África

Com a mão na taça

O povo egípcio anseia por futebol. Desde fevereiro, quando a temporada local foi suspensa por conta do massacre em Port Said, apenas um jogo disputado no país contou com a presença de torcedores (Zamalek 1×1 Berekum Chelsea, no dia 1 de setembro). No último domingo, com a permissão do Ministério do Interior do Egito, aproximadamente 20 mil pessoas puderam acompanhar o jogo de ida da final da Liga dos Campeões, entre Al Ahly e Espérance.

Ao menos por um instante, todas as turbulências vividas pelo futebol egípcio ficaram em segundo plano. Ainda que o jogo não tenha sido disputado na casa dos Diabos Vermelhos, no Cairo, mas sim em Alexandria, a atmosfera nas arquibancadas estava espetacular. E o principal: sem nenhum episódio de violência para ofuscar um jogo de tamanha importância. Naquele momento, o Ahly não jogava apenas por sua glória, mas sim pelo orgulho de um país. Não à toa que a comissão técnica do Zamalek, incluindo o técnico Jorvan Vieira, esteve no Borg El-Arab Stadium para apoiar o arquirrival.

Na verdade, só o fato do Al Ahly ter chegado tão longe na competição já é absolutamente fantástico. Não é fácil completar quase nove meses sem disputar uma partida de liga nacional e manter o nível de competitividade apresentado pelos egípcios. O Espérance, atual campeão tunisiano e com um time superior tecnicamente, não subestimou a competência e a motivação dos rivais. Mesmo desfalcado de seu principal jogador, Msakni, o time comandado por Nabil Maaloul apresentou a mesma aplicação tática que conteve o Mazembe em Lubumbashi. Um time pragmático, porém eficiente. E que agora está a um passo do título.

A vantagem pode parecer simbólica (um gol fora de casa), mas para um time tão calejado como o Espérance, é muita coisa. Os tunisianos, armados no característico 4-3-2-1 quando a equipe atua fora de casa, aceitaram a pressão do Ahly sem nenhum receio. A solidez defensiva permitiu que os “Sangue e Ouro” concedessem poucas chances de gol, e nelas, brilhou a estrela do jovem goleiro Bem Cherifia, de 21 anos.

O ponto fraco desta estratégia do Espérance – e que nenhum time africano soube explorar – é que a equipe praticamente abdica dos contra-ataques. Na ausência de Msakni, eles simplesmente inexistiram. N’Djeng foi figura quase nula no jogo, e Bouazzi e Afful, os jogadores de velocidade pelos flancos, estavam sobrecarregados pela recomposição defensiva. Isso significa que o único caminho do time tunisiano ao gol acaba sendo a bola parada. Deu certo contra o Mazembe, e contra uma zaga pavorosa do Ahly no jogo aéreo, certamente iria funcionar. Numa falha clamorosa do goleiro Ekramy, que saiu mal do gol, o zagueiro grandalhão Hichri se antecipou e testou a bola pras redes, abrindo o placar.

O Al Ahly, com mais posse de bola e muito mais intensidade, não merecia perder. Hossam El-Badry colocou o time pra frente no segundo tempo com as entradas de Hamdy e Barakat e a pressão ficou insustentável. Nos minutos finais, em grande jogada de Fathi, Hamdy deixou tudo igual. De quebra, o Ahly manteve uma invencibilidade: nunca perdeu para o Espérance jogando no Egito. Os tunisianos, ainda que desfalcados de Derbali e Afful no jogo de volta, em Radès, estão com a faca e o queijo na mão para assegurar o bicampeonato, mesmo porque só perderam um de seus últimos 23 jogos em competições continentais.

Curtas

– As semifinais da Copa da Confederação Africana também começaram neste fim de semana. No sábado, o Al Hilal (Sudão) derrotou o Djoliba (Mali) por 2 a 0. Sané e El-Tahir marcaram os gols dos sudaneses, que buscam quebrar um incômodo jejum: nos últimos cinco anos, o clube coleciona três eliminações em semifinais de Liga dos Campeões e uma eliminação na semi da Copa da Confederação.

– No outro duelo, a grande surpresa: o AC Léopard, do Congo-Brazzaville, venceu o Al-Merreikh (Sudão) por 2 a 1. Os congoleses são os únicos que disputam a competição desde a fase eliminatória, enquanto os outros três semifinalistas só disputam o torneio porque foram eliminados na fase preliminar da Liga dos Campeões.

– Neste jogo, um lance grotesco decidiu a partida. O jogo estava 1 a 1 quando El Hadary, veterano goleiro egípcio do Merreikh, foi tentar gastar o tempo na frente de Arouna, atacante do Léopard. Veja com seus próprios olhos o que aconteceu em seguida:

– Dez jogadores concorrem ao prêmio de melhor jogador africano de 2012: Drogba, Gervinho e Yaya Touré (Costa do Marfim), Belhanda (Marrocos), Demba Ba (Senegal), Katongo (Zâmbia), Song (Camarões), Aubameyang (Gabão), Andre Ayew (Gana) e Obi Mikel (Nigéria).

– Outra premiação realizada pela CAF baseada na temporada é a de melhor jogador africano que atua no continente. Cinco jogadores estão na briga: N’Djeng e Msakni (Espérance), Kalaba e Sunzu (Mazembe) e Aboutrika (Al Ahly). Os vencedores serão divulgados numa cerimônia na capital de Gana, Acra, no dia 20 de dezembro. Outras onze premiações serão realizadas.

– Stephen Keshi, treinador da Nigéria, revelou que Odemwingie não deseja mais atuar pela seleção nacional. Sem atuar pelas Super Águias desde fevereiro, o polêmico atacante do West Brom teria dito que ainda está magoado com a forma que foi tratado no passado na seleção, especialmente por ter sido subaproveitado na Copa de 2010.

– Kwesi Appiah, de Gana, também polemizou ao revelar que Michael Essien pediu para não ser convocado para a CAN 2013. O volante, que não atua pelos Estrelas Negras desde 2010, teria dito que precisa de tempo para se estabelecer em seu novo clube, o Real Madrid, mas que estaria disposto a participar das eliminatórias para a Copa de 2014.

– A Federação Argelina de Futebol (FAF) anunciou que não conseguiu convencer o meia-atacante do Granada, Yacine Brahimi, a representar o país na Copa Africana de Nações em 2013. Nascido em Paris, Brahimi é filho de pais argelinos e, de acordo com as regras da Fifa, poderia ser naturalizado. No entanto, mesmo com a insistência de seu pai, o jogador acabou negando o convite.

– O Campeonato Angolano se encerrou no último fim de semana, e com o campeão definido há quase um mês (Recreativo do Libolo), a grande notícia do futebol local foi a saída de Rivaldo do Kabuscorp. O brasileiro disputou 21 jogos no Girabola e anotou 11 gols, tendo bom desempenho individual na campanha insatisfatória do time de Luanda, que ficou em 4º lugar após o vice-campeonato em 2011.

– O FAR Rabat derrotou o Raja Béni Mellal por 1 a 0 e manteve a liderança do Campeonato Marroquino, com 14 pontos. O Raja Casablanca, com um jogo a menos, ficou no 2 a 2 com o Olympique de Safi e chegou aos 13, contra 11 do adversário. Maior rival do Raja, o Wydad Casablanca bateu o RSB Berkane por 1 a 0 e chegou aos 9 pontos.

– Pela Ligue 1 argelina, o ES Sètif derrotou o USM Bel Abbès por 2 a 0 e disparou na liderança, com 20 pontos. No entanto, o destaque da 9ª rodada foi um dos maiores times da capital, o USM Alger, que goleou o WA Tlemcen por 4 a 0 e subiu para o 5º lugar.

– A definição do Campeonato Queniano ficou para a última rodada e, acreditem, três equipes ainda brigam pelo título. Em vantagem, o Gor Mahia goleou o Muhoroni Youth por 4 a 0 e chegou aos 58 pontos. Na última rodada, a equipe recebe o Thika United, 6º colocado, dependendo de suas próprias forças para ser campeão. Tusker e AFC Leopards somam 57 pontos e seguem na briga.

– O Campeonato Zambiano também será decidido na rodada final: Power Dynamos (59) e Zanaco (58) brigam pelo título. Em Moçambique, no entanto, já tem campeão nacional: o Maxaquene derrotou o Têxtil Punguè por 1 a 0 e faturou o caneco com duas rodadas de antecedência. É o quinto título moçambicano do clube da capital, Maputo.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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