África

Os 40 anos de Kanu, ‘perigo’ para o Brasil, mas que valeu ouro à Nigéria de diferentes formas

Para boa parte do público brasileiro, a lembrança sempre será folclórica. E um tanto quanto dolorosa. Quando, na véspera de completar 20 anos de idade, arrebentou com a Seleção nos Jogos Olímpicos de Atlanta, Nwankwo Kanu firmava o seu nome no futebol. Apesar de parecer um tanto quanto desengonçado, até pela altura, o garoto tinha muita qualidade nos pés. Pode nunca ter explodido como se apontou. Mesmo assim, se firmou como um dos principais jogadores africanos da história, responsável por encaminhar a principal conquista além das fronteiras do continente. Que também construiu sua importância além do time olímpico.

VEJA TAMBÉM: 1995: os 20 anos do assombro mundial do Ajax

A ascensão de Kanu em campo está diretamente ligada aos torneios de base – o que por muito tempo levantou suspeitas sobre a sua real idade, embora nada tenha sido provado. Prodígio do Iwuanyanwu Nationale, ganhou relevância internacional no Mundial sub-17 de 1993, no qual capitaneou a Nigéria ao título. De lá, partiu ao Ajax, onde pôde se formar com uma geração talentosíssima. Em seus dois primeiros anos, foi reserva no timaço de Louis van Gaal. Mas ganhou a posição em 1995/96, logo após a conquista da Liga dos Campeões, quando foi novamente finalista do torneio europeu e faturou o Campeonato Holandês.

Kanu desembarcou em Atlanta já referendado pelo bom futebol. Estava longe de ser um desconhecido, ainda mais em um grande time da Nigéria, que contava com Babayaro, West, Amuneke, Okocha, Ikpeba, Amokachi e Oliseh – parte deles experimentados na Copa de 94. Durante a primeira fase, o Brasil venceu as Super Águias com um gol de Ronaldo. Contudo, os nigerianos avançaram em segundo, eliminaram o México e se tornaram o pesadelo do time da Zagallo. O primeiro lance mágico de Kanu, com uma calma assustadora, veio aos 44 do segundo tempo, para empatar o jogo em 3 a 3. Antes do gol de ouro que se transformou também no gol de sua vida. Já na decisão, contra a Argentina, Kanu não precisou balançar as redes em outra grande vitória da Nigéria: 3 a 2, revertendo duas desvantagens no placar, e com o tento decisivo anotado novamente nos instantes finais. A África fazia um “campeão mundial”, mesmo que em uma competição secundária.

Vários jogadores do elenco nigeriano se firmaram na Europa. Kanu entre eles, ainda que sem a velocidade esperada. Contratado pela Internazionale, o atacante precisou lidar com uma doença coronariana que o tirou dos gramados por meses e impediu o seu sucesso em Milão. O jovem passou por uma cirurgia nos Estados Unidos, antes de iniciar a longa recuperação. Pouco depois, o próprio Ronaldo ocupou sua lacuna nos nerazzurri. E, após míseras 17 partidas na Itália, o novato rumou ao Arsenal, onde reconstruiu sua carreira.

Kanu não foi absoluto em Highbury. Contudo, fez uma temporada excepcional em 1999/2000, que lhe deu pela segunda vez o prêmio de melhor jogador africano do ano. E se manteve como uma peça recorrente no timaço que conquistou duas vezes a Premier League e duas Copas da Inglaterra entre 2002 e 2004. Suas médias de gols nem são tão impressionantes, mas o nigeriano permaneceu como homem útil para Arsène Wenger, até 2004, quando se transferiu ao West Bromwich. Por lá, foram só dois anos. Até receber a idolatria no Portsmouth, consagrado com a Copa da Inglaterra de 2008, quando fez o gol no triunfo por 1 a 0. Foram seis temporadas no Pompey, jogando até mesmo a Championship, apesar do declínio financeiro.

Com a seleção nigeriana, por sua vez, Kanu nunca conquistou grandes resultados no nível principal. Participou de três Copas do Mundo, além de manter o país entre os favoritos na Copa das Nações Africanas, sem erguer o troféu. Seu peso se mede mais pela representatividade de 17 anos com a equipe nacional. Terceiro em total de partidas, também serviu como capitão em seu último ciclo.

Maior que a história de Kanu no futebol, entretanto, é a história que ele conseguiu construir a partir daquilo que o futebol lhe deu. Após a recuperação da cirurgia no coração, o atacante fundou uma organização para custear operações de crianças africanas com problemas cardíacos. Foram centenas de intervenções realizadas nas últimas décadas. A partir de 2008, o veterano também começou a auxiliar crianças em situação de rua na Nigéria, oferecendo moradia. Já mais recentemente, Kanu criou um instituto para ajudar jovens africanos trilhando os primeiros passos no futebol – em sua visão, uma alternativa para a exploração de muitos empresários que vendem sonhos impossíveis. O nigeriano ainda atua como embaixador da Unicef.

“A minha intenção é ajudar crianças menos privilegiadas e também fazê-las acreditar em si. Não existe sucesso no futebol que possa me dar mais sorrisos do que o número de vidas que eu já toquei. Como pai, o futuro dos meus filhos está sempre na minha mente, então nós precisamos conduzir o futuro das crianças corretamente. Para mim, o papel da caridade não é apenas falar, mas me comprometer a ajudar quem precisa. É algo significante na minha vida. Existem crianças que não têm nada nesse mundo e precisam de tão pouco. Então, diante da minha posição, eu espero aumentar a consciência sobre esses assuntos importantes. Estas crianças lembram a mim, quando era um menino, e isso me emociona muito”, comentou à BBC, em 2008.

Kanu geralmente costuma ser mencionado em listas dos maiores jogadores africanos de todos os tempos. O ouro de 20 anos atrás explica muito. Mas não só isso, diante do simbolismo de quem também teve os seus momentos no futebol europeu e, mais do que isso, se tornou em espelho para quem o via na África.

TRIVELA FC: Conheça nosso clube, ganhe vantagens e faça a Trivela mais forte!

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo