Africa

Senegal reitera seu domínio continental, desbanca a anfitriã Argélia na final e conquista também a CHAN

Senegal conquistou neste sábado o Campeonato Africano de Nações, disputado apenas por jogadores em atividade nos clubes da África

Senegal se tornou a primeira seleção da África a unificar os dois principais títulos do continente. Os Leões da Teranga já tinham feito história no início de 2022, quando faturaram o inédito troféu na Copa Africana de Nações. Um ano depois, os senegaleses também ganharam o Campeonato Africano de Nações, conhecido como CHAN, torneio cujos elencos se restringem aos futebolistas em atividade nas ligas locais. E seria uma vitória monumental a conquistada por Senegal neste sábado. Em Argel, os Leões da Teranga superaram a anfitriã Argélia. Depois do empate por 0 a 0 com bola rolando, o triunfo se confirmou com o 5 a 4 na disputa por pênaltis.

Disputada desde 2009, a CHAN costuma ser dominada pelas seleções do norte da África. Quatro dos seis títulos anteriores ficaram com essas equipes: dois de Marrocos, um da Líbia e um da Tunísia. O único país da África Subsaariana a faturar a competição anteriormente foi a República Democrática do Congo, com dois troféus, inclusive o da edição inaugural. E o torneio na Argélia se prometia mais aberto em 2023. Marrocos chegaria como favorito pelo recente bicampeonato, em 2018 e 2020. Porém, a crise política entre os governos marroquino e argelino levou os Leões do Atlas a desistirem da competição. Como o avião da Royal Air Maroc não pôde voar diretamente de Rabat para Constantine, a federação resolveu não jogar o campeonato em protesto.

Senegal não possui tanta tradição assim na CHAN. Os Leões da Teranga estavam apenas na terceira participação no torneio. O melhor resultado tinha vindo com o quarto lugar na primeira edição, em 2009. Como a seleção principal dos senegaleses joga completamente fora do país, o elenco da CHAN não tinha figuras que disputaram a Copa do Mundo. Além disso, era um grupo essencialmente jovem, com 11 dos 22 atletas sem passar dos 21 anos e 17 deles com no máximo 25 anos. Cinco convocados vieram do Génération Foot, projeto de base mais conhecido por ter revelado Sadio Mané. Já o treinador do time de Senegal na CHAN é outro nome da famosa geração da Copa do Mundo de 2002. Pape Thiaw disputou o Mundial da Coreia e do Japão ao lado de Aliou Cissé como jogador. Duas décadas depois, o ex-atacante tinha a missão de manter o sucesso que se nota na equipe principal, sob as ordens do ex-volante.

Senegal tomou seu susto na fase de grupos, mas consolidou seu caminho até os mata-matas. A equipe estreou com vitória sobre a Costa do Marfim por 1 a 0, mas perdeu para Uganda na segunda rodada também por 1 a 0. A primeira colocação só se confirmou depois dos 3 a 0 para cima de RD Congo na rodada final. Já na fase decisiva, os Leões da Teranga continuaram a se valer dos placares magros. A equipe bateu a Mauritânia por 1 a 0 nas quartas e também fez 1 a 0 em Madagascar na semifinal. O desafio contra a Argélia seria enorme. Além de jogarem em casa, as Raposas do Deserto vinham com 100% de aproveitamento e golearam Níger por 5 a 0 na outra semifinal. A equipe argelina é treinada por Madjid Bougherra, antigo ídolo da seleção principal.

A decisão no lotado Estádio Nelson Mandela, em Argel, recebeu 39 mil torcedores. E Senegal conseguiu segurar a Argélia numa partida relativamente equilibrada, com estatísticas parelhas de ambas as equipes. O melhor lance ainda assim foi dos argelinos, mas o goleiro Pape Mamadou Sy salvou os senegaleses durante a prorrogação. O empate por 0 a 0 levou as Raposas do Deserto a encerrarem a CHAN sem um gol sofrido sequer. Porém, os Leões da Teranga foram mais competentes nos penais.

Depois de seis bolas nas redes, Cheikhou Ndiaye mandou no travessão a quarta batida de Senegal. A Argélia converteu a seguinte, assim como os oponentes, até que o gol do título ficasse nos pés do atacante argelino Aymen Mahious. Só que o artilheiro do torneio foi displicente na cobrança, para dizer o mínimo, e rolou a bola ridiculamente em direção ao meio do gol. O goleiro Pape Sy precisou apenas esperar e aparou o chute. Já nas alternadas, Ousmane Diouf recolocou os senegaleses na frente e Ahmed Kendouci carimbou o travessão, garantindo a festa dos visitantes.

Por linhas tortas, Senegal consegue uma revanche contra a Argélia. Os argelinos derrotaram os senegaleses na decisão da Copa Africana de Nações em 2019 e, de certa maneira, a CHAN lava a alma dos Leões da Teranga. Além disso, para um país que aguardou demais por sua conquista continental com a CAN de 2022, a CHAN de 2023 serve como um excelente complemento. A Argélia, enquanto isso, precisará esperar mais um pouco para tentar o troféu inédito no torneio secundário.

E a impressão é de que alguns desses jogadores de Senegal na CHAN podem chegar ao nível principal do país no futuro. Dos 11 titulares na decisão em Argel, oito jogadores possuem até 21 anos e quatro deles não passam dos 18. O camisa 10 Pape Diallo, autor de dois gols na competição, é um destes de 18 anos, enquanto o meio-campista Lamine Camara também indica um bom futuro aos 20 e foi eleito o melhor em campo na decisão. Certamente foram observados por olheiros e poderão pintar em breve num centro maior, auxiliados também pelos convênios dos clubes senegaleses sobretudo com os times franceses. A CHAN reforça a identidade do futebol local na África e também valoriza o que se vive no continente, mas não deixa de ser uma ponte para que jovens talentos consigam saltos maiores na sequência de suas carreiras.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo