África

Presidente da CAF confirma a criação da Superliga Africana para agosto de 2023, envolvendo 24 clubes do continente

Patrice Motsepe, presidente da CAF, afirmou que o torneio oferecerá US$100 milhões em premiação, com mais detalhes sobre o formato no lançamento oficial previsto para o próximo mês

A Superliga Europeia não deve ser discutida a sério durante algum tempo, diante da rejeição que o projeto teve no último ano. Porém, a ideia não foi totalmente rechaçada em outros continentes e terá sua primeira experiência na África, fomentada pela Confederação Africana de Futebol e pela própria Fifa. Neste domingo, após reunião do Comitê Executivo da CAF, o presidente Patrice Motsepe anunciou que a Superliga Africana sairá do papel. Segundo o sul-africano, a competição iniciará sua temporada inaugural a partir de 2023 e oferecerá US$100 milhões em premiação. O lançamento oficial do torneio, com mais detalhes sobre seu formato e seu impacto, acontecerá em 10 de agosto.

A Superliga Africana é uma das principais empreitadas de Motsepe desde que chegou ao comando da CAF – abraçando uma ideia iniciada antes por Gianni Infantino, presidente da Fifa. Homem mais rico da África do Sul e primeiro negro africano a figurar na lista de bilionários da Forbes, com fortuna feita no ramo da mineração, Motsepe ganhou relevância no futebol através do ótimo trabalho à frente do Mamelodi Sundowns – atual pentacampeão nacional e dono do título continental em 2016. A candidatura do magnata à confederação recebeu apoio direto de Infantino, que viajou a 11 países em campanha. Após a desistência de três concorrentes ao pleito, Motsepe foi eleito presidente da CAF em março de 2021. Tinha a missão de “modernizar” a entidade, especialmente depois de novos casos de corrupção, envolvendo o ex-presidente Ahmad Ahmad – outro endossado de início por Infantino.

Dentro deste processo, a Superliga Africana aparece como uma oportunidade de expansão de negócios para a CAF. A competição irá explorar de maneira mais agressiva as possibilidades econômicas ao redor dos maiores clubes do continente e envolverá grandes torcidas. Diferentemente do que acontece na Europa, onde uma ideia de Superliga é vista como a morte das ligas nacionais, na África ela é apoiada como uma forma de extrapolar as limitações nacionais dos clubes e de criar um novo mercado. Não existe a mesma oposição, ao menos publicamente, como a que aconteceu entre os europeus. Além do mais, a participação direta dos organizadores oficiais, que colocarão a mão na grana, facilita os trâmites da Superliga Africana – a CAF não é oposição como a Uefa, mas sim a promotora do evento.

Motsepe afirmou que a Superliga Africana acontecerá em paralelo com a Champions League Africana, mas não especificou o que ocorrerá com as ligas nacionais. O dirigente garantiu que os detalhes virão em agosto, com o lançamento em evento na Tanzânia. Serão 24 participantes na nova competição, escolhidos através de rankings. A CAF também precisará esclarecer o formato de disputa da Superliga, assim como a possibilidade de acesso e rebaixamento. Mas, pela promessa de US$100 milhões em prêmios, sendo US$10 milhões ao campeão, as bases econômicas já estão estabelecidas.

Conforme Motsepe, os “desafios financeiros da CAF aceleraram o projeto da Superliga”. O dirigente justifica que há um impacto dos casos de corrupção mais recentes envolvendo Ahmad Ahmad. Além disso, as cifras foram preponderantes, segundo o próprio presidente: “A questão principal é o interesse acima do normal a que fomos expostos, de alguns dos maiores e mais proeminentes investidores e patrocinadores do futebol”. Infantino também tem participado ativamente do desenvolvimento da Superliga Africana, apontada por ele como grande passo de crescimento ao futebol local – e, sem dúvidas, uma nova fronteira de lucros à Fifa. O próprio Infantino, curiosamente, adota discursos diferentes em relação à Superliga na África e na Europa.

Os desafios logísticos da Superliga Africana tendem a ser maiores que as questões financeiras atuais da CAF. O torneio demandará viagens longas e frequentes. Além disso, existe uma preocupação genuína com o equilíbrio de forças. Os clubes do norte da África costumam dominar a Champions League, com África do Sul e República Democrática do Congo sendo as exceções entre os finalistas subsaarianos desde 2010. Os países de seleções mais fortes não são necessariamente os de ligas mais fortes, assim como países populosos e economias mais ricas não resultam necessariamente num futebol de clubes relevante. Pensando em 24 times, é difícil que essa disparidade regional seja resolvida de imediato, a não ser que superclubes artificiais surjam em grandes cidades.

E outro ponto fundamental será quanto à situação dos times menores, que ficarão de fora da Superliga e tendem a ser suprimidos por uma elite. Há uma tendência de concentração de desenvolvimento, numa competição que pode ser melhor aos dirigentes e patrocinadores do que necessariamente ao próprio futebol como um todo. A ideia é ótima para gerar dinheiro e se sugere como um caminho fácil para atrair investidores, mas esse investimento precisa ser global, não só pontual nas camisas mais pesadas. A melhora do futebol africano precisa abarcar mais gente e torná-lo mais acessível, não só fechar poucos clubes dentro de uma redoma. Nas bases indicadas por Infantino e Motsepe, a Superliga tende a ser um formato para a TV, mas com raízes locais, para tentar bater de frente com o interesse crescente pelas ligas europeias e tentar segurar os talentos africanos por mais tempo – o que, claro, é válido. No entanto, precisa ser planejada para criar um sistema mais sustentável no futebol africano como um todo.

Entre as outras novidades anunciadas por Motsepe, o presidente da CAF confirmou que a Champions Africana voltará a ter finais disputadas em partidas de ida e volta. As últimas três edições tiveram suas decisões realizadas em jogo único. Porém, na última temporada, a confederação foi acusada de beneficiar os clubes marroquinos, ao escolher Casablanca como palco da final durante as semifinais – com dois times do país entre os quatro melhores do torneio. Antes da decisão, o Al Ahly ainda tentou mudar o local do duelo com o Wydad Casablanca, mas não foi atendido. Os marroquinos foram campeões.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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