Um motivo para sorrir
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Há pelo menos dois anos, um confronto entre Egito, que conquistara o tricampeonato africano consecutivo, e a República Centro-Africana, que não vencia uma partida de qualificação desde 1973, teria um desfecho certo. Entretanto, como a coluna sempre faz questão de frisar, as forças do futebol do continente estão bastante niveladas nos últimos tempos. E após uma vitória histórica por 3 a 2 em Alexandria, os centro-africanos empataram com os egípcios em 1 a 1 no último sábado e estão a dois jogos de uma inédita fase final de Copa Africana de Nações. De quebra, ainda forçaram os faraós a perderem sua segunda CAN consecutiva, algo que não acontecia há quase 45 anos.
O futebol, sem dúvida, é um instrumento imprescindível para mudar a imagem de um país transtornado por golpes militares e guerras civis e assolado pela pobreza. Isso explica muito o fato da seleção nacional ter se desenvolvido tão lentamente desde a década de 60, quando se afiliou à Fifa. Essa evolução tem sido notada desde 2010, quando a República Centro-Africana venceu a Argélia, que havia disputado uma Copa do Mundo quatro meses antes, por 2 a 0.
A classificação para a CAN 2012 esteve muito próxima, mas a equipe perdeu a vaga para o Marrocos, que por sinal, não venceu os centro-africanos na qualificatória (dois jogos e dois empates). Apesar da eliminação, uma campanha com duas vitórias e dois empates em seis jogos esteve acima de quaisquer expectativas.
E este foi só o começo. Nas eliminatórias para a Copa de 2014, os centro-africanos estão à frente da África do Sul no Grupo A. Já nas eliminatórias para a CAN 2013, superaram nada menos que a seleção mais vitoriosa do continente (Egito) e estão à espera de seu adversário na última fase qualificatória, que pode decretar a primeira aparição da República Centro-Africana em uma fase final de Copa Africana de Nações.
Na volta pra casa após a vitória por 3 a 2 sobre os egípcios em plena Alexandria, os jogadores foram recebidos no aeroporto local como herois. São pessoas que esquecem as dificuldades de um dos países mais pobres da África por um esporte que representa o orgulho nacional. O Complexo Esportivo Barthelemy Boganda, que comporta 22 mil pessoas, sempre está cheio nos jogos como mandante.
Mesmo com todo este progresso, não há como dizer que o futebol no país vive um mar de rosas. A seleção nacional não conta com nenhum patrocinador oficial ou sequer um fornecedor de material esportivo. O mesmo se aplica aos clubes do país. Nos últimos jogos, o vice-presidente da Federação Centro-Africana de Futebol (FCF), Celestin Yanindji, é quem tem bancado os equipamentos. Na FCF, a precariedade também é constatada: muitos escritórios não contam com computadores e internet, ao passo que o edifício não dispõe de água corrente e muitas vezes de eletricidade.
Nos gramados, a realidade é muito mais animadora. Desde 2010, a seleção centro-africana subiu do 202º para o 93º lugar no ranking da Fifa. Isto muito se deve ao trabalho do treinador francês Jules Accorsi, que comandava a equipe desde 2010 e pediu demissão recentemente por não receber salários há oito meses. Herve Lougoundji tem dado continuidade ao trabalho de forma muito consistente. A equipe, ainda que bastante heterogênea (jogadores espalhados por França, Inglaterra, Bélgica, Tanzânia, Gabão e outros países, além da própria República Centro-Africana), tem mostrado força.
O símbolo do time é o meia (e capitão) Eloge Enza-Yamissi, titular do Troyes, recém-promovido à primeira divisão do Campeonato Francês. Ele seguiu o caminho inverso de jogadores como Mapou Yanga-Mbiwa, do Montpellier, e apesar da cidadania francesa, optou por representar seu país natal. “Estou aqui por patriotismo e não porque alguém me obrigou a vir jogar por minha bandeira”, declarou certa vez o jogador. Seu irmão mais novo, Manassé Enza-Yamissi, também atua pela seleção principal.
Eles dividem o protagonismo com o meia-atacante Foxi Kéthévoama, autor do gol da classificação contra o Egito no jogo de volta e que atua no futebol do Cazaquistão. Ele também marcou os dois gols da vitória sobre Botsuana pelas eliminatórias da Copa, a primeira a história da seleção nacional a esse nível. “Para os pequenos como nós, é tudo mais difícil”, disse Patrick Ngaissona, presidente da FCF. Também parece difícil a classificação para a CAN 2013, ainda que o que realmente importa é que, através do futebol, esta equipe transmita uma mensagem de determinação e esperança a um país que clama pela paz.
Curtas
– Marrocos e Líbia estão nas semifinais da Copa Árabe de Nações. Os marroquinos golearam o Iêmen por 4 a 0 e lideraram o Grupo B. Yassine Salhi, do Raja Casablanca, marcou todos os gols do jogo e é o artilheiro isolado do torneio. Na mesma chave, a Líbia bateu o Bahrein por 2 a 1 de virada e avançou para a fase seguinte pelo índice técnico. Esta é a primeira vez que duas seleções africanas ficam entre as quatro melhores da competição.
– As outras seleções do continente que estavam na disputa, Egito e Sudão, ficaram pelo caminho. Os egípcios, que utilizaram a base que disputará as Olimpíadas de Londres, empataram com o Líbano em 1 a 1. Este também foi o placar de Sudão e Iraque, que eliminou os sudaneses. Na semifinal, Marrocos enfrenta o Iraque e a Líbia encara a anfitriã Arábia Saudita.
– A bola já está rolando para a última fase preliminar da Copa da Confederação Africana. Nos jogos de ida, o Wydad Casablanca foi à Costa do Marfim e venceu o AFAD Djékanou por 1 a 0. O Maghreb de Fés derrotou o AC Léopard também pelo placar mínimo, gol de Abourrazouk, enquanto o CODM Meknes foi a única equipe marroquina a perder na rodada: 3 a 0 para o Stade Malien.
– Os sudaneses fizeram bonito. O Al Hilal bateu o Olympique de Bamako por 2 a 0, enquanto o Al Merreikh, que chegou a estar vencendo por 3 a 0, superou os sul-africanos do Black Leopards por 3 a 2. A decepção foi o Al-Ahli Shendi, derrotado pelo Coton Sport por 1 a 0. Dynamos, do Zimbábue, e Interclube, de Angola, empataram sem gols. Nesta segunda, o Djoliba fechou a rodada fazendo 2 a 0 no Club Africain em Bamako.
– Atendendo ao clamor popular, Gordon Igesund foi anunciado como o novo técnico da África do Sul. O treinador de 55 anos, que dirigia o Moroka Swallows, assinou um contrato por dois anos e terá sete meses para preparar a equipe para a CAN 2013, que será sediada pelos próprios sul-africanos. Ele substitui Pitso Mosimane, demitido no início do mês passado.
– Após abandonar a concentração da seleção egípcia que se preparava para enfrentar a República Centro-Africana, o atacante Mohamed Zidan foi multado pela Federação Egípcia em 11.500 dólares. Ele também foi proibido pela EFA de atuar pelos faraós enquanto Bob Bradley estiver no comando.
– A Associação Ganesa de Futebol encerrou suas tentativas em convencer Kevin-Prince Boateng a voltar a atuar pela seleção. O meia se aposentou da seleção em novembro do ano passado alegando problemas de saúde. Recentemente, o técnico dos Estrelas Negras, Kwesi Appiah, esteve em Milão para falar com o jogador, mas as conversas não surtiram efeito.
– Demitido da Costa do Marfim após a CAN 2012, o técnico François Zahoui foi anunciado como o novo comandante da seleção sub-23 dos Elefantes. Sendo assim, seus principais desafios agora serão observar talentos para a seleção principal e classificar os marfinenses para os Jogos Olímpicos de 2016.
– O atacante Yannick N’Djeng, do Espérance, foi mantido pelo clube tunisiano até o fim de dezembro e disputará a Liga dos Campeões Africana. No próximo ano, o camaronês se apresenta ao Sion, da Suíça, onde atuará ao lado de um ex-companheiro de time, Oussama Darragi.
– Falando em Espérance, os “Sangue e Ouro” golearam o Hammam-Sousse por 7 a 0 e seguem na liderança da Ligue 1 tunisiana, com 55 pontos. N’Djeng foi o artilheiro do jogo, com dois gols. Já o vice-líder, Bizertin, bateu o Stade Tunisien fora de casa por 2 a 1 e segue na cola, com 54 pontos.
– Pelo Girabola, o Kabuscorp venceu o Nacional de Benguela por 2 a 0 e pulou para o 4º lugar. Rivaldo não marcou, mas deu assistência para o segundo gol, marcado por Breco. O Recreativo do Libolo empatou com o Petro de Luanda sem gols, mas segue confortável na liderança com 37 pontos, quatro a mais que o Primeiro de Agosto.