África

Armadilhas pelo caminho

A Liga dos Campeões da África, especialmente em sua fase eliminatória, costuma reservar várias surpresas para os torcedores. Quem não se lembra do Étoile du Sahel na última temporada? O então campeão continental esbarrou no inexpressivo Dynamos, do Zimbábue, e acabou ficando pelo caminho, desencadeando uma crise interna no clube. Ninguém quer isso para si, é claro. Porém, como pôde ser constatado mais uma vez no fim de semana passado, é difícil escapar das famosas zebras que correm pelo continente.

Todo ano é a mesma história. Os principais times só entram na segunda fase do torneio e vêem a caminhada até a fase de grupos encurtada. Uma vantagem que aumenta ainda mais a distância entre eles e as equipes menos tradicionais. Deveria se esperar, então, que esses clubes fizessem valer seu favoritismo com relatividade facilidade. Mas não é sempre assim que acontece. Na atual edição da Liga dos Campeões, o Al Ahly foi um dos poucos grandes a largar bem e praticamente garantir sua classificação.

Atuando no Cairo, e sem Mohamed Aboutreika entre os titulares, poupado, os egípcios não tiveram dificuldades para bater o Young Africans, da Tanzânia. Com dois gols de Mohamed Barakat e outro de Flavio Amado, venceram por 3 a 0 e ainda lamentaram a perda de outras oportunidades. Os Yangas pagaram pela língua afiada de seu presidente, que, antes da partida, afirmara que o Ahly não passava de um time burocrático e que seu clube faria história nessa temporada. Agora, terão uma tarefa praticamente impossível pela frente: reverter o placar no jogo de volta.

Outro que fez bonito em sua estréia na competição foi o TP Mazembe, da RD Congo. Brilhou a estrela do artilheiro Tresor Mputu, que marcou duas vezes na vitória por 3 a 0 sobre o angolano Petro Atlético e segue sem ainda ter se mandado para a Europa. Depois de ter suas expectativas de transferência frustradas no ano passado e cair de rendimento, o atacante tem a chance de dar a voltar por cima em 2009. O ASEC Mimosas, que também vem de uma decepção, alimenta a mesma esperança e, sem a revelação Gohi Bi, negociada com o Standard Liège, bateu o Étoile Filante, de Burkina Faso, por 2 a 0 em Abdijan.

O tradicional Asante Kotoko, de Gana, assegurou uma boa vantagem para si dentro de casa e passou pelo estreante Al Ittihad Khemisset, de Marrocos, por 3 a 1. Sem emplacar uma boa campanha na Liga dos Campeões desde a mudança de formato, o clube não aceita ficar de fora da fase de grupos dessa vez. É o mínimo que se espera também do Al Hilal, do Sudão. Os sudaneses mostraram a sua força e ganharam do Stade Tamponnaise, das Ilhas Reunião, com tranqüilidade. Da mesma forma que o Heartland, da Nigéria, o fez frente o marroquino FAR Rabat.

Os tunisianos Étoile du Sahel e Club Africain, por sua vez, enfrentaram maior resistência em seus compromissos. Contando ainda com alguns remanescentes do título de 2006, o ESS venceu o ASO Chlef, da Argélia, de virada nos minutos finais. A equipe não pôde escalar em Sousse a sua nova aposta para o ataque, Tarek Ziadi, ex-CS Sfaxien. O CA frustrou ainda mais sua torcida e perdeu para o Djoliba, de Mali, em casa. Nem de longe lembrou o time que briga nas cabeças por mais um título da Ligue 1 tunisiana.

Entre os clubes sul-africanos, o Supersport United não conseguiu levar para fora do país a mesma forma que apresenta em seu cenário local e foi derrotado pelo KCC, de Uganda. Em melhor situação está o Ajax Cape Town, que, ainda que de modo apertado, fez valer o seu mando de campo e ganhou do Monomotapa, do Zimbábue, por 3 a 2. Mesma vantagem obtida pelos atuais vice-campeões, o Coton Sport, contra o Mangasport, do Gabão.

Os times se voltam agora para seus campeonatos nacionais e, no início de abril, decidem o seu futuro na Liga dos Campeões. Quem estará mais perto da fase de grupos? As grandes forças seguirão? Zebras aparecerão? É esperar pra ver.

Caminho de volta

A Copa do Mundo de 2010 está se aproximando. Quem está encostado em seu clube, sem jogar, pode ficar de fora da festa. Para mudar essa situação, a solução encontrada pelos jogadores, na maioria das vezes, é abandonar seus times e retornar a seus países, onde, fatalmente, terão mais oportunidades e poderão, ainda, ficar mais perto do olhar do treinador de sua seleção nacional. Fred, por exemplo, não trocou o Lyon pelo Fluminense por acaso. Ele tinha mercado na Europa, mas preferiu voltar ao Brasil para ser mais visto. Esse é um fenômeno que ocorre não só por aqui, como também em outros lugares.

É o caso da África do Sul, por exemplo. Sede da próxima Copa da Confederação e do Mundial, nunca viu, em sua história, tantos atletas retornarem ao país como agora. E não reclama, obviamente. É melhor para os seus campeonatos, que se tornam ainda mais atrativos com a presença de nomes que, no Velho Continente, estariam apenas esquentando os bancos de reservas. Porém, tal movimento também reflete o aumento de poder financeiro das equipes locais. Com valores de patrocínio e premiação cada vez maiores, os clubes têm visto crescer os seus orçamentos e já podem até pensar – só pensar – em fazer frente ao Mamelodi Sundowns, do bilionário Patrice Motsepe.

Na última janela de transferências, os Downs, que vêm num momento de ascensão após um início de temporada ruim, não fizeram nenhuma grande contratação. Ao contrário de seus adversários que foram à forra no exterior. O atual campeão sul-africano Supersport United, por exemplo, repatriou Lance Davids, ex-Munique 1860 e Djurgardens, para reforçar a sua meia cancha. Criado no Chelsea, Jeffrey Nutka deixou o parceiro inglês na Bélgica, o Westerlo, para defender o tradicional Kaiser Chiefs. Stanton Lewis, por sua vez, retorna pra sua ex-casa e larga Amsterdã para jogar pelo Ajax Cape Town.

São mais três, dentre outros, que se juntam a uma lista já extensa. Também fazem parte dela Sibusiso Zuma e Benedict Vilakazi, que foram seduzidos, ainda em agosto, pelos excelentes salários oferecidos pelo Mamelodi Sundowns. Outro que teve a chance de integrar essa turma e preferiu continuar pelos campos europeus é Aaron Mokoena, do Blackburn. O versátil jogador acredita ter ainda lenha pra queimar antes de decidir voltar. Não faz mal. Só é ruim para todos, inclusive Joel Santana, ver um selecionável deslocado em seu clube. Não é o caso do capitão sul-africano.

Siasia mais uma vez

Treinador não costuma ter vida longa na Nigéria. Prova disso é o troca-troca em sua seleção principal, que, só agora, sob o comando de Shaibu Amodu, parece se assentar. Entretanto, na base, a paciência ainda segue curta, e nessa semana foi confirmada mais uma mudança em sua estrutura. Sai Ladan Bosso e entra Samson Siasia no time sub-20. Bastante pressionado antes mesmo do campeonato africano de juniores, Bosso não conseguiu resistir à terceira colocação na competição, e mesmo tendo levado o país ao Mundial, decepcionou os dirigentes com o resultado.

Em seu lugar, assume Siasia, técnico que não goza de um bom relacionamento com os cartolas, mas que é apontado pelos mesmos como o único capaz de dar um jeito na equipe a tão pouco tempo do certame no Egito. O talento existe, e disso ninguém duvida. Nem mesmo Gana, campeã africana da categoria, talvez tenha tanto potencial a seu dispor. Lukman Haruna, Ibrahim Rabiu e Macauley Chrisantus são todos jovens já conhecidos mundo afora. Só precisam de alguém que lhes dê um pouco mais de disciplina e diga o que fazer em campo. Medalha de prata na última Olimpíada, Siasia parece ser esse “cara”.

“Gatos” fora

Depois de Ruanda, é a vez de as atenções na base se voltarem para a Argélia. O norte do continente abrigará mais uma edição do Campeonato Africano Sub-17 a partir desta quinta. O torneio não contará com a participação de Nigéria e Gana, que, para a surpresa de muitos, ficaram pelo caminho e não terão a oportunidade de repetir o mesmo brilhantismo de dois anos atrás. Na ocasião, nomes como Macauley Chrisantus e Ransford Osei despontaram na competição e se consagraram no Mundial da categoria, atraindo o interesse do futebol europeu.

Desta feita, as expectativas não são tão grandes e a representatividade das seleções ainda na disputa não empolga. De um lado, em uma das chaves, teremos Argélia, Camarões, Gâmbia e Guiné, enquanto que, do outro, Burkina Faso, Malaui, Níger e Zimbábue. Antes de a bola rolar, foram feitos, como de costume, exames para identificar possíveis “gatos” nas equipes, e foi, então, que praticamente todo o grupo zimbabuano pulou fora. Ou seja, ficaram com medo de água, ou melhor, de terem sua idade real revelada. Uma prova de que esse problema ainda acomete o continente e exige, tal como ocorreu, uma fiscalização contínua por parte das autoridades.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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