Com Keshi, Nigéria deu o primeiro passo para ir além
Dezenove anos depois, a Nigéria volta a figurar no topo do futebol africano. O título da Copa Africana de Nações é um prêmio e tanto para uma seleção que ainda passa por um processo de renovação. Entre os jogadores de linha que integraram o elenco campeão, apenas dois ultrapassam a casa dos 25 anos: o zagueiro e capitão Yobo (32) e o atacante Uche (29), titular na final por conta da lesão do artilheiro Emenike. Em tese, é uma equipe para muitos anos. Até mesmo Obi Mikel, com vasta experiência no futebol europeu e um dos líderes das “Super Águias”, possui apenas 25 anos.
Muitos dirão que essa é a Nigéria da qualidade técnica de Moses, dos gols de Emenike, da consistência de Mikel, mas talvez nenhum personagem seja maior do que Stephen Keshi. O treinador “linha dura” e de personalidade forte entrou para a história ao se tornar apenas o segundo a conquistar a CAN como jogador e treinador, repetindo o feito do egípcio Mahmoud El-Gohary em 1959 e 1998. Ele também é o primeiro treinador africano negro a conquistar o torneio desde 1992, quando o marfinense Yeo Martial faturou o único título continental da Costa do Marfim.
Em meio a comemoração do título, Keshi também foi o personagem central de uma enorme polêmica. Em entrevista a uma rádio sul-africana, o treinador declarou que deixaria o comando da seleção por conta da falta de confiança no seu trabalho por parte dos dirigentes nigerianos. A Federação Nigeriana de Futebol (NFF), no entanto, surpreendeu-se por não receber nenhum comunicado oficial por parte do técnico. A confusão motivou uma reunião emergencial de Keshi com o Ministro dos Esportes da Nigéria, Bolaji Abdullahi, que convenceu o comandante a desistir da decisão.
A saída de Keshi representaria um retrocesso e tanto para a filosofia que a seleção nigeriana começa a construir. Uma seleção não apenas composta por jogadores que atuam na Europa, mas que também valoriza os talentos das equipes locais. Entre os seis convocados que atuam no futebol nigeriano, dois deles tiveram um papel fundamental na caminhada rumo ao título: em menor proporção, podemos destacar Godfrey Oboabona, titular durante toda a CAN como zagueiro. Ele já havia se destacado na Liga dos Campeões Africana pelo Sunshine Stars, porém atuando como lateral-direito.
Como não poderia deixar de ser, o outro é simplesmente o autor do gol do título: Sunday Mba, jogador do modesto Warri Wolves, time que recentemente escapou do rebaixamento no Campeonato Nigeriano na bacia das almas. Ele já havia sido decisivo nas quartas de final, contra a Costa do Marfim, marcando o gol da vitória por 2 a 1. Curiosamente, seus dois gols na competição foram marcados no domingo, “honrando” o seu primeiro nome. Além de deixar o caminho aberto para uma possível transferência para o futebol europeu, Mba também passa a ser a referência de muitos jogadores que atuam na Nigéria e sonham em brilhar com a camisa da seleção sem a necessidade de jogar fora do país.
O próximo desafio das Super Águias é a Copa das Confederações, na qual a equipe defronta Espanha, Uruguai e Taiti no Grupo B. Diante da atual campeã mundial e europeia e do campeão sul-americano, os nigerianos chegam como franco-atiradores. Nesta mesma condição, o time esteve bastante confortável (e confiante) na África do Sul.
Keshi já provou que o seu trabalho é digno de confiança. Cabe aos dirigentes nigerianos respeitarem seu trabalho e não cometerem os mesmos erros que quase acarretaram na sua saída. O time, com a adição de jogadores como Sidney Sam (que teve sua naturalização regularizada pela Fifa), só tende a evoluir. O que é certo é que a Nigéria não pode se acomodar com a condição de campeã africana. O fracasso de Zâmbia pós-título está aí para provar isso. Com jogadores de enorme potencial e um trabalho sério, os nigerianos podem almejar ainda mais.
Minha seleção da CAN 2013: Enyeama (Nigéria); Ambrose (Nigéria), Bakary Koné (Burkina Faso), Sangweni (África do Sul), Tamboura (Mali); Obi Mikel (Nigéria), Kabore (Burkina Faso); Pitroipa (Burkina Faso), Keita (Mali), Moses (Nigéria); Emenike (Nigéria). Técnico: Stephen Keshi (Nigéria).
Menções honrosas: Alain Traoré (Burkina Faso); Oboabona e Sunday Mba (Nigéria); Agyemang-Badu e Wakaso (Gana); Yaya Touré (Costa do Marfim).