O craque sul-africano que foi preso político, mas teve sua luta antiapartheid oculta pelo medo
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O futebol, assim como o rúgbi, teve papel fundamental no projeto de reunificação da África do Sul. Se a vitória no Mundial de Rúgbi de 1995 fez o país inteiro vibrar pelo antigo “time dos brancos”, a Copa Africana de Nações de 1996 garantiu o orgulho sul-africano pelo esporte mais popular entre os negros. Ferramentas habilmente conduzidas por Nelson Mandela. “Os esportes têm poder para mudar o mundo. Poder para unir as pessoas como poucas coisas conseguem. Falam com a juventude em uma linguagem que podem entender. O esporte pode criar esperança em lugares onde ele apenas desaparece”, dizia o Nobel da Paz. A Copa do Mundo de 2010, por fim, ratificou a transformação do país.
Durante os anos em que vigorou com força, o Apartheid também dividiu o futebol sul-africano. A partir dos anos 1950, o país chegou a contar com três ligas diferentes: uma dedicada a brancos; outra, a negros, mestiços e indianos; e a última contando apenas com equipes negras. E a segregação secular também marcou a carreira de milhares de jogadores. Como Steve Mokone, o primeiro sul-africano negro a atuar profissionalmente no futebol europeu. Cuja história de luta contra se manteve oculta por anos, até voltar à tona durante o último mês de março, quando o veterano faleceu aos 82 anos.
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Mokone surgiu na seleção de negros da África do Sul, que costumava se exibir no país em amistosos. O garoto, que estreou na equipe aos 16 anos, logo começou a atrair o interesse de clubes ingleses. Entretanto, por pedido de seu pai, deveria continuar no país até concluir os estudos. Então, aos 23 anos, deixou o Pretoria Home Stars para se juntar ao Coventry City, que disputava a terceira divisão do Campeonato Inglês. Já estava formado na universidade e também envolvido com os movimentos que se levantavam entre os negros.
Pelo Coventry, Mokone disputou quatro partidas entre 1955 e 1957, anotando um gol. Os seus maiores sucessos na Europa aconteceram pelo Heracles, ajudando o clube a conquistar o acesso na terceirona do Campeonato Holandês. Idolatria a ponto de nomear um dos setores de arquibancadas do Estádio Polman e ser homenageado com um filme holandês. Além disso, o atacante também teve rápidas passagens por Barcelona, Valencia, Olympique de Marseille e Torino, sem entrar em campo. E chegou a marcar um gol sobre o Liverpool, quando passou pelo Cardiff City na temporada 1959/60.
Contudo, a verdadeira grandeza de Mokone vai muito além do que fez em campo. Em 1964, após pendurar as chuteiras, o sul-africano se mudou para os Estados Unidos, onde começou a estudar psiquiatria. Já em 1977 o veterano acabou preso, acusado de atirar ácido no rosto de sua ex-esposa e do advogado dela, após se separar e vencer a custódia de sua filha. Ficou atrás das grades por 12 anos. Mas a “culpa” que o mandou para trás das grades, na verdade, era outra.
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“A razão pela qual Steve foi preso era o seu envolvimento com o CNA (Congresso Nacional Africano, o principal movimento pró-libertação dos negros sul-africanos). Ele era um membro proeminente do partido antiapartheid, que até os anos 1970 era classificado como terrorista pelos Estados Unidos”, conta Tom Egbers, biógrafo de Mokone, em entrevista ao Guardian. Segundo o holandês, o próprio ex-jogador preferia manter a história oculta e o jornalista precisou de uma investigação de 18 meses para descobrir o real motivo da prisão, contado em livro de 2002. “Ele era amigo de Desmond Tutu e Miriam Makeba, que estudou na mesma universidade que ele em Pretoria. Quando ele sentiu que estava ficando muito perigoso, ele aceitou a proposta do Coventry. Assim que se mudou aos EUA, voltou a se tornar mais ativo politicamente”.
Enquanto vivia nos Estados Unidos, Mokone participou da campanha pelo boicote da África do Sul nos Jogos Olímpicos de 1968, liderada também por Jackie Robinson (primeiro jogador de beisebol negro na MLB) e Arthur Ashe (ex-tenista número um do mundo). Além disso, o sul-africano também começou a escrever artigos sobre o Apartheid em jornais de esquerda. Motivos pelos quais chamou a atenção do FBI.
Egbers teve acesso a uma entrevista de hipnose feita pela CIA com a ex-mulher de Mokone, na qual fica evidente a manipulação. “Após 30 minutos, ela estava convencida que Steve havia atacado, induzida pelos investigadores. Essas fitas nunca foram usadas no julgamento, porque era óbvio que não podiam ser admitidas. Também existem cartas que mostram como a CIA e o FBI se envolveram neste caso. Agora, se um crime é cometido, geralmente os dois organismos não se envolvem. Você vai a julgamento, mas por que a CIA se voltaria a Steve? Tudo foi feito para que as pessoas testemunhassem contra ele”, afirma o jornalista. O próprio filho de Mokone teria sido intimidado a depor contra, sob a ameaça de ser deportado dos EUA.
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O governo americano recebeu cartas de vários membros do CNA, incluindo Desmond Tutu (arcebispo sul-africano que ganhou o Nobel da Paz em 1984 por sua luta contra o Apartheid), para que a sentença de Mokone fosse reduzida. A liberdade só aconteceu ao final dos 12 anos estipulados, em agosto de 1990, quando os americanos exigiram o silêncio do ex-atacante sobre o real motivo de sua prisão. “Steve era casado com uma americana, e queriam seguir nos EUA. Ele temia que, se contasse o que aconteceu, tivesse que deixar o país”, explica Egbers. Mokone faleceu em Washington, no último dia 20, vítima de uma doença crônica, após trabalhar como doutor em psiquiatria e ciências políticas nos Estados Unidos.
A memória do antigo craque não foi esquecida pelo futebol sul-africano. Durante o amistoso contra a Nigéria, os jogadores da seleção utilizaram braçadeiras negras em luto. Além disso, o país realizou uma cerimônia no Estádio FNB em homenagem ao veterano. Segundo o Ministro dos Esportes, Fikile Mbalula, “um homem que levou nossa bandeira para os quatro cantos do mundo” e cujas cinzas serão espalhadas em sua terra natal. Muito mais do que um grande jogador, Mokone foi um herói nacional, e poucos puderam agradecê-lo por isso.