Um gol aos 47 do 2° tempo, em plena rodada final, deu o título marroquino ao FAR Rabat após 15 anos de jejum
O FAR Rabat só precisava vencer seu jogo contra o Ittihad Tanger e ia deixando a taça escapar para o Wydad Casablanca, mas buscou o triunfo por 3 a 2 no apagar das luzes

O Campeonato Marroquino viveu uma das rodadas finais mais emocionantes de sua história nesta sexta-feira. E o épico protagonizado pelo FAR Rabat ainda seria mais especial, por encerrar um jejum de 15 anos do clube na liga nacional. O time das forças armadas ocupava a liderança antes da rodada final e dependia apenas de si na última partida, um ponto à frente do Wydad Casablanca, hegemônico nos últimos anos. Atuando fora de casa, o FAR esteve em vantagem por duas vezes contra o Ittihad Tanger, mas em ambas cedeu o empate. O troféu ia escapando, por causa da vitória paralela do Wydad. A derrocada dos líderes se desenhou até os 47 do segundo tempo, quando a vitória por 3 a 2 finalmente se confirmou. Um gol de pênalti de Reda Slim garantiu a festa na capital, com o 13° título dos Militares na história e a primeira conquista desde 2008.
O FAR Rabat é um clube que surgiu com as costas quentes, em 1958, logo após a independência de Marrocos. A criação da equipe ligada às forças armadas foi iniciativa de Hassan II, então filho do Rei Mohammed V e herdeiro do trono no país. Fanático por futebol, ele se envolveria diretamente com a organização da agremiação. Além disso, por ser um clube ligado ao serviço militar, muitos jogadores eram convocados ao exército e recebiam benesses. Não é à toa que o FAR teve anos de domínio nos primórdios do Campeonato Marroquino pós-independência. A equipe faturou seus sete primeiros troféus na liga nacional entre 1961 e 1970, rompendo o status quo de clubes mais tradicionais, como o Wydad e o Raja. Além disso, o FAR também se enraizou e criou sua própria massa de torcedores como clube mais popular de Rabat.
O FAR Rabat chegaria a atravessar uma seca considerável na década de 1970. O clube ficou 14 anos sem levar o título do Campeonato Marroquino, até que o jejum se encerrasse em 1984. Naquele momento, os Militares eram treinados por José Mehdi Faria, técnico brasileiro que revolucionou o futebol de Marrocos e se projetou na seleção que alcançou as oitavas de final na Copa de 1986. O FAR aproveitaria aquela bonança não apenas para ser campeão novamente em 1987 e 1989, mas também para se tornar o primeiro clube do país a conquistar a Copa dos Campeões da África em 1985. Outra seca ocorreu depois disso, até que o clube de Rabat desfrutasse de novos sucessos na virada do século. Conquistou a liga nacional em 2005 e 2008, bem como seis troféus da copa nacional de 1999 a 2009. A cereja do bolo veio com o caneco da Copa da Confederação, segundo torneio de clubes mais importante da África – similar à nossa Copa Sul-Americana.
A partir de então, o FAR Rabat começou a conviver com um novo jejum no Campeonato Marroquino. Os Militares tiveram no máximo um vice-campeonato em 2012/13, numa campanha na qual terminaram superados pelo Raja Casablanca – que, por tabela, ainda conseguiu a vaga no Mundial de Clubes. Como se não bastasse, o FAR viu seu principal rival local, o FUS Rabat, conquistar o troféu inédito em 2015/16 sob as ordens de Walid Regragui. O fundo do poço quase veio em 2018/19, quando os Militares beiraram o rebaixamento e terminaram o campeonato somente uma posição acima da zona vermelha.
Desde então, os resultados do FAR Rabat melhoraram. A equipe da capital vinha de duas campanhas na parte de cima da tabela, em que ganhou vaga na Copa da Confederação. Ainda assim, o clube não parecia uma ameaça ao Wydad Casablanca. Os alvirrubros eram os atuais bicampeões nacionais, com cinco títulos nas oito temporadas anteriores, e mais duas taças na Champions Africana no mesmo período. A retomada do FAR como campeão nacional acontece exatamente numa temporada que coloca o futebol marroquino em evidência, com a histórica campanha na Copa do Mundo de 2022.
Desde as primeiras rodadas, FAR Rabat e Wydad Casablanca se estabeleceram como os dois principais candidatos ao título do Campeonato Marroquino. O clube de Casablanca até passou as primeiras semanas na primeira colocação, mas a ultrapassagem aconteceu justamente no último compromisso antes da Copa do Mundo. Desde então, o FAR Rabat não deixou mais a ponta. E a volta às atividades no fim de dezembro contou com o confronto direto. Deu FAR, com uma inapelável vitória por 3 a 0 sobre o WAC. Os Militares mantiveram a invencibilidade por dez rodadas, derrotados apenas no fim do primeiro turno, nos clássicos contra FUS Rabat e Raja Casablanca. Todavia, mantiveram a primeira colocação e se recuperaram numa sequência de seis vitórias em sete rodadas. Em abril, o FAR voltou a perder, agora para o Hassania. Em compensação, o empate por 1 a 1 na visita ao Wydad em Casablanca manteve a liderança.
Após o novo confronto direto, restavam mais seis rodadas na reta final do Campeonato Marroquino e o FAR Rabat sustentava um ponto de vantagem sobre o Wydad Casablanca. Os Militares somaram quatro vitórias consecutivas, num momento em que o WAC empatou contra o Hassania. Por conta disso, o empate por 0 a 0 com o Raja na penúltima rodada nem representou um custo tão grande ao FAR. A equipe seguiu à rodada final com um ponto a mais que o Wydad na tabela, dependendo apenas de si.
O Wydad Casablanca não teve muitos problemas para construir sua vitória durante a rodada final, mesmo fora de casa. Os alvirrubros buscaram o triunfo por 2 a 0 sobre o Maghreb de Fès desde o primeiro tempo. Já o FAR Rabat teve bem mais dificuldades na visita ao Ittihad Tanger, antepenúltimo colocado, mas sem riscos de rebaixamento. Reda Slim abriu o placar de pênalti para os Militares aos oito minutos e Elhadji Konate empatou também na marca da cal, aos 14. O FAR pressionava, mas parava nas grandes defesas do goleiro Gaya Merbah na sequência do primeiro tempo.
Somente na volta do intervalo é que o FAR Rabat retomou a dianteira. A partir de uma boa troca de passes, Ahmed Hammoudan anotou o segundo gol dos visitantes, aos três do segundo tempo. Contudo, aos 30, o novo empate do Ittihad Tanger viria numa paulada de fora da área do veterano Mohsine Moutouali – mais lembrado no Brasil como carrasco do Atlético Mineiro no Mundial de Clubes de 2013. O relógio se aproximava do final e não havia muita margem de erro ao FAR. No entanto, um pênalti caiu dos céus para os Militares nos acréscimos, em marcação claríssima dentro da área. Aos 47 minutos, Reda Slim teve sangue frio para converter de novo e assegurar a glória. Emocionou-se bastante na comemoração.
Uma curiosidade fica para o autor do pênalti decisivo: Mohamed Souboul tem 21 anos e pertence ao Raja Casablanca, mas está emprestado ao Ittihad Tanger. Nas redes sociais, o defensor não esconde muito sua torcida pelos alviverdes e a rivalidade com o Wydad. No fim, acabou tirando o título dos alvirrubros com seu penal imprudente – para dizer o mínimo. No entanto, na tabela histórica, a conquista do FAR Rabat atrapalha o Raja. Os Militares chegam a 13 troféus, um a mais que o clube de Casablanca. O maior campeão do país é o WAC, com 22 canecos.
Reda Slim terminou a temporada como artilheiro e líder de assistências do FAR Rabat. O ponta direita de 23 anos acumulou dez gols e nove assistências. Chegou a ter uma passagem pela seleção de Marrocos, no time formado apenas por jogadores em atividade no país que conquistou em 2021 o Campeonato Africano de Nações. O volante Larbi Naji é outro destaque que passou pelos Leões do Atlas. Já na defesa, um nome que se sobressai é o do zagueiro Diney Borges. O jogador da seleção de Cabo Verde anotou nove gols na campanha, mesmo atuando na zaga. Os Militares também contaram com atletas de outras nações africanas: Costa do Marfim, Ruanda, Senegal e Camarões.
O final de temporada é amargo ao Wydad Casablanca. Além do vice no Campeonato Marroquino, a equipe também perdeu a decisão da Champions Africana para o Al Ahly. O consolo fica na chance de levar a Copa do Trono, com as semifinais diante do rival Raja. Já o FAR Rabat, além de encerrar o seu jejum de títulos, também retornará à Champions depois de longo hiato. Será a primeira vez desde 2014 que os Militares estarão no torneio principal. Poderão superar a imagem ruim deixada daquela vez, eliminados ainda nas fases preliminares. Mais do que isso, se conseguiram desbancar o Wydad no terreno nacional, talvez possam almejar as fases mais agudas na competição continental. Seria algo gigantesco.



