África

Guiné-Internacional?

O “fenômeno” da naturalização de jogadores tornou-se algo corriqueiro no futebol mundial. A última Copa do Mundo, por exemplo, reuniu quase oitenta casos de naturalizações. O assunto divide opiniões, mesmo porque, diante das atuais regras da Fifa, o atleta praticamente sequer precisa ter ligação com um determinado país para vestir a camisa de tal seleção. No continente africano, a pré-convocação de Guiné-Equatorial para a CAN reabriu esse debate. Na seleção comandada pelo brasileiro Gílson Paulo, nada menos que doze jogadores chamados não possuem qualquer ascendência guineense, desconsiderando os espanhois, filhos de pais africanos.

Nesse último caso, a naturalização é perfeitamente compreensível, afinal, faz do jogador um guineense como qualquer outro que tenha nascido no país. Entretanto, esta iniciativa de “fortalecer a equipe a qualquer custo” buscando atletas em outros centros tem sido bastante repreendida pela torcida local, preocupada com a falta de identificação dos jogadores com a seleção. Além de ser uma política arriscada, afinal, Burkina Faso quase foi eliminada da CAN por uma naturalização controversa. Herve Zengue, lateral camaronês e casado com uma burquinense, garantiu cidadania e atuou em algumas partidas na CAN. A Namíbia, que perdeu a vaga para Burkina, protestou e chegou a levar a acusação para o Tribunal Arbitral do Esporte.

O caso de Guiné-Equatorial é ainda mais espantoso: quase metade dos jogadores do elenco são estrangeiros. Muitos deles naturalizados “em cima da hora”, o que parece ter sido o grande motivo do pedido de demissão de Henri Michel, que seria o treinador da equipe da CAN. O francês entrou em conflito com Ruslán Obiang Nsue, ex-ministro dos esportes e que ainda possui bastante influência entre os diretores da Federação local, a Feguifut, e tem coordenado essa “captação” de jogadores. Pra piorar, segundo se especula no país, Ruslán estaria “torcendo” pelo fracasso da seleção da CAN, pois assim existirá uma justificativa para que o atual ministro, Francisco Pascual Eyegue Obama Asué, seja destituído do cargo.

As justificativas para a naturalização de jogadores são as mais diversas. Desde o fato de alguns serem filhos de guineenses, como no caso dos espanhois, passando pelo tempo de cada um no futebol local ou até mesmo por uma suposta “crise” de talentos no país. De fato, Guiné-Equatorial não possui uma liga competitiva, mas outros países “inexpressivos”, como Botsuana e Gabão, são verdadeiros exemplos de que se pode fazer bonito apenas com jogadores “locais”. O zagueiro marfinense Kamissoko, por exemplo, não possui nenhuma ligação com Guiné-Equatorial e sequer atuou alguma vez na liga do país, mas foi pré-selecionado.

Ao todo, a seleção conta com cinco camaroneses, dois marfinenses, dois colombianos, um nigeriano, um liberiano e até um brasileiro: o goleiro Danilo, que se juntará ao elenco em breve. O atacante André Neles (mais conhecido como “André Balada”), ex-Palmeiras e Fortaleza, foi outro brasileiro a se naturalizar guineense, mas ainda em 2007. No último amistoso de Guiné-Equatorial, que terminou empatado sem gols contra a África do Sul, três estrangeiros iniciaram a partida como titulares: o supracitado Kamissoko, o zagueiro liberiano Doe e o volante marfinense Konaté.

A esperança dos torcedores em uma boa campanha reside no trio “BBB”. Rodolfo Bodipo, atacante do Deportivo La Coruña e capitão da seleção, é o mais experiente deles. Ele é o único atacante do 4-2-3-1 da equipe, que ainda conta com outro jogador bastante conhecido: o meia Javier Balboa, com passagens por Real Madrid e Benfica e que atualmente veste a camisa do Beira-Mar. O novato do trio é o atacante espanhol Iván Bolado, ex-Racing Santander (hoje no Cartagena) e filho de pai guineense. Bolado estreou no amistoso contra a África do Sul e só atuou nos últimos cinco minutos de jogo, mas chegou com moral, vestindo a camisa 10.

Com um treinador “tampão” (Gilson Paulo, que dirigia o pré-mirim do Vasco, chegou há poucos dias), um ministro de caráter duvidoso e resultados pouco expressivos, já dá pra imaginar que as expectativas dos guineenses, que pela primeira vez sediarão a CAN, estão longe de ser das melhores. E o drama só aumenta com espaços no elenco supostamente destinados aos jogadores locais sendo ocupados por estrangeiros. Não entende a revolta? Então imagine uma seleção brasileira sendo dominada por Piris, Victorino, Guiñazu, D’Alessandro, Montillo, Loco Abreu e outros gringos. Cada caso é um caso, mas o processo de naturalização de jogadores precisa urgentemente ser revisto.

Curtas

– Em amistosos preparatórios de seleções que disputarão a CAN, Gabão e Burkina Faso empataram sem gols. A Tunísia, com gols de Khelifa, Dhaouadi e Chermiti, bateu o Sudão por 3 a 0.

– Costa do Marfim divulgou sua pré-convocação para a Copa das Nações Africanas com 25 jogadores, entre os quais se destacam os irmãos Touré, Drogba, Gervinho e Doumbia. Um goleiro e um jogador de linha ainda serão cortados da lista nos próximos dias.

– Pela Premier League egípcia, o Zamalek, que amarga enorme crise financeira prestes a completar 101 anos de história, venceu o Wadi Degla por 1 a 0 e segue em recuperação no torneio. A equipe agora ocupa o 4º lugar com 23 pontos, um atrás do El-Shorta, terceiro colocado, que perdeu em casa para o ENPPI por 1 a 0.

– No Campeonato Marroquino (Botola), o líder FUS Rabat venceu o Olympique Khouribga por 1 a 0 e segue com seis pontos de vantagem para o Raja Casablanca, que bateu o El Jadida por 2 a 1. O Wydad Casablanca, decepção do torneio, perdeu por 2 a 1 para o Olympique Safi e caiu pro 5º lugar.

– Em Gana, o Hearts of Oak derrotou o AshantiGold por 3 a 2 e igualou o número de pontos do líder e maior rival Asante Kotoko, que empatou sem gols com o surpreendente Aduana Stars. O Berekum Chelsea, atual campeão, empatou mais uma e não vence há cinco jogos na Premier League.

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