África

Com passagens notáveis em grandes ligas e fama de carrasco, Demba Ba anuncia sua aposentadoria

Aos 36 anos, Demba Ba iniciou a temporada com o Lugano da Suíça, mas optou por pendurar as chuteiras

Demba Ba teve o gosto de disputar algumas das principais ligas da Europa e de vestir a camisa de diversos clubes tradicionais. O senegalês colecionou bons momentos por Hoffenheim, West Ham e Newcastle. Conquistou dois títulos na Turquia, por Besiktas e Istambul Basaksehir, além de faturar também uma Liga Europa pelo Chelsea. Porém, sua carreira acaba mais lembrada por um gol que afetou o adversário, não necessariamente que ajudou seu time. O centroavante foi o carrasco do Liverpool e de Steven Gerrard, no lance mais amargo dos anos de jejum vividos pelos Reds. Acima disso, o veterano de 36 anos também merece ser lembrado pela relevância ao longo da última década, no dia em que anuncia o ponto final de sua trajetória.

Os últimos anos da carreira de Demba Ba foram vividos na Turquia, destacando-se no time campeão do Istambul Basaksehir. No entanto, o clube caiu de nível na temporada passada e o centroavante também viu seu espaço reduzido, ficando livre no mercado ao final de seu contrato. O senegalês ainda conseguiu um novo destino em junho, ao assinar com o Lugano na Suíça. Porém, o clube trocou de donos dois meses depois e a saída do senegalês acontece na esteira de outras mudanças internas, como a saída de Abel Braga. O veterano disputou apenas três partidas pelo Campeonato Suíço e, de maneira abrupta, anunciou sua aposentadoria nesta segunda.

“É com o coração repleto de gratidão que anuncio o fim de minha carreira profissional. Foi uma jornada fantástica. Além de todo o suor e lágrimas, o futebol me deu tantas emoções bonitas. Da paixão dos torcedores e do barulho vindo das arquibancadas depois dos gols à conexão com meus companheiros dentro e fora de campo, isso permanecerá para sempre na minha mente e no meu coração. Quero agradecer a todos que eu cruzei no caminho e que me ajudaram a crescer, todos os clubes e treinadores por me darem uma oportunidade, os torcedores por seu tremendo apoio e minha família, bem como meus amigos, pelo amor incondicional. Do fundo do meu coração, muito obrigado. Louvado seja o Todo-Poderoso”, escreveu o atacante.

Nascido na França, filho de pais senegaleses, Demba Ba precisou rodar bastante no início de sua carreira. O centroavante viu várias portas se fecharem até ganhar sua primeira chance. Foi recusado em testes por Lyon, Auxerre, Watford, Barnsley, Swansea e Gillingham. Somente em 2005, aos 20 anos, é que conseguiu despontar no Rouen, pela quarta divisão do Campeonato Francês. Apesar do péssimo momento vivido pelo clube, o garoto empilhou gols e virou um nome forte no mercado. Transferiu-se ao Campeonato Belga, onde jogou pelo Excelsior Mouscron. Apesar de uma fratura ter freado sua ascensão, ainda assim ele marcou oito gols em dez partidas pela liga nacional, ganhando sua primeira convocação à seleção senegalesa.

Após um ano na Bélgica, Demba Ba deu novo passo. O centroavante assinou com o Hoffenheim, então um clube em crescente na Alemanha. O senegalês seria importante ao inédito acesso à Bundesliga e permaneceu como uma das figuras principais da equipe de Ralf Rangnick na primeira divisão. Foi o que garantiu sua transferência à Inglaterra, embora tenha sido reprovado nos exames médicos após acerto com o Stoke City. O West Ham mesmo assim apostou no centroavante e ele faria uma boa metade final na Premier League 2010/11, antes de fechar com o Newcastle. Então, Demba Ba foi um dos destaques no time de Alan Pardew e formou uma parceria marcante ao lado do compatriota Papiss Demba Cissé. Foram 29 gols em uma temporada e meia no St. James’ Park, quando quase levou os Magpies à Champions em 2011/12.. Figurou entre os finalistas ao prêmio de melhor jogador africano do ano em 2012 e foi eleito o melhor jogador da Premier League em dezembro de 2011.

Na janela de inverno da temporada 2012/13, Demba Ba chegou a um Chelsea que se reconstruía após a saída de Roberto Di Matteo e vinha para brigar pela posição com o criticado Fernando Torres. O centroavante não reproduziria os bons números de Newcastle e West Ham, indicando que os Blues eram um passo muito grande em sua trajetória. Apesar disso, balançou as redes 14 vezes em 51 aparições com os londrinos, subindo de produção após a chegada de José Mourinho e inclusive marcando gol decisivo contra o PSG nas quartas de final da Champions de 2013/14. Já o último tento foi exatamente aquele em Anfield, após o escorregão de Steven Gerrard, que representou o desabamento do Liverpool em suas ambições de encerrar o jejum e abriu o caminho ao Manchester City para a conquista da Premier League 2013/14. O tento também mantinha o Chelsea no páreo, mas nada suficiente para ir além da terceira posição nas duas rodadas finais.

Aproveitando sua fama, Demba Ba transferiu-se ao Besiktas e brilhou na temporada 2014/15. Foram 18 gols pelo Campeonato Turco, que garantiram um contrato gordo com o Shanghai Shenhua pouco depois, para suceder Didier Drogba. O centroavante passou duas ótimas temporadas na China, inclusive eleito como o melhor da liga em 2015, até retornar ao Besiktas em janeiro de 2017. Com uma fratura que quase encerrou sua carreira, disputou apenas dois jogos naquela campanha, mas fez parte do time bicampeão nacional. Nestas andanças, o senegalês também vestiu a camisa do Kayserispor e teve um breve retorno ao Shenhua em 2018.

Por fim, Demba Ba viveu o último momento de brilho com o Istambul Basaksehir. O artilheiro contribuiu com 13 gols na conquista da Süper Lig em 2019/20. Depois, seria importante também no episódio de racismo ocorrido na última Champions contra o Paris Saint-Germain, quando questionou os árbitros por suas afirmações e apontou o preconceito nas falas. A postura de confrontar o racismo, inclusive, tinha ocorrido em outra ocasião na China, quando o centroavante foi alvo de insultos. Dentro de campo, porém, a efetividade do atacante diminuía no Basaksehir e ele não evitou as campanhas erráticas dos turcos após o título.

Já pela seleção, a impressão é de que Demba Ba jogou menos que poderia. Foram somente 22 aparições e três gols por Senegal. O ápice aconteceu em 2012, quando disputou a Copa Africana de Nações. Só que os Leões de Teranga sofreram três derrotas e seu filme acabou queimado na ocasião. Figuraria nas listas de convocados até 2015, sem permanecer nos planos que recolocaram os senegaleses no Mundial de 2018. Ficou aquém da fama que pôde construir por clubes.

Demba Ba teve uma carreira respeitável, principalmente levando em conta suas limitações como centroavante e os problemas físicos que sofreu. Foram 43 gols na Premier League, 25 na Bundesliga e 46 no Campeonato Turco, além de 12 nas copas europeias. Teve seu auge no Newcastle e participou de um momento histórico no Hoffenheim, enquanto também se marcou pelos posicionamentos em prol do islamismo (a ponto de se recusar a vestir uma camisa do Newcastle patrocinada por casas de apostas) e contra o racismo. Contudo, foi aquele gol contra o Liverpool que acaba mesmo como memória mais viva de seus principais momentos nas grandes ligas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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