África

Para virar a página

Até pouco tempo atrás, as seleções de Camarões e Nigéria eram mais comentadas, nesta coluna, por suas confusões fora de campo do que por seus feitos dentro deste. Nem mesmo a conquista de um inesperado vice-campeonato africano por parte dos Leões Indomáveis, no início do ano, havia feito com que seus dirigentes deixassem de atrapalhar seu futebol. Porém, ao que tudo indica, a situação está se invertendo no país, e as Super Águias também parecem seguir o mesmo rumo. No último fim de semana, foi encerrada mais uma fase das Eliminatórias para a Copa do Mundo e as duas equipes tiveram as melhores campanhas.

A situação nigeriana é ainda mais especial, pois, ao longo de todas as partidas disputadas até aqui na competição, não se registrou qualquer problema extracampo, envolvendo cartolas ou jogadores. Trata-se de uma verdadeira façanha para um time que vem de uma péssima campanha na última CAN e de uma Olimpíada que, apesar da medalha de prata, teve uma preparação marcada por falhas da federação local. Os ares de Pequim certamente fizeram bem para os nigerianos.

O ponto crucial para essa melhora parece ter sido o afinamento do diálogo entre dirigentes e atletas. Ao contrário do que se via num passado recente, promessas de premiação têm sido feitas dentro da realidade nacional e, o mais importante, cumpridas. Além disso, a parte burocrática tem sido melhor cuidada pela NFA, com a oferta de boas condições de trabalho para os jogadores e, também, um estreitamento no relacionamento com os clubes europeus. Assim, o país pode se desvencilhar da imagem antipática que sempre sustentou em relação a eles.

Recentemente, inclusive, o treinador das Super Águias, Shaibu Amodu, esteve no Chelsea ao lado de Felipão e atendeu a um pedido do técnico brasileiro, dispensando o volante Obi Mikel do último compromisso nigeriano pelas Eliminatórias, contra Serra Leoa. Essa postura, com certeza, ajudará a equipe a retornar à Copa do Mundo, já que, dentro das quatro linhas, tudo está caminhando bem. O time venceu todos os seus seis jogos disputados nessa fase classificatória e se deu ao luxo, ainda, de testar algumas opções para o seu elenco.

No fim de semana passado, foi a vez dos jovens medalhistas olímpicos ganharem uma oportunidade. Ao todo, três deles – Kaita, Ogbuke e Obinna – participaram da goleada de 4 a 1 sobre os serra-leonenses. Amodu está avançando, assim, com um trabalho que, a continuar dessa forma, permitirá à Nigéria criar uma forte base para chegar ao próximo Mundial em condições de repetir o desempenho que a lançou no cenário mundial, no início da década de 90.

Em comparação com as Super Águias, Camarões encontra-se num patamar um pouco mais abaixo atualmente. Não por conta dos números que apresentou nessa última fase das Eliminatórias, em que teve apenas um pequeno tropeço frente a Tanzânia, mas por causa de questões técnicas e organizacionais. Ainda assim, é de se louvar o momento que a equipe vive. De certo modo, nem parece ser a mesma que, nos primeiros meses do ano, teve sua imagem prejudicada por discussões em torno da contratação do treinador Otto Pfister.

A confusão envolvendo o controle do futebol camaronês, protagonizada por duas entidades que comandam o cenário local, parece ter sido superada, e não há mais nenhuma crítica aparente ao trabalho do ex-comandante de Togo. Dessa forma, ele vem tendo mais tranqüilidade para formar seu elenco, em que pese aquela que talvez seja, ainda, a sua maior dificuldade na seleção: a inércia da federação no agendamento de amistosos. Inúmeras datas-fifa já se passaram sem que uma partida fosse marcada. Após as críticas de Pfister, os cartolas estão começando, enfim, a se mexer e já fecharam com a África do Sul.

Feito isso, o técnico alemão poderá partir para maiores definições em seu time, com os chamados coadjuvantes, já que a espinha dorsal, segundo o próprio, já existe e é composta pelos seguintes nomes: Kameni, Geremi, Song, Makoun, Mbia e Eto'o. Eles são a base de uma equipe que, até 2010, precisará crescer, acima de tudo, sob o ponto de vista ofensivo, face a dependência existente, nesse ponto, em relação ao atacante do Barcelona.

Em seu último jogo pelas Eliminatórias, os Leões Indomáveis até se saíram bem nesse setor, atropelando as Ilhas Maurício por 4 a 1. Porém, mais uma vez, ficou evidente a falta de opções para a linha de frente, com Eto'o tendo que atuar isolado, em virtude da deficiência técnica de seus colegas de posição. Até por causa desse panorama, Pfister tem procurado alternativas que, no momento, ainda não soam prováveis, como a adoção por David Ngog, do Liverpool, de sua cidadania camaronesa. Mas movimentos nesse sentido têm sido feitos e, só isso, tendo em vista a realidade recente, já é elogiável.

Mais surpresas?

Na Copa da Alemanha, a ausência das forças africanas mais tradicionais foi lamentada por muitas pessoas. Ao todo, quatro seleções do continente fizeram suas estréias em Mundiais naquela ocasião. O destaque maior ficou com Gana, que foi a única a ter conseguido passar de chave. Apesar disso, não se pode dizer que a Costa do Marfim, por exemplo, desapontou. O mesmo também vale para Angola e Togo, que, a despeito de todas as suas limitações, chegaram a sonhar, inclusive, com uma passagem de fase.

Para a edição a ser realizada ali, pertinho, na África do Sul, é preciso prestar atenção em algumas equipes que podem surpreender nessas Eliminatórias. Elas compõem, se é que assim podemos chamá-lo, o grupo de países ascendentes no futebol africano. Deste, os maiores destaques até aqui têm sido Burkina Faso e Benin, dois times que poucos conhecem, mas que vêm fazendo barulho. Por fim, também devem ser acompanhadas com maior interesse as seleções de Mali, Zâmbia e Sudão. Estas são as candidatas a evocar as zebras tão comuns no continente.

Ahly e Coton largam na frente

A se julgar pelos resultados dos jogos de ida da semifinal da Liga dos Campeões, desenha-se um confronto pela retomada da hegemonia do futebol africano de clubes. De um lado, o Al Ahly, que empatou com o Enyimba fora de casa e briga pelo hexacampeonato, enquanto que, do outro, o Coton Sport, que surpreendentemente venceu o Dynamos no Zimbábue e desponta como esperança para o ressurgimento dos times camaroneses no continente.

Em Aba, o Ahly não tomou conhecimento do excelente retrospecto do Enyimba diante de seus torcedores e garantiu um precioso 0 a 0. Em nenhum momento, a equipe egípcia chegou a ser verdadeiramente ameaçada e, mesmo com a presença do atual destaque da competição, Stephen Worgu, no ataque dos anfitriões, conseguiu se garantir na defesa. O principal adversário do clube na partida foi, na verdade, o estado do gramado, que não apresentava qualquer condição para receber um encontro desse porte.

Para o embate de volta, espera-se por um Ahly mais aberto, sem o cinturão defensivo escalado pelo técnico Manuel José no meio-de-campo do jogo na Nigéria. A expectativa é de que Ahmed Hassan e Hossam Ashour sigam entre os titulares, enquanto que Anis Boujelbene deixe seu lugar para a entrada de mais um atacante no time, para fazer companhia ao solitário Flávio Amado no ataque. Assim, as jogadas pelos flancos com Barakat e Gilberto poderão ser mais aproveitadas.

Apesar do bom resultado conquistado pelos Vermelhos longe do Egito, não se deve desmerecer o poder de recuperação do Enyimba, em que pese o seu péssimo desempenho como visitante. As chances de recuperação do clube podem estar em seus contra-ataques, em saber aproveitar os espaços que, provavelmente, o Ahly deixará ao se lançar em busca do gol da classificação. Foi assim que o Étoile du Sahel se portou na decisão da última LC, em Cairo, para faturar o título do torneio.

A mesma receita não poderá ser seguida pelo Dynamos, que, na outra partida das semifinais, atuará não apenas contra o Coton Sport, mas contra todo um país. Força ascendente no cenário local, o Coton já se prepara para disputar, seguramente, o jogo mais importante de sua curta história de vida. Ao seu lado, estará a memória de clubes como Canon Yaoundé e Oryx Douala, que, juntos, somaram, entre as décadas de 70 e 80, quatro títulos continentais para Camarões numa época em que a seleção local ainda se preparava para alçar vôos mais altos.

Só isso, é claro, não bastará para que os camaroneses continuem sonhando com uma nova era em seu âmbito local. No confronto de ida, em Harare, no Zimbábue, a equipe soube se comportar bem para agüentar a pressão inicial do Dynamos, que, por diversas vezes, esteve perto de marcar o gol. Com o decorrer do tempo, a garotada que forma a base do time treinado por Alain Guedon Oumbleon entrou no jogo e garantiu a vantagem com o tento marcado pelo artilheiro Kamilou Daouda – o seu sexto na competição.

Agora, o Coton terá que fazer valer a atmosfera intimidadora de Garoua, que, inclusive, já lhe rendeu uma multa no torneio, para encerrar de vez a aventura zimbabuana pelo continente. Não será tão fácil assim, porém. Dono de campanha notável nas fases anteriores, o Dynamos terá na rodada decisiva, que ocorrerá neste fim de semana, a volta de jogadores que estiveram ausentes, por suspensão ou contusão, do primeiro encontro. Pode ser, também, a consagração do futebol de um país que teve sua economia arrasada mesmo antes de toda a crise mundial.

Mais uma crise no Sundowns?

Os leitores mais fiéis desta coluna já sabem da existência de um clube bancado por um bilionário na África do Sul e dos planos ambiciosos de seu dono. Pois, bem, o magnata em questão, Patrick Motsepe, terá que, ao que tudo indica, aguardar mais um pouco para consumá-los. Por mais um ano, sua equipe, o Mamelodi Sundowns, decepciona e, com os boatos em torno de uma crise interna, já se ventila a possibilidade de demissões ocorrem num curto espaço de tempo.

O alvo, por incrível que pareça, não seria o treinador Trott Molotto. Os péssimos resultados que o Sundowns vem colhendo nesse início de temporada tem respingado mais na figura de Ted Dumitru, seu diretor executivo. Responsável pela montagem de um elenco caríssimo até mesmo para o padrão de alguns países europeus, o ex-técnico da seleção sul-africana vem sendo bombardeado pelas críticas ao desempenho da equipe nas competições – nada satisfatório. Na Premier League, ela é apenas a oitava colocada, com quatro pontos em três partidas.

Ao todo, chegaram 11 novos reforços ao Loftus Stadium para esta temporada, com destaque para o atacante Sibusiso Zuma e o meio-campista Benedict Vilakazi. Como é regra, tamanho investimento deveria implicar numa maior paciência de todas as partes para que o time assimilasse essas mudanças. Porém, isso não é o que está acontecendo e, mesmo com a série de contusões que o vem prejudicando em campo, não tem havido tranqüilidade para que este ambicioso projeto seja desenvolvido. A persistir esse cenário, o Downs nunca conseguirá se igualar às principais forças do continente, como sonha Motsepe.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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