África

Fim da linha para McCarthy?

Ser técnico da seleção brasileira não é fácil. Dunga sabe disso. Mas vá tentar a sorte na África do Sul, então. É pior ainda. E isso outro brasileiro, Joel Santana, pode confirmar. Na última semana, ele anunciou a pré-convocação dos Bafana Bafana para a Copa das Confederações. Uma lista de 30 nomes recheada de polêmicas. A primeira e maior delas relacionada à ausência do principal jogador sul-africano, Benni McCarthy, do Blackburn, da Inglaterra. Ponto para Joel, que teve a sua decisão saudada por boa parte dos jornalistas e dos treinadores locais.

McCarthy possui um largo histórico de indisciplinas na seleção. A última delas foi registrada no fim de março, antes dos amistosos contra Portugal e Noruega. O atacante foi convocado para essas partidas, mas pediu dispensa, alegando que estava se recuperando de uma contusão. Nada demais, não fosse pelo fato de que, dias depois, ele já era visto jogando nos gramados ingleses. O fato, certamente, foi decisivo para a sua exclusão da relação de convocados. Até porque não haveria outro motivo para deixá-lo de fora. Afinal de contas, o atleta parece ter reencontrado sua melhor forma nessa reta final de temporada.

Com a decisão de Joel, McCarthy pode ter se despedido da África do Sul. O próprio jogador já afirmou, em entrevista, acreditar que não voltará mais a defender seu país. E dessa vez não seria por vontade própria, como aconteceu em 2006, após a Copa Africana de Nações. Ainda assim, existe esperança para o goleador. Como o próprio técnico brasileiro já disse, o futebol está sempre passando por mudanças. Sendo assim, do mesmo modo que, no início do atual trabalho, Benni era apontado como um dos pilares para 2010 e agora não é mais, a situação pode ser revertida.

Seria interessante, desde que viesse acompanhada também por uma reflexão por parte do jogador. Até aqui, a impressão que fica é a de que ele age como se estivesse prestando um favor ao seu país e pudesse, diferentemente de seus colegas, escolher quando quer ou não jogar. Obviamente, não é assim que funciona e, no meio do esporte, tal atitude não costumar ser bem aceita. Por outro lado, e para dificultar a vida de Joel, faltam alternativas capazes de substituir o astro à altura. E é aqui que surge uma outra polêmica.

Qualquer que seja a lista, ela sempre será contestada. Não há dúvidas quanto a isso. Agora, uma relação de 30 nomes de um país como a África do Sul, que não possui tantos bons jogadores assim, não deveria suscitar maiores questionamentos, correto? É aí que você se equivoca, caro leitor. Pergunte ao Joel qual foi a reação da imprensa. Mais do que elogiar a sua atitude no caso Benni, ela o criticou por ausências supostamente injustificáveis. E nisso os jornalistas, vale dizer, estão cobertos de razão.

O ex-flamenguista conhece as deficiências de sua equipe, tem consciência de que o ataque precisa de gente boa e não chama o principal artilheiro da liga local… O que ele poderia esperar? Nem mesmo com a ajuda do serviço de tradução, Joel conseguiu explicar para a mídia o fato de não ter convocado Richard Henyekane, do Golden Arrows. Pior: deixou o atacante de 25 anos de lado e incluiu em sua lista para o ataque atletas como Katlego Mphela e Thembinkosi Fanteni, que não tiveram uma boa temporada em seus clubes.

A imprensa suspeita que, talvez, Joel nem saiba disso, já que ele não costuma visitar os jogadores que atuam fora do país e nem comparece aos jogos da Premier League sul-africana. Uma postura que serve como munição para que a sua imagem seja desgastada junto aos torcedores. É mais um dos problemas que o treinador brasileiro terá que superar até a Copa das Confederações, quando, então, terá outro ainda maior. Segundo os dirigentes, os Bafana Bafana têm obrigação de chegar às semifinais. Que a prancheta esteja com Natalino.

Zebras dominam LC

A Liga dos Campeões africana é uma verdadeira mãe. Possui sempre espaço para mais uma zebra. Porém, nessa temporada, ela exagerou. E quem não gostou nada disso foram clubes como Al Ahly, Asec Mimosas e Coton Sport, que, para a surpresa geral, acabaram eliminados do torneio antes mesmo de sua fase de grupos. Melhor para o Étoile du Sahel, campeão em 2007 e que não vinha de um ano muito bom. A equipe tunisiana parte agora como favorita ao título, mas precisará ficar atenta para não vacilar diante de adversários aparentemente inofensivos.

Em sua chave, os estrelistas terão a companhia de TP Mazembe-RDC, Monomotapa United-ZIM e Heartland-NIG. Nenhum dos times assusta. Em Lubumbashi, o goleador Tresor Mputu segue dando as cartas após uma série de transferências frustradas. É bom ficar de olho nele, pois já marcou três vezes até aqui e pode trazer perigo. O zimbabuano Monos, por sua vez, estreia nessa fase sonhando em repetir a façanha do compatriota Dynamos, que, na última temporada, avançou até as semifinais da LC. O Heartland concentra sua força fora de campo, no apoio financeiro que recebe do governo local.

A princípio, a maior ameaça à classificação do Étoile está concentrada em seus próprios dirigentes. A equipe segue com bons jogadores no elenco, mas, desde a excelente campanha realizada no Mundial de Clubes dois anos atrás, não vem tendo a tranquilidade necessária para trabalhar. Crises administrativas, entra-e-sai de treinadores e briga entre atletas têm feito parte da rotina do ESS. Goleado pelo rival Espérance no último fim de semana, o time trocou mais uma vez de comando e demitiu o alemão Gernot Rohr. Será preciso superar essa instabilidade para fazer valer seu favoritismo no grupo.

Na outra chave, o equilíbrio é maior. Al Hilal e Al-Merreikh comprovam o crescimento do Sudão no futebol e chegam para lutar pelas duas vagas. Não se assuste se ambos selarem suas passagens para a semifinal. O nigeriano Kano Pillars pode colocar sob perigo o plano sudanês. Vem muitíssimo bem credenciado após eliminar do torneio ninguém menos que o Al Ahly. Feito para poucos. Correndo por fora, o zambiano Zesco United tenta alcançar no continente o mesmo espaço que cavou em seu cenário local nesta década. Promessa de briga boa pela frente.

Al Ahly fora

Nos últimos cinco anos, foram quatro títulos egípcios, três africanos e um terceiro lugar no Mundial de Clubes. Um desempenho que criou ao redor do Al Ahly o estigma de imbatível dentro e fora de seu país. A impressão que se tinha era de que os Vermelhos poderiam vencer qualquer outro time sem se esforçar muito. Esses dias, contudo, parecem estar contados. Não bastasse a surpreendente eliminação na Liga dos Campeões para o Kano Pillars, a equipe, como já mostrado na coluna anterior, vem tendo o seu domínio no cenário local ameaçado.

Na próxima semana, será realizada a última rodada do campeonato egípcio e o Ahly chegará empatado com o Ismaili, do treinador brasileiro Heron Ferreira, em número de pontos. Terá que ganhar do Al-Gaish para assegurar o pentacampeonato. Caso contrário, correrá o risco de ficar apenas com vice. Seria mais um revés na trajetória de um clube que, antes mesmo do fim da temporada, já se prepara para as grandes mudanças que deverá sofrer a partir do meio do ano. A começar pela saída do técnico Manuel José.

No Egito, a ida do português para a seleção de Angola é dada como certa. Seu substituto, segundo se comenta, também viria da Europa e possui em seu currículo uma passagem pelo futebol brasileiro. Estamos falando do alemão Lothar Matthäus, que atualmente comanda o Maccabi Netanya, em Israel. A chegada do ex-treinador do Atlético Paranaense encerraria uma era de enorme sucesso no Ahly. Não será tarefa fácil manter o clube na posição que ele alcançou após tantas conquistas. Até porque a espinha dorsal que participou dessa caminhada também deverá ser desfeita.

Não chega a ser uma notícia que surpreenda. Os principais nomes do time possuem, todos, mais de 30 anos e já vinham dando sinais de que a rotina alucinante de jogos estava sendo sentida. Contribuiu para isso a postura de Manuel José, que, mesmo após contratar outras peças no mercado, continuava apostando na base que atua junta desde a sua chegada. Sem um sistema de rodízio mais eficiente, figuras como Abdul-Hamid, Shadi Mohamed, Barakat, Aboutrika e Flávio finalmente acusaram cansaço e o resultado é o que se vê em campo. Qualquer que seja o desfecho no campeonato, está na hora de pensar com mais carinho na renovação da equipe.

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Equipe Trivela

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