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Quando a estreia da Copa Africana foi marcada pelo encontro entre dois técnicos brasileiros

Gilson Paulo e Marcos Paquetá disputavam por vaga na Copa do Mundo de 2014, no Brasil

A Copa Africana de Nações registrou duelos marcantes desde a sua primeira edição, em 1957. Mas foi em janeiro de 2012 que uma disputa esteve diretamente ligada ao Brasil, com a partida entre Guiné Equatorial e Líbia, na partida de estreia do torneio daquele ano.

A Guiné Equatorial, comandada pelo técnico Gilson Paulo, era um dos países-sede do torneio e protagonizou o confronto justamente contra a Líbia, seleção também comandada por um brasileiro: Marcos Paquetá.

A partida entre os países marcou também a primeira participação da Guiné na história da CAN, que levou ao torneio 12 jogadores naturalizados, incluindo o goleiro brasileiro Danilo Clementino, do América-PE.

— Como éramos um país-sede e o grupo era difícil, nos pediram apenas para honrar a camisa da seleção… E fizemos história –, relembrou o arqueiro, em entrevista ao jornal “El País”.

De fato, o elenco escreveu o nome da Guiné Equatorial na história do futebol africano. Naquela época, os “Nzalang”, como são conhecidos, ocupavam a 150ª colocação no ranking da Fifa, sendo apenas a 42ª melhor classificada entre as seleções do continente.

Em meio ao cenário de ineditismo, a partida ganhou ares de final de mundial no país quando Teodoro Nguema Obiang Mangue, filho do presidente e ditador da Guiné, Teodoro Obiang Nguema Mbasolo – que estava no poder desde 1978 -, ofereceu US$ 1 milhão (na época, R$ 1,7 milhão) de premiação caso o país vencesse a estreia.

Já a Líbia de Marcos Paquetá chegou embalada após alcançar a melhor posição no ranking da Fifa, ocupando 58º lugar na lista mundial, às vésperas da Copa Africana e tinha como objetivo garantir a vaga na Copa de 2014, no Brasil.

Na época, o país vivia momentos de tensão devido aos conflitos com o ditador Muammar Kadhafi, movimento que ficou conhecido como a Primavera Árabe, iniciado ainda em 2011 e que escalou para uma guerra civil.

Gilson Paulo durante período em que foi técnico da seleção da Guiné Equatorial (Foto: Reprodução/Instagram)
Gilson Paulo durante período em que foi técnico da seleção da Guiné Equatorial (Foto: Reprodução/Instagram)

A trajetória dos técnicos brasileiros

Marcos Paquetá assumiu a seleção da Líbia ainda em 2010 e tinha como missão a reestruturação do futebol no país. A equipe nacional tinha como principal objetivo a classificação do país para disputar a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. 

O treinador foi convidado por Mohamed Mucimir Ghadafi, herdeiro do chefe de estado líbio, Muammar Ghadafi, para assumir o cargo após comandar as seleções sub-17 e sub-20 do Brasil, onde conquistou o Mundial sub-17 e sub-20, ambos com a vitória sobre a Espanha.

Ainda no país, também contabilizou passagens nas categorias de base do Flamengo e do Fluminense.

Paquetá também tinha como ponto favorável a larga experiência no futebol do Oriente Médio, onde acumulou passagens  Al-Rayyan (CAT), Al-Gharafa (CAT), Al Hilal (SAU), além da seleção da Arábia Saudita.

Sob o seu comando, a seleção da Líbia conseguiu sua melhor posição no ranking da Fifa na história, passando do 62º para o 58º lugar na lista dos melhores do mundo e viveu um período durante mais de um ano sem sofrer uma derrota com a seleção africana, somando três vitórias e um empate.

A marca positiva foi encerrada justamente no duelo contra a Guiné Equatorial. E com uma campanha que oscilou durante a Copa Africana de Nações, a Líbia não conseguiu se classificar para o Mundial de 2014, perdendo a vaga ao ser derrotada por Camarões.

Do outro lado do campo estava Gilson Paulo, que assumiu o cargo na seleção de Guiné Equatorial após a passagem como auxiliar-técnico do time Sub-16 do Vasco, substituindo o francês Henri Michel, que deixou o cargo após desavenças com autoridades esportivas do país africano. 

Gilson foi o terceiro brasileiro a assumir a Nzalang, depois das passagens dos compatriotas Antônio Dumas e Jordan de Freitas, e foi contratado inicialmente para ficar à frente do elenco por dois meses.

Com as vitórias sobre Líbia e Senegal na fase de grupos, o time se classificou para as quartas de final da Copa Africana de Nações, fazendo com que o período temporário fosse prolongado.

Após a competição, o brasileiro deixou a seleção para assumir a direção das categorias de base do Vasco, mas retornou ao país africano e renovou o vínculo com a equipe de Guiné-Equatorial em fevereiro onde permaneceu durante o ano. Apesar da boa campanha na fase de grupos, a Nzalang não se classificou para a Copa de 2014.

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O cenário antes da partida

A 27ª edição da Copa Africana de Nações contou com a disputa de 16 seleções na fase final, que foram divididas em quatro grupos, onde as duas equipes com maior pontuação passariam para as quartas de final.

Naquele ano, tradicionais seleções como o Egito, que havia conquistado quatro das últimas sete edições, Nigéria e Camarões ficaram pelo caminho, restando Costa do Marfim, Senegal e Gana como as grandes favoritas da edição.

Javier Balboa em atuação pela seleção de Guiné Equatorial (Foto: IMAGO)
Javier Balboa em atuação pela seleção de Guiné Equatorial (Foto: IMAGO)

Mas o primeiro duelo ocorreu justamente entre Guiné Equatorial e Líbia. Pelo lado dos equato-guineenses, o principal jogador era o meio-campo Javier Balboa, ex-Real Madrid e Benfica.

Já os líbios contavam com o volante Djamal Mahamat, naquele momento era um dos únicos jogadores do país que atuavam no futebol europeu. Reserva do Braga, Mahamat liderava o setor defensivo, o ponto forte da seleção que sofreu apenas um gol na fase classificatória.

O jogo

Superiores em campo desde o primeiro tempo, o elenco de Gilson Paulo sofreu para conseguir transformar a sua melhor atuação em efetividade. A partida, que se encaminhava para o empate, só conseguiu ter um desfecho nos últimos minutos do jogo.

Javier Balboa, melhor jogador em campo pela Guiné, construía jogadas com a seleção mandante, que pressionava a todo instante. Aos sete minutos, Balboa deu belo passe para Palacios, que invadiu a área e, na tentativa de driblar os zagueiros, foi desarmado.

Aos 15 minutos, um lance polêmico agitou a partida. Palacios arriscou de fora da área, acertou o travessão e, no rebote, Mamadu chutou por baixo das pernas do goleiro Abod.

Contudo, o zagueiro Belrrish teria tirado a bola em cima da linha. O lance, no entanto, foi contestado com argumentos de que a bola teria entrado, mas o árbitro mandou o jogo seguir. Ainda na sobra do lance, Aguire empurrou para o gol, mas o árbitro marcou impedimento.

O primeiro tempo, então, foi marcado pelas chances criadas pela Guiné, que pressionava com intensidade, mas não conseguia transformar as oportunidades em gols.

A volta do intervalo trouxe um novo panorama, com a Líbia assumindo o protagonismo da partida, depois de sofrer com as investidas em velocidade por parte dos mandantes.

A equipe de Marcos Paquetá passou a manter a posse bola, trocando passes com mais objetividade, na tentativa de encontrar formas de furar o bloqueio defensivo de Guiné.

O plano, entretanto, não teve sucesso. Com a Líbia buscando espaços e a Guiné atuando de forma defensiva, a partida não parecia que sairia do empate sem gols. Até que, aos 43 minutos, Balboa recebeu ótimo passe de Echedo e, com um toque na saída do goleiro, marcou o único gol da partida.

O resultado garantiu o “bicho” prometido de R$ 1,8 milhões para o time, além de R$ 35 mil para o autor do gol.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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