África

Revivendo a tradição

Quando se fala em Etiópia no mundo esportivo, é muito comum associar a imagem do país ao atletismo, tal como o Brasil no futebol. Não é pra menos. Das 38 medalhas já conquistadas pelos etíopes nos Jogos Olímpicos, por exemplo, todas foram neste esporte. O atual campeão da São Silvestre, Tariku Bekele, também é etíope. Mas engana-se quem pensa que o atletismo é o esporte que monopoliza as atenções no país. Apesar das décadas de ostracismo, o futebol continua sendo, de longe, a grande paixão nacional. Uma paixão que vem ganhando sobrevida nos últimos meses.

Ocupando o inexpressivo 130º lugar no ranking da Fifa, a Etiópia tem alcançado feitos inacreditáveis para uma equipe praticamente amadora. Nas eliminatórias para a Copa de 2014, os ‘Black Lions’ lideram um grupo com África do Sul, anfitriã da última Copa, Botsuana, que disputou a Copa Africana de Nações deste ano, e a emergente República Centro-Africana. Com autoridade, os etíopes estrearam com um empate contra os poderosos sul-africanos jogando fora de casa. Na rodada seguinte, vitória sobre a República Centro-Africana por 2 a 0, diante de um estádio completamente lotado em Addis Ababa.

Como se não bastasse, a Etiópia está a dois jogos de se classificar para a Copa Africana de Nações de 2013 e quebrar um tabu de 30 anos sem disputar o maior torneio do continente. No último domingo, os etíopes visitaram a boa seleção de Benin, que conta com jogadores prestigiados na África, como o talentoso Stéphane Sessègnon e o goleador Razak Omotoyossi. Após um 0 a 0 na ida e desfalcados de seu principal jogador, Saladin Said, os etíopes saíram perdendo, mas igualaram o placar com Adame Girma no fim do primeiro tempo e garantiram classificação para a fase final das eliminatórias.

Ainda que exista uma enorme possibilidade dos etíopes medirem forças contra as ‘potências’ do continente (Costa do Marfim, Gana, etc), a divisão dos potes permite que os Black Lions defrontem seleções do porte de Guiné-Equatorial e Burkina Faso, o que certamente aumentaria as possibilidades de qualificação. A euforia já se espalhou por todo o país. Tido como heroi nacional após marcar todos os gols da Etiópia contra África do Sul e República Centro-Africana, o atacante Saladin Said, artilheiro das eliminatórias africanas para a Copa, já virou garoto propaganda no país.

Said atua pelo Wadi Degla, modesto clube do Egito, e esteve inativo em boa parte do ano por conta da suspensão da temporada do futebol egípcio. Com 22 anos, ele foi artilheiro do Campeonato Etíope em 2007-08 e 2008-09 (sempre com média de mais de um gol por jogo), e no ano passado, foi contratado pelo Wadi Degla por 500 mil dólares, maior valor já pago por um jogador nascido na Etiópia.

Tal como os maratonistas “fabricados” pelo país, Said se destaca pela velocidade, mas também possui faro de gol. Por conta de uma lesão grave, não pôde atuar no duelo contra Benin, mas segue sendo a grande referência do time. O trabalho do técnico Sewnet Bishaw também tem sido digno de elogios. Se antes o treinador caminhava pelas ruas de Addis Ababa no mais completo anonimato, agora o comandante precisa lidar com o êxtase do povo etíope.

Dizer que a Etiópia não possui tradição alguma no futebol seria um completo exagero. O país foi um dos pioneiros da Copa Africana de Nações, disputando a edição inicial do torneio contra outras duas seleções e terminando com o vice-campeonato. Em 1962, jogando em casa, os etíopes sacramentaram sua única conquista continental com vitórias sobre Tunísia e Egito. A Etiópia voltaria a receber a CAN em 1968 e 1976, mas sem resultados expressivos.

Sem disputar a Copa Africana desde 1982, além de nunca ter se classificado para a Copa do Mundo, os etíopes acompanharam a popularidade do futebol local ser superada pela Premier League inglesa e pelo Campeonato Espanhol ao longo dos anos. Uma realidade que pode mudar, visto que a base da seleção (18 de 20 jogadores) é composta por jogadores de clubes etíopes. Segundo país mais populoso do continente, a Etiópia finalmente parece capaz de formar uma seleção competitiva. Nos próximos meses, a equipe precisará superar uma maratona de jogos se quiser retomar as glórias do passado. E de maratona, os etíopes entendem como ninguém.

Curtas

– Treze seleções, incluindo a Etiópia, garantiram classificação para a fase final das eliminatórias para a Copa Africana de Nações 2013. Como esperado, a Nigéria venceu Ruanda por 2 a 0, gols de Uche e Musa, mas passou por maus bocados no jogo. A Argélia foi mais agressiva e goleou Gâmbia por 4 a 1, voltando a repetir as boas atuações ao longo do ano.

– Camarões cumpriu sua obrigação e venceu Guiné-Bissau por 1 a 0, mas a relação da equipe com a torcida segue estremecida. Durante o jogo, ouviram-se muitas vaias e gritos de “Samuel Eto’o”, atualmente suspenso pela Federação Camaronesa.

– O técnico Denis Lavagne, que assumiu recentemente o comando dos Leões Indomáveis, também sofre com as críticas. O pragmatismo do time, a utilização de Song como ‘armador’ e, especialmente no último jogo, a decisão em substituir o ‘xodó’ Choupo-Moting no segundo tempo estão entre as principais reclamações dos torcedores.

– Após perder na ida por 3 a 1, Uganda goleou Congo por 4 a 0 e também avançou. Malauí também reverteu um placar desfavorável no primeiro jogo (3 a 2) ao vencer Chade por 2 a 0. Moçambique e Tanzânia repetiram o placar da ida (1 a 1) e decidiram a classificação nos pênaltis. Melhor para os moçambicanos, que venceram por 8 a 7.

– Com gol do bom atacante Knowledge Musona, que voltava de lesão, o Zimbábue bateu Burundi por 1 a 0 e está classificado. Também pelo placar mínimo, Togo bateu Quênia com um golaço de Serge Gakpé e avançou. Foi a primeira vitória da seleção togolesa em 2012 – havia momento melhor?

– A Libéria, que venceu a Namíbia por 1 a 0 na ida, sustentou um empate sem gols fora de casa e está na fase final. Cabo Verde, que conta com um time interessante, bateu Madagascar por 3 a 1. Ryan Mendes, autor de dois gols, se destacou pelo Le Havre na segunda divisão francesa. O outro foi de Djaniny, que jogará pelo Benfica em 2012-13.

– A saga de São Tomé e Príncipe rumo a CAN 2013 chegou ao fim. Reforçados pelo zagueiro William Barbosa, do São Luiz de Ijuí, os Falcões e Papagaios perderam para Serra Leoa por 4 a 2 após vencerem por 2 a 1 na ida. Os relatos sobre a partida são escassos. Após terem sido “convidados” a pagar pela cobertura do jogo, jornalistas de Serra Leoa boicotaram a partida em protesto contra o Ministério do Esporte.

– A República Democrática do Congo, que vive um excelente momento sob o comando de Claude Le Roy, despachou Seychelles por 3 a 0. Apenas o duelo entre Egito e República Centro-Africana ainda não tem seu classificado. Com o adiamento do jogo de ida por conta da situação política do Egito, o primeiro jogo da eliminatória foi disputado apenas na última sexta-feira, e com surpresa: vitória da República Centro-Africana por 3 a 2.

– Esta foi a primeira derrota de Bob Bradley sob o comando dos faraós em jogos oficiais. Em uma terra assolada por guerras civis e golpes militares, impressiona a progressão da República Centro-Africana, que nunca em sua história formou uma equipe ao menos razoável. A seleção atualmente ocupa o 93º lugar no ranking da Fifa (melhor colocação em todos os tempos) e deverá ganhar ainda mais posições na próxima atualização.

– A Federação Sul-Africana de Futebol (Safa) anunciou que restam apenas dois candidatos para o posto de novo treinador da seleção nacional: Steve Komphela, que atualmente ocupa o cargo de forma interina e venceu o Gabão por 3 a 0 em amistoso na última sexta, e o veterano Gordon Igesund, vice-campeão nacional com o Moroka Swallows na última temporada e ‘queridinho’ dos torcedores locais.

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Equipe Trivela

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