África

Males que vêm para o bem

Há quase 30 anos, mais precisamente a partir da disputa da Copa do Mundo de 1982, Camarões se consolidava como uma das forças do futebol africano. De lá pra cá, vieram quatro conquistas da Copa das Nações Africanas, outras cinco participações em Mundiais (um recorde no continente) e uma medalha de ouro olímpica. Uma história de sucesso que pouco ou nada serve para contornar um dos momentos mais vexatórios pelo qual a seleção local já viveu em sua história recente.

Mesmo com a goleada por 5 a 0 sobre Ilhas Maurício no último sábado, os Leões Indomáveis estão virtualmente eliminados da fase final da CAN 2012. Em 29 anos, esta é apenas a segunda vez que Camarões ficará fora da disputa pelo título de seleções mais importante da África. E vale lembrar que a eliminação precoce na última Copa das Nações Africanas para o Egito foi o estopim de uma crise que se agrava a cada dia.

Na última Copa do Mundo, os Leões foram os primeiros a serem matematicamente eliminados e a segunda pior seleção na classificação geral do torneio. Saiu Paul Le Guen, chegou Javier Clemente. Todavia, desde o anúncio oficial do novo treinador, o espanhol jamais caiu nas graças dos camaroneses. Não é pra menos. Na última década, os Leões Indomáveis tiveram nada menos que 14 treinadores, incluindo os estrangeiros Artur Jorge, Otto Pfister, Arie Haan e Paul Le Guen – todos fracassaram. Passados doze meses, Clemente se tornou em um bode expiatório para o péssimo momento da seleção nacional pelos mesmos dirigentes que investiram na sua contratação.

De fato, o trabalho do treinador à frente dos Leões Indomáveis é fraquíssimo. Não apenas pelos resultados, diga-se. Em mais de um ano no cargo, Clemente parece pouco envolvido com o trabalho e demonstra pouco interesse em viver a cultura dos camaroneses como um todo. Os próprios dirigentes da Federação local mostram descontentamento com o fato de o espanhol aparecer no país apenas poucos dias antes dos jogos, embarcar para a Europa antes mesmo dos jogadores e não falar francês.

De qualquer forma, além do trabalho de Clemente ser um fracasso anunciado, esta não é a única explicação para o insucesso da equipe. O vexame no Mundial da África do Sul provocou uma série de conflitos internos que deram início ao afastamento de jogadores importantes da seleção nacional. Alex Song, por exemplo, retornou há pouco tempo depois de um atrito com Eto’o na Copa. Vale lembrar que, em junho deste ano, o mesmo Song foi punido pela Federação Camaronesa de Futebol por ter se negado a cumprimentar Eto’o num duelo contra Senegal.

O goleiro Kameni foi outro a se sensibilizar com o ‘programa de reconciliação’ idealizado por Clemente para trazer de volta aqueles que abandonaram a seleção por uma razão qualquer. O que não funcionou com Achille Emana, após o mesmo afirmar que os funcionários do Ministério do Esporte de Camarões “são todos ladrões”.

Só que a dor de cabeça do técnico espanhol não se limitou a estes atletas. Por motivos disciplinares, o lateral Assou-Ekotto também perdeu a reta final da CAN. Convocado para um amistoso contra a Macedônia em fevereiro, o jogador do Tottenham não se apresentou e sequer deu alguma satisfação de onde estava. Ekotto ainda perdeu o duelo contra Senegal pela CAN e foi convidado pela FECAFOOT para uma audiência disciplinar, mas novamente deixou de comparecer. Pouco depois, o lateral falou abertamente sobre “problemas de ego” e “fuxicos de criança” que assolam o ambiente da equipe.

Além do ambiente pesado, as teimosias de Clemente também foram determinantes no vexame. Desde um confuso sistema tático, que mais se assemelha a um 4-1-2-3, até a ausência de jogadores importantes no onze inicial. Matip, semifinalista da última Liga dos Campeões com o Schalke 04, não ganha espaço nem na zaga, muito menos no meio-campo – em outras oportunidades, deixou até mesmo de ser convocado com a inacreditável justificativa de que “era muito inexperiente”. Tchoyi, muito elogiado na última temporada defendendo o West Brom, também nunca foi titular. E a renovação do plantel, pela qual todos aguardavam, tardou a acontecer – além do mais, fora o lateral Edgar Salli, a nova safra carece de talento.

Pressionado por dirigentes e principalmente pela torcida, Clemente está com os dias contados no comando. E o mais importante, Camarões ficará de fora da CAN pela primeira vez desde 1994. De alguma forma, essa eliminação pode ser positiva. Além de provar que hoje os Leões Indomáveis não provocam o temor de nenhuma outra seleção, também evidencia que, antes de entrar em qualquer disputa, os camaroneses precisam pôr fim às disputas internas dentro e fora de campo. E não é uma simples troca de comando que fará repentinamente com que todos remem na mesma direção.

Falando em eliminatórias…

Além de Camarões, outras seleções importantes também estão em apuros. A África do Sul visitou Níger e ganhou de presente uma derrota por 2 a 1. Não obstante, também perdeu a liderança do grupo para o rival direto e já não depende de si para garantir vaga na fase final na última rodada. Sem chances matemáticas de classificação, o Egito, que também está no Grupo G, convocou uma equipe predominantemente sub-23 e perdeu para Serra Leoa por 2 a 1.

Já a Nigéria, que bateu Madagascar por 2 a 0 (gols de Yobo e Obinna) sem muitas dificuldades, fará um confronto direto contra Guiné na última rodada para decidir a liderança do Grupo B. Os guineanos venceram a Etiópia pelo placar mínimo e jogam por um empate na última rodada, já que somam 13 pontos contra dez das Super Águias. No Grupo A, Mali assumiu a ponta com uma convincente vitória por 3 a 0 sobre Cabo Verde. Cheick Diabaté, com dois gols, foi o destaque.

A rodada também foi marcada por duas classificações antecipadas. No Grupo E, dois gols do artilheiro Moussa Sow garantiram a vitória de Senegal sobre a República Democrática do Congo, que deixaram a equipe isolada na liderança com 13 pontos e não podendo mais ser alcançada por Camarões, vice-líder com apenas oito. Outra seleção que já está garantida na fase final da CAN é Burkina Faso, que sequer precisou entrar em campo para tal, já que a eliminada Namíbia bateu Gâmbia por 1 a 0 e minou as chances de classificação dos gambianos, concorrentes diretos dos burquineses.

Outra protagonista da rodada foi a Líbia, que mandou seu duelo contra Moçambique na cidade do Cairo e venceu por 1 a 0. Por motivos de segurança, a partida foi disputada com portões fechados e os líbios atuaram pela primeira vez estampando a bandeira dos rebeldes (responsáveis pelo fim do regime de Muammar Kadafi) na camisa. O gol de Rabee Allafi foi motivo de festa em Benghazi, capital dos revolucionários, onde muitos confessaram torcer pela primeira vez para a seleção nacional. A Líbia é vice-líder do Grupo C, com 11 pontos, e visita a líder Zâmbia, com 12, para decidir a classificação.

Na estreia de Vahid Halilhodzic no comando, a Argélia não passou de um empate contra a Tanzânia por 1 a 1 e praticamente não tem mais chances de passar para a fase final da CAN. Já o Marrocos, que segurou um empate sem gols contra a República Centro-Africana, segue líder do Grupo D e joga por uma vitória contra a Tanzânia na rodada decisiva.

Classificada de forma antecipada, a Costa do Marfim visitou a frágil Ruanda e goleou por 5 a 0. A surpreendente Uganda também teve a chance de carimbar sua vaga, mas perdeu por 2 a 0 para Angola. Ainda assim, os Cranes seguem líderes do Grupo J, com um ponto a mais que os angolanos (12 a 11). No Grupo I, a disputa pelo primeiro lugar segue em aberto. Gana (2 a 0 na Suazilândia) e Sudão (1 a 0 no Congo) pularam para 13 pontos e decidem a vaga em confronto direto na casa dos sudaneses, em outubro. Pra finalizar, no Grupo K, o vencedor de Malauí x Tunísia se juntaria à Botsuana como classificada da chave para a fase final. Entretanto, um empate sem gols deixou tudo para o mês que vem.
 

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Equipe Trivela

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