África

Ainda mais Zebra

Desde 1994, quando disputou sua primeira eliminatória para a Copa das Nações Africanas, Botsuana sempre foi tida como uma das piores seleções do continente. Prova disso é que se passaram oito anos até que as ‘Zebras’ (apelido sugestivo, por sinal) conquistassem seu primeiro triunfo em eliminatórias, ainda assim frente a uma seleção frágil, Madagascar. Mas desde quando o técnico Stanley Tshosane assumiu o comando da seleção nacional, em 2008, esse cenário começou a mudar. Primeira seleção a se classificar para a CAN 2012 (exceto as sedes Gabão e Guiné-Equatorial, obviamente), Botsuana ganhou mais um motivo para se orgulhar nos últimos momentos de 2011: foi eleita a seleção do ano em premiação anual da Confederação Africana de Futebol (CAF).

Mas como explicar a ascensão meteórica de um antigo saco de pancadas e que hoje está entre as doze melhores seleções do continente de acordo com o ranking da Fifa? Parte desse trabalho foi idealizado há três décadas, mas só ganhou “corpo” nos anos 2000. O ganês Ben Kofie, ainda nos anos 80, enxergou a necessidade de se estabelecer uma estrutura de base no futebol de Botsuana. O projeto foi retomado em 2002 pelo sérvio Veselin Jelusic, que inicialmente dirigia a seleção principal, mas acabou se aventurando em um novo desafio.
À época, esta decisão foi muito criticada. Jelusic vinha bem em seu antigo cargo, e quando abandonou o comando, alguns torcedores ameaçaram ‘boicotar’ os jogos em sinal de protesto. Mas com o tempo, essa mudança mostrou-se providencial. Sob a batuta do sérvio, estabeleceram-se as categorias sub-12, sub-15 e sub-17 no país, que futuramente, ajudaram e muito a abastecer uma seleção que se mostrava extremamente envelhecida.

O trabalho de Stanley Tshosane, que concorreu ao prêmio de melhor treinador africano de 2011, também merece um parágrafo. Após chegar como interino em maio de 2008, liderou um processo de rejuvenescimento da seleção após uma goleada sofrida para a Costa do Marfim por 4 a 0. Um trabalho árduo, num país onde o futebol ainda é praticamente amador. Exceto os que atuam em outros centros, os jogadores da seleção nacional não sobrevivem apenas do futebol, e integrantes da comissão técnica, em sua maioria, trabalham de forma voluntária.
Com o setor privado investindo no futebol local – fazendo com que este não dependa exclusivamente dos recursos do governo -, essa realidade deve mudar.

Atualmente, empresas de telecomunicações patrocinam o campeonato nacional, que começa a se igualar a outras ligas mais tradicionais do continente no tocante ao nível técnico. Aliás, a seleção de Botsuana é basicamente formada por jogadores que atuam no futebol local, com exceção de cinco jogadores que atuam no país vizinho, a África do Sul – e não por acaso, são as estrelas da equipe.

Dipsy Selolwane, que desde 1999 atua pela seleção nacional – e mais do que ninguém pode constatar essa evolução -,  é o líder da equipe e defende o SuperSport United, bem como o volante Mogogi Gabonamong. O goleiro Modiri Marumo, do Bay United, é sinônimo de segurança na meta, mas nenhum deles parece ofuscar o brilho de Jerome Ramatlhakwane. O nome é complicado, mas é bom ir se acostumando: o atacante do Vasco da Gama, da segunda divisão sul-africana, foi vice-artilheiro das eliminatórias com cinco gols, e pode surpreender na CAN.

A campanha nas eliminatórias foi irrepreensível. Nas palavras do supracitado Selolwane, a vitória sobre a Tunísia na primeira rodada, fora de casa, foi determinante para o sucesso. Quando os atletas deixaram o país para estrearem na fase qualificatória, não houve despedida no aeroporto ou uma repercussão maciça na imprensa. Mas no retorno pra casa, com o inesperado triunfo por 1 a 0, este cenário começou a mudar, mesmo porque Botsuana seguiu alcançando resultados surpreendentes.

Nos seis jogos seguintes, as Zebras conquistaram quatro vitórias e dois empates, com destaque para os triunfos sobre Tunísia (novamente) e Togo, os favoritos da chave, ambos em casa. Com três rodadas de antecedência, uma vitória pelo placar mínimo sobre Chade garantiu um inédito passaporte para a disputa da CAN. O legado da primeira Copa na África, se não surtiu grande efeito na seleção anfitriã, a África do Sul, inspirou os ‘vizinhos’ ao sucesso. Em meio a inversão de papeis que toma conta do continente, Botsuana é o grande símbolo de uma nova era no futebol africano.

Curtas

– Pelo Campeonato Egípcio, o jogo entre Ghazl El Mehalla e Al Ahly terminou em confusão. O Mehalla vencia por 2 a 1 quando o zagueiro Ramadan marcou um gol contra e deixou tudo igual no placar. O lance gerou discussão, e os torcedores dos donos da casa, revoltados, invadiram o campo e correram em direção ao árbitro, além de arremessarem pedras nos torcedores rivais.

– A Federação Egípcia não perdeu tempo e puniu o Mehalla com a perda do jogo por 2 a 0 e de três mandos de campo. O Haras El Hedood segue na liderança do campeonato nacional com 25 pontos, um a mais que o Ittihad El Shorta.

– No Campeonato Marroquino (Botola), o líder FUS Rabat perdeu por 1 a 0 para o CODM Meknes, e viu sua vantagem para o vice-líder, Moghreb Tetouan, diminuir para seis pontos. No clássico de Casablanca, Wydad e Raja empataram sem gols e se complicaram na briga pelo título.

– Gilson Paulo, que dirigia o time pré-mirim do Vasco, será o treinador de Guiné-Equatorial na disputa da CAN 2012. O brasileiro substitui Henri Michel, que se demitiu após entrar em sucessivas divergências com a Federação local.

– O técnico Stephen Keshi, da Nigéria, admitiu que vai promover o retorno de Yakubu à seleção nacional. Marcado por uma péssima Copa do Mundo em 2010, o atacante deu a volta por cima e já marcou 12 gols na atual temporada da Premier League pelo Blackburn.

– Os atacantes nigerianos Kelechi Osunwa e Sheriff Sule estão na pré-convocação do Sudão para a CAN 2012. Outros, como Francis Ikechukwu e Isaac Malik, não conseguiram o passaporte sudanês e vão esperar mais um pouco para trilharem o mesmo caminho dos compatriotas.

– Em amistosos preparatórios para a CAN, a Tunísia empatou com a Catalunha sem gols e venceu a seleção do País Basco por 2 a 0, gols de Msakni e Chedli. Os próximos compromissos dos comandados de Sami Trabelsi serão contra o Sudão, no dia 9 de janeiro, e a Costa do Marfim no dia 13. O treinador recentemente divulgou a pré-convocação dos tunisianos para a CAN, e todos os 26 jogadores presentes na lista viajam no dia 6 de janeiro para um período de treinos em Dubai.

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