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O que deveria ser festa terminou em tragédia, e 17 pessoas morreram em estádio angolano

Era para ser um dia de sonho realizado. Pela primeira vez em sua história, o Santa Rita de Cássia entrou em campo pela elite do Campeonato Angolano. Após dois anos, voltava a colocar um representante da província de Uíge, de 1,5 milhão de habitantes, na primeira divisão. A primeira partida aconteceu em casa, nesta sexta, contra um dos clubes mais vitoriosos do país, o Recreativo do Libolo. Mas o que era para ser festa terminou em tragédia: a superlotação do estádio resultou em pelo menos 17 mortos e cinco pessoas internadas em estado grave, além de cerca de 60 feridos.

O desastre ocorreu logo aos sete minutos de bola rolando. Centenas de pessoas tentavam forçar sua entrada no Estádio 4 de janeiro, com capacidade para 8 mil espectadores, e derrubaram um dos portões. A invasão resultou em dezenas de pessoas pisoteadas e asfixiadas, incluindo muitas crianças. E nem com as mortes o jogo foi cancelado. As duas equipes permaneceram em campo, com vitória do Recreativo do Libolo por 1 a 0. Segundo Sergio Traguil, treinador do Santa Rita, as pessoas dentro do estádio não perceberam a tragédia.

Em entrevista à Agência Lusa, o presidente do Santa Rita afirmou que houve um erro da polícia na segurança do estádio. “Ocorreu um erro grave da polícia, ao deixar a população aproximar-se do estádio. Muitos não queriam pagar e os que tinham bilhetes não conseguiam entrar. Depois começou a confusão. É muito triste”, apontou. “Uíge é um povo que gosta de futebol e todo o mundo queria entrar no estádio. Foi uma falha grave. A culpa disto tudo é da polícia. E era fácil evitar: era só alargar o cordão de segurança”.

Horas depois, o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, ordenou uma investigação para apurar as circunstâncias do desastre. “Eu expresso minha solidariedade com as famílias e instruí o governo provincial de Uíge a dar a assistência necessária aos feridos”, declarou o estadista. A organização do Campeonato Angolano havia vistoriado o Estádio 4 de janeiro e autorizou a realização do jogo. Porém, com uma série de recomendações, entre elas a alteração no horário de abertura dos portões principais e a segurança através de efetivos da Polícia Nacional.

Fundado em 2015, o Santa Rita de Cássia surgiu como um projeto para a formação de jovens jogadores, na periferia da cidade de Uíge, capital da província. O sucesso nas divisões inferiores do Campeonato Angolano foi imediato, resultando no acesso em 2016. Patrocinada por uma grande empresa local de construção civil, a equipe investiu em jogadores renomados para a sua esteia na elite, como Zé Kalanga e Maurito, rodados na seleção angolana. Expectativas rompidas da pior maneira possível.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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