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O príncipe nigeriano que recusou o trono para ir à Copa de 1998, e não se arrepende

Peter Rufai marcou época na seleção nigeriana. O goleiro foi titular das Super Águias em duas Copas do Mundo, assim como ajudou o time a conquistar a Copa Africana de Nações em 1994. Além disso, o camisa 1 fez longa carreira na Europa, passando por clubes da Bélgica, da Holanda, de Portugal e da Espanha. Pode não ter chegado ao estrelato em seus clubes, mas precisou abrir mão de muita coisa para viver seu auge – e, ao contrário da maioria dos jogadores, não exatamente de outros sonhos. Filho de um rei tribal na região de Idimu, Rufai negou seu direito ao trono. E ainda hoje, aos 52 anos, não se arrepende – como afirmou em ótima entrevista ao site português Mais Futebol, nesta quinta.

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A fama de Rufai como príncipe ganhou repercussão nos Mundiais. Até diziam que a realeza ajudava a manter-se como titular. Fato é que Rufai estabeleceu um legado de respeito no time nacional. Ainda hoje é um dos 10 jogadores com mais partidas pela Nigéria e o segundo goleiro, superado apenas por Vincent Enyeama. Sua despedida aconteceu na Copa de 1998. Em fevereiro, seu pai havia morrido, e o goleiro foi chamado de volta à tribo para seguir a linha sucessória. Mesmo aos 35 anos, rechaçou o seu destino e optou por ir à França. Encerraria a carreira apenas dois anos depois, no Gil Vicente.

“Nunca quis ser rei. Se aceitasse, não poderia ser jogador. Eu sei que ia ter uma vida boa, porque eu sei como viviam os meus pais. Mas aquilo não era para mim. Não me fazia feliz. Eu queria era o futebol”, declarou. “Queria o gramado, queria a rua. Queria estar com os amigos, queria ensinar as crianças a jogar futebol. Isso era o que me dava alegria. Ser rei não me dava isso. Por isso abdiquei de tudo. Sabia que para jogar futebol tinha que abdicar de tudo. Há regras para o rei e eu tinha que obedecer, claro. Por isso, não foi difícil dizer não”.

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Mesmo hoje, Rufai segue distante das obrigações que teria como rei. Preferiu seguir trabalhando no futebol, de maneira nobre: criou um projeto de futebol para ajudar adolescentes nigerianos a ingressarem em equipes profissionais. “Depois de deixar de jogar, percebi que não queria deixar o futebol. Passei a dedicar a minha vida aos jovens. Conclui o curso de treinador no Reino Unido e fiz formação para trabalhar com jovens na Bélgica. A isso juntei a minha educação e a experiência. Trabalhamos como padrões europeus. Há muito talento na Nigéria”, afirmou.

Por um grande acaso, Rufai vive de maneira bem diferente aos últimos dias de seu reserva em 1994: Wilfred Agbonavbare, que morreu de câncer em 2014, com dificuldades financeiras. Dois goleiros que pode não ter sido memoráveis. Mas deixaram as suas marcas pela história de vida e pela personalidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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