– Em primeiro lugar, porque foi a única chance de evitar a Superliga. E em segundo, seis dos oito grupos da atual fase de grupos com times eliminados precocemente (na verdade, por enquanto, apenas quatro) sugere que as dúvidas sobre o atual formato são justificadas. Acreditamos que o esporte será mais justo no futuro e que não dependerá mais principalmente da sorte no sorteio – disse.

No novo formato da Champions League, cada clube terá oito confrontos, definidos de acordo com o coeficiente da Uefa para tentar equilibrar o calendário. Os oito primeiros colocados da fase da liga, que terá uma tabela única, se classificam diretamente às oitavas de final. Os 16 seguintes disputarão um mata-mata preliminar.

Arábia Saudita e Catar descartados

Cramer reconhece que existe uma defasagem financeira do futebol alemão em relação a concorrentes. Principalmente a Premier League, que atrai contratos muito mais polpudos de direitos de transmissão. No entanto, ele afirma que esse é um problema “autoinfligido”, em parte por causa da regra 50+1, que impede que um único acionista tenha mais de 50% de poder decisório sobre um clube.

A Bundesliga, segundo ele, tem outros atrativos, como estádios modernos e lotados, jogadores de vários países e uma alta média de gols, e precisa trabalhar para manter sua essência.

– A Inglaterra tem uma relação diferente com o futebol, a começar pela estrutura acionária dos clubes. Trabalha com interesses particulares, Estados, instituições e fundos. A porta está aberta. Há também o contexto histórico global do Reino Unido. Estabelecemos limites para nós mesmos porque acreditamos que o futebol deve funcionar dentro do seu próprio mercado. Apenas se funcionar aqui pode também funcionar internacionalmente.

– Não queremos que todo bom jogador de futebol nos deixe depois de pouco tempo. Queremos jogar a Champions League e viver noites mágicas juntos. Isso não funciona sem dinheiro. Precisamos de equilíbrio. O objetivo do Dortmund é proteger a regra dos 50+1, fortalecer a concorrência nacional. O futebol deve permanecer acessível. Nossos assentos comerciais são limitados a 5%. Temos 28 mil lugares em pé, mais do que qualquer outro clube na Alemanha. Isso representa um terço da capacidade do estádio, com preço médio de 15 euros, incluindo transporte gratuito – completou.

A regra 50+1 afasta investidores externos e tem aceitação ampla dos torcedores do futebol alemão. São constantes os protestos contra clubes estrangeiros financiados por países, como Paris Saint-Germain e Manchester City, ou mesmo alguns locais que não cumpriram exatamente o espírito da lei ao pé da letra, como o RB Leipzig.

– Algumas coisas são julgadas de forma crítica. Isso faz parte da cultura de torcedores da Alemanha. E é claro que também encaramos muitos aspectos de forma crítica. Por exemplo, quando clubes são geridos por Estados cujas fontes de dinheiro parecem fluir constantemente. Nós prestamos atenção à origem do dinheiro. Excluo a Arábia Saudita e o Catar nas atuais circunstâncias políticas (como potenciais investidores no Dortmund) – alertou.

“Incrivelmente doloroso”

Em que pese os problemas para competir financeiramente, o Borussia Dortmund não está brilhando em seu projeto esportivo. Conseguiu ser campeão e chegar a uma final de Champions League com Jürgen Klopp, mas, desde então, é constantemente superado pelo Bayern de Munique. A última temporada foi um pesadelo. O Dortmund ficou muito, muito próximo do título, mas o deixou escapar na rodada final, graças a um empate em casa com o Mainz. Um dia “incrivelmente doloroso”, segundo Cramer.

– Existem bons motivos para se envolver conosco, mesmo que não tenhamos conquistado onze campeonatos. Somos o clube que está há mais tempo no duelo com o Bayern de Munique. Estivemos na final da Champions League, e isso apesar de termos estado quase falidos alguns anos antes. Tenho que admitir que perder por pouco o título de 2023 foi incrivelmente doloroso. Se tivéssemos sido campeões, essa pergunta não teria sido feita.

– Dois dos melhores jogadores do mundo, Jude Bellingham e Erling Haaland, nos deixaram nos últimos dois anos. O fato de terem evoluído tão positivamente conosco deixa os torcedores orgulhosos. Todos sabem que precisamos desenvolver jogadores e não temos condições de contratar Harry Kane. Não estamos reclamando. É bom que, apesar da saída de grandes jogadores, o clube ainda esteja em boa forma.

– Confiem um pouco na gente. Temos ambições e não queremos apenas chegar às oitavas de final da Champions League. O sucesso também tem um pouco a ver com desempenho econômico. Às vezes as críticas são repetitivas – encerrou.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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