AlemanhaBundesligaChampions League

A glória da bastarda Bundesliga na Europa

No futebol, o time vencedor normalmente é tratado como aquele que fez todas as coisas certas, e o perdedor é aquele que errou quando não podia. Tudo bem, não é bem assim, análises baseadas apenas em resultados são base para muitos comentários cretinos, mas a confirmação da final entre Bayern Munique e Borussia Dortmund deixa algumas mensagens para quem quer entender o que se passa no futebol europeu nesse momento.

A primeira delas é clara, mas vamos falar de modo metafórico: suponhamos que uma família rica (que reúne os quatro principais países europeus) tenha quatro filhos (os quatro principais campeonatos do continente). A Bundesliga, entre esses quatro filhos, é o bastardo, aquele que dorme no sofá da sala, usa o tênis velho dos irmãos, não frequenta as mesmas festas, enfim, é renegado. Mas ao invés de chorar as pitangas da rejeição, trabalhou feito um filho da puta e agora vive o seu momento de gloria por isso.

O Borussia Dortmund é um exemplo disso. Há oito anos, tinha uma dívida impagável. Resolveu esse problema trabalhando, investindo na formação de jogadores e na captação de nomes muito baratos. Não teve mágica, mutreta, Sheik Árabe, investidores americanos ou MSI para bancar. Simplesmente apostou no caminho mais difícil, se deu bem, e merece aplausos, pela forma como montou o time, esperou o processo de amadurecimento desse time e agora certamente tem seus jogadores de ressaca após a classificação (no sufoco desnecessário, diga-se) para a final.

O Bayern Munique é outro, apesar do aporte de grana investido no time. Entre os titulares, Alaba, Schweinsteiger, Lahm e Thomas Müller foram revelados por lá, e esse número aumenta se colocarmos na conta Toni Kroos e Badstuber. É lógico que o dinheiro ajuda, mas não dá para dizer que não há um trabalho sólido de formação também.

Mensagem número 2: a Inglaterra não é o centro do mundo futebolístico, por mais que tudo por lá pareça cool, descolado, hipster e legal e a Premier League se venda muito bem. Por mais que se argumente com razão que a arbitragem ajudou o Real Madrid a eliminar o Manchester United, os maravilhosos times ingleses já não comandam nem o próprio nariz. Manchester United, Chelsea e Manchester City possuem um grande mecenas por trás e se eles picarem a mula algum dia, vão cair vertiginosamente. Ao contrário, na Bundesliga o público fica em pé nos estádios, é maior e a presença de turistas japoneses é raríssima.

A terceira mensagem também é bem clara: a seleção alemã está próxima de superar a Espanha como melhor seleção do mundo. E é uma seleção que, ao contrário do estigma, ganha dando show, amassando, passando por cima sem olhar para a cara do morto. Já desponta como favorita para a Copa do Mundo, mesmo com Messi arrebentando de todas as maneiras na Argentina.

A quarta mensagem é para o próprio futebol alemão. Sim, porque se teve alguém que não jogou nada, foi Mesut Özil, um sujeito que ficou parado na ponta no jogo contra o Dortmund, perdeu um gol feito e até fez a assistência para o gol. Mas é certo que, mesmo com o timaço que tem em mãos, se Joachim Löw confiar nele para ser protagonista, a Alemanha estará automaticamente eliminada nas quartas de final da Copa. E aí, amigo, não adianta chorar.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo