África

Bafana na lama

A oportunidade de sediar a última Copa do Mundo foi encarada pela África do Sul como a chance de estimular a competitividade da seleção nacional. De fato, em que pese a eliminação na primeira fase, os Bafana Bafana não fizeram feio no Mundial de 2010. Entretanto, de lá pra cá, os sul-africanos só regrediram, inclusive em nível continental. Não bastasse a vexatória desclassificação nas eliminatórias da Copa Africana de Nações, motivada por uma interpretação errada do regulamento do torneio, a África do Sul estreou de forma desastrosa nas eliminatórias para a Copa de 2014: empate em casa com a Etiópia, 138ª no ranking da Fifa, por 1 a 1.

O tropeço pôs fim ao ciclo de Pitso Mosimane como treinador da seleção nacional. Em 23 meses, ele obteve seis vitórias, sete empates e quatro derrotas. Um trabalho, de fato, muito abaixo das expectativas. Seu índice de rejeição já havia tomado proporções gigantescas no jogo que marcou a desclassificação dos Bafana Bafana nas eliminatórias para a CAN 2012.

Jogando em casa, os comandados de Mosimane empatavam sem gols com Serra Leoa, formando uma “tripla liderança” no Grupo G (África do Sul, Níger e Serra Leoa, todos com nove pontos). Só o primeiro colocado garantia vaga, e por ter melhor saldo de gols que os concorrentes, os sul-africanos comemoraram a classificação após o apito final, com direito a volta olímpica. Entretanto, de acordo com as regras da CAF, o critério de desempate era o confronto direto. Dessa forma, a vaga ficou com Níger. Sobrou constrangimento na festa da África do Sul.

Uma das maiores dificuldades encontradas por Mosimane durante estes dois anos foi melhorar o rendimento ofensivo da equipe. Em 16 jogos, foram apenas 14 gols marcados, sendo que nos últimos sete jogos, os Bafana Bafana só balançaram as redes quatro vezes. O leque de opções para o setor é limitado em todos os sentidos. ‘Estrelas’ como Benni McCarthy e Bernard Parker estão fora de cogitação. O melhor tecnicamente, Katlego Mphela, só marcou um gol em todo o segundo turno do Campeonato Sul-Africano. E mesmo assim foi titular da seleção e anotou o gol de empate contra a Etiópia no último domingo.

A situação é tão desesperadora que o artilheiro do último campeonato nacional foi um jogador de 34 anos: Siyabonga Nomvethe, do Moroka Swallows (20 gols em 30 jogos), que disputou a Copa de 2002 e estava ausente da seleção há algum tempo, mas precisou ser reconvocado. Em seu retorno, o veterano ganhou a condição de titular contra os etíopes, mas jogando fora de posição, pouco apareceu e ainda perdeu um gol feito.

Num claro ato de desespero, Mosimane utilizou Nomvethe como exemplo para livrar sua culpa da incapacidade ofensiva do time: “Como posso resolver o problema de finalização do futebol sul-africano? Nomvethe foi o único a marcar muitos gols na liga e eu o escalei. Ele marcou 20 gols e ele esteve aqui”. Mosimane só esqueceu que, se os problemas fossem resolvidos desta forma, até eu poderia ser o treinador (e por um preço bem menor).

O campeão nacional, Orlando Pirates, não emplacou um jogador sequer no 11 inicial. Outra intolerância dos torcedores era o excesso de confiança sobre jogadores “queridinhos” do antigo comandante, porém visivelmente fora de forma. Masilela, um dos mais criticados, falhou no gol da Etiópia. O zagueiro Khumalo, que não jogou nenhuma partida nos últimos seis meses e ainda assim foi titular, também representa com exatidão essa “teimosia”. O mesmo vale para o volante Letsholonyane, que voltou de contusão há menos de um mês e esteve igualmente mal.

Para o novo comandante, que a princípio será Steve Komphela (de forma interina), restam ainda mais incógnitas. Como fazer com que Steven Pienaar repita na seleção o futebol jogado pelo Everton? Como trabalhar o lado psicológico da equipe, que sob o comando de Mosimane, não venceu um jogo sequer quando saiu atrás no marcador? Qual formação tática pode se adequar melhor com os jogadores disponíveis? Rejuvenescer a equipe é uma necessidade? Em todo caso, existe uma única certeza: ao menos no aspecto técnico, a África do Sul não soube tirar proveito de uma Copa do Mundo. E já está pagando caro por isso.

Curtas

 

– Giro pelas eliminatórias: pelo Grupo A, da África do Sul, a República Centro-Africana fez história ao vencer Botsuana por 2 a 0. Foi o primeiro triunfo da seleção em eliminatórias para a Copa, tendo se afiliado à Fifa em 1964. Kethevoama Foxi marcou os dois gols.

– No Grupo B, a Tunísia largou na frente ao vencer Guiné-Equatorial de virada por 3 a 1. Serra Leoa bateu Cabo Verde por 2 a 1 e aparece na 2ª posição.

– Pelo Grupo C, a Costa do Marfim não teve trabalho algum para superar a Tanzânia: 2 a 0, gols de Kalou e Drogba. Já o Marrocos, principal concorrente dos Elefantes na briga pela ponta, perdeu pontos preciosos contra Gâmbia: 1 a 1. De quebra, o meia Belhanda, destaque do time, se lesionou e está fora do jogo contra a Costa do Marfim.

– Gana aplicou a maior goleada do fim de semana ao sapecar 7 a 0 em Lesoto e assumir a ponta do Grupo D. Adiyiah e Jordan Ayew foram os destaques com dois tentos – sobraram gols até mesmo para os estreantes Christian Atsu e Jerry Akaminko. A Zâmbia, atual campeã africana, visitou o Sudão e perdeu por 2 a 0. Jogar em Cartum é sempre delicado para qualquer seleção.

– No E, dois empates sem gols: Burkina Faso e Congo e Níger e Gabão. Também não houve fartura de gols no Grupo F: Quênia e Malauí ficaram no zero, enquanto a Nigéria, com um time totalmente desfigurado, bateu a Namíbia pelo placar mínimo. Uche deu aos nigerianos um motivo para sorrir no fim de semana. O país viveu um drama no último sábado, quando um avião de passageiros se chocou contra um prédio na cidade de Lagos e vitimou 153 pessoas.

– Pelo Grupo G, o Egito derrotou Moçambique por 2 a 0 jogando em Alexandria. Guiné também fez sua parte ao vencer Zimbábue por 1 a 0, gol de Ibrahima Traoré.

– Cercada de desconfianças, a Argélia venceu e convenceu contra Ruanda: 4 a 0, gols de Feghouli, Soudani (2) e Slimani. A surpresa da chave foi Benin, que venceu Mali por 1 a 0. O gol foi de Omotoyossi, que atua no futebol egípcio (Zamalek).

– Com gol de Choupo-Moting cobrando pênalti, Camarões sofreu para bater a RD Congo por 1 a 0. No outro jogo do grupo, Togo e Líbia, esta a única seleção do Norte da África que nunca disputou um Mundial, empataram em 1 a 1.

– Papiss Cissé perdeu pênalti, mas Senegal venceu a Libéria por 3 a 1. O jogo foi mais difícil que o esperado, com os visitantes abrindo o placar com Francis Doe, aproveitando falha de Abdoulaye Ba. Ibrahima Baldé empatou e, no segundo tempo, Dame N’Doye e o jovem Sadio Mané deram a vitória aos Leões da Teranga. Quem decepcionou foi a Angola, que empatou em casa com Uganda por 1 a 1.

– Ainda sobre eliminatórias pra Copa: o duelo entre Mali e Argélia, que seria disputado na capital malinesa Bamako, foi transferido para Ouagadougou, em Burkina Faso. A Fifa tomou esta decisão por conta da grave situação política em Mali, que entre outras consequências, forçou o fechamento do aeroporto da capital do país.

– A relação entre o Zamalek e o “ídolo-problemático” Shikabala parece mesmo ter chegado ao fim. Por conta de um atrito com o treinador Hassan Shehata, o meia foi afastado do elenco e o clube já divulgou que está decidido a negociar o atleta na próxima temporada.

– O meia francês Adrien Regattin, do Toulouse, manifestou interesse em representar o Marrocos nos Jogos Olímpicos de Londres. Ele foi uma das revelações da Ligue 1 na temporada e declarou que já está em processo de obtenção da cidadania marroquina.

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