A Capela de Nossa Senhora dos Aflitos foi construída em 1762, dentro de uma fazenda localizada no Recife. A popularidade da santa logo passou a batizar a propriedade e, décadas depois, inspirou o nome do bairro que se formou na região. Aflitos ganhou um campo de futebol em 1917, inicialmente utilizado pela liga pernambucana, mas pouco depois comprado pelo Náutico. E, que seja por mera coincidência, é praticamente impossível encontrar outro estádio no mundo que resuma tão bem em sua alcunha o que se vive nas arquibancadas. Aflitos, mais que uma denominação, é um sentimento. Neste domingo decisivo na Série C, “ser aflitos” não se sugeria uma mera penúria. Foi purgatório que permitiu o regozijo do Timbu no paraíso do acesso.

Nossa Senhora dos Aflitos certamente teve seu nome evocado. Apelar aos santos era algo inescapável ao Náutico em uma noite caótica, na qual tudo tendia a dar errado. O jogo tenso pendia ao Paysandu e a vantagem de dois gols, construída no início do segundo tempo, parecia fatal às pretensões do Timbu. Os pernambucanos, no entanto, acharam um gol que reavivou suas esperanças. E em meio ao desespero aos dois lados, já nos acréscimos, tiveram o benefício de um pênalti contestável a seu favor. Jean Carlo foi tudo, menos aflito, para dar o empate por 2 a 2. E, na disputa por pênaltis, o Náutico aproveitou a confiança para confirmar a vitória por 5 a 3. Sinal concreto do retorno à Segundona, um mar de gente em vermelho e branco se amontoou no gramado. A aflição dos 90 minutos desembocou em uma euforia inestimável.

Uma nova era do Náutico passa pelos Aflitos. O estádio havia sido abandonado pelo clube, em prol de um sonho megalomaníaco com a Arena Pernambuco. O que parecia fadado ao fracasso também teve custos à identidade do Timbu, que sucumbia nas tabelas. Por isso mesmo, a reforma completa da antiga casa e sua reinauguração em dezembro de 2018 guardou um resgate do que é ser alvirrubro. Apesar da renovação, é um estádio com cara de estádio e com alma de estádio, que ajuda a engrandecer o Náutico e a intimidar os adversários. O clube encerrava o seu desterro e retornava ao local onde pertence a sua história.

As últimas temporadas haviam sido difíceis ao Náutico. A queda na Série B aconteceu de forma arrebatadora, com a última colocação e uma diferença de 12 pontos em relação à salvação. E, em sua primeira tentativa de acesso na Série C, a equipe não conseguiu reverter a derrota na ida contra o Bragantino. Deixou a promoção escapar justamente dentro da Arena Pernambuco, onde apenas 24 mil alvirrubros acreditaram em uma reviravolta. Seria necessário começar novamente em 2019.

O novo ano tinha a volta aos Aflitos, mas também guardaria as suas crueldades, entre a queda na semifinal da Copa do Nordeste e a derrota na decisão do Pernambucano, em disputa por pênaltis contra o Sport na Ilha do Retiro. A Série C, de qualquer maneira, apontava como o principal objetivo do Náutico. E o time deu motivos para empolgar sua torcida no Grupo A, com uma campanha que engrenou a partir de julho. Não apenas os alvirrubros tomaram a liderança, como tiveram o gosto de eliminar o Santa Cruz na rodada final. O problema era encarar um desafio gigantesco nas quartas, em briga pelo acesso graúda contra o Paysandu.

O Náutico voltou do Mangueirão satisfeito com o empate. Suportou a pressão da torcida e também do time adversário para segurar o 0 a 0 no placar. Os alvirrubros se retraíram na defesa durante a maior parte do tempo. Contaram com as boas defesas do goleiro Jefferson e também com a sorte de ver um chute de Vinícius Leite carimbar a trave. Apesar da força demonstrada pelo Paysandu, a chance de decidir dentro dos Aflitos parecia um negócio interessante ao Timbu. Mas não menos perigoso.

E a verdade que a decisão deste domingo, que bem merecia valer uma taça às tradicionais torcidas, viu seu peso gerar uma excessiva tensão no ar. O primeiro tempo seria de quem errasse menos, entre duas equipes excessivamente ressabiadas em se abrir. A primeira chance do Paysandu veio num desvio de Josa contra o próprio patrimônio, da mesma forma que o Náutico só foi assustar quando o goleiro Mota saiu jogando errado e Micael salvou na hora exata. O gol do Papão seria retrato desta atmosfera aflitiva. Após uma saída errada do Timbu, Vinícius Leite arriscou o chute da intermediária. A bola desviou no meio do caminho e tirou o goleiro Jefferson da jogada, entrando no cantinho. Os paraenses se fortaleciam.

O Náutico era inócuo no ataque, aflito, e passou a sofrer com as lesões. Antes mesmo que o intervalo chegasse, a torcida alvirrubra tratou de comemorar feito um gol a bola salva por Camutanga, que afastou um lance inacreditável dentro da área. Nicolas havia até driblado o goleiro Jefferson quando chutou e viu a bola ser rasgada pelo defensor. Apesar de certa pressão no final, os pernambucanos podiam respirar aliviados pelo estrago não ter sido maior. O Papão foi bem melhor em sua estratégia e merecia a vantagem.

Logo aos nove minutos do segundo tempo, o acesso parecia tão tranquilo quanto categórico ao Paysandu. Gastando a bola na partida, Nicolas marcou o segundo gol com uma classe impressionante, ao emendar de letra um cruzamento e ainda encobrir o goleiro. Diante de um adversário amedrontado, e que precisou gastar sua terceira substituição logo aos 12 minutos por causa das contusões, os paraenses estavam com a situação nas mãos. Bastava conter o desespero do outro lado e explorar os erros. Enquanto a torcida visitante fazia uma linda festa atrás de um dos gols, alguns alvirrubros menos crentes iam embora. Os pernambucanos se mostravam aflitos.

O primeiro gol foi essencial para reerguer o Náutico, em um momento no qual o Paysandu parecia pronto à goleada. Aos 19, Willian Simões cruzou na área e Álvaro desviou de cabeça, numa bola que ainda resvalou na trave. Foi então que os Aflitos fez jus ao seu nome, em meia hora de jogo que certamente pareceu uma eternidade às duas torcidas, cheia de aflição. Ninguém conseguia desatar o nó entre a confirmação do Papão e a reação do Timbu. Foram vários lances perdidos. Álvaro quase anotou seu segundo, com dois enormes desperdícios. Do outro lado, Uchôa saiu de frente para o gol e Jefferson salvou. O milagre parecia mesmo inalcançável aos pernambucanos quando, aos 43, Camutanga mandou por cima uma bola limpa. E nos acréscimos, como se não bastasse, Jean Carlo tirou tinta da trave.

Não restava nada além do ranger de dentes ao Náutico, que praticamente colocava os seus 11 homens dentro da pequena área. Mas eis que, no último minuto dos cinco adicionais dados por Leandro Vuaden, o lance que marcará para sempre esta noite aconteceu. Bola alçada na área e Caíque Oliveira tira de cabeça. A pelota bate no braço de Uchôa e Vuaden marca a penalidade. A controvérsia será eterna. Os ângulos disponíveis dão a impressão de que o braço estava colado ao corpo e que o jogador do Paysandu não tinha muito tempo para reagir. O árbitro, por sua vez, estava de frente para a jogada e teve uma visão muito limpa. Apontou, em decisão controversa. Fato é que os paraenses (e muita gente que não necessariamente estava torcendo para o Papão) tendem a nunca aceitar a pena. Os protestos raivosos começaram de imediato.

Uma confusão imensa se formou dentro da área e só mesmo a distribuição de dois cartões vermelhos, um para cada lado, ajudou a esfriar os ânimos. Foram três minutos até a cobrança fatal. Três minutos para que Jean Carlo assimilasse a ideia de que todo um campeonato estava em seus pés, a 11 metros da rede, diante de Mota. A cobrança aconteceu na mesmíssima marca da cal onde, há década e meia, Galatto barrou o pênalti de Ademar. Desta vez, o goleiro adversário sequer saiu na foto, com a forte cobrança do alvirrubro. A frieza de Jean Carlo impressionou.

A partir de então, uma onda de confiança se formou nas arquibancadas dos Aflitos. O clima do jogo virou do avesso e o Náutico estava muito mais seguro para a disputa de pênaltis que se confirmou com o apito final. Na marca da cal, os dois times iam bem e convertiam as suas cobranças. Até que, na terceira série de tiros, Jefferson pegou o arremate de Wellington Reis. O Timbu manteve a sua perfeição e, em sua quinta cobrança, Matheus Carvalho confirmou a apoteose do acesso alvirrubro. O inacreditável se consumou.

Instantaneamente, uma multidão invadiu o campo nos Aflitos. Até houve certa tensão, com os jogadores do Paysandu protegidos por policiais. Entretanto, o que se instaurou majoritariamente foi a festa pelo acesso. Dentro de sua velha casa, o Náutico experimentou uma de suas noites mais gloriosas. Um acesso que deixou o êxtase do milagre estar ao seu lado desta vez. A Série B se torna de novo horizonte ao clube, mais condizente à sua tradição.

Há que se lamentar também pelo Paysandu. Não somente pela discussão quanto ao pênalti, mas pelo ano extra que outro clube de muito peso terá que enfrentar na Série C. O baque se torna maior também por aquilo que parecia estar tão perto e o time não conseguiu segurar. Contra um adversário que poderia ser visto como favorito, pelas campanhas na fase de classificação, o Papão jogou melhor durante a maior parte do confronto e não conseguiu fazer que sua superioridade se refletisse no placar. A frustração é plenamente compreensível.

Ao Náutico, epopeia consumada, caberá desfrutar sem ressentimentos. O que parecia um ano agridoce termina com a missão cumprida e também com a chance de um título nacional. A torcida inundou o gramado e viverá uma de suas noites mais intensas nas últimas décadas. Já os Aflitos, palco de lembranças tão ricas ao Timbu, adiciona mais uma inoxidável. Talvez esta vitória não tivesse o mesmo sabor ou sequer acontecesse na Arena Pernambuco. O cenário também é parte fundamental para se contar esta história. “Ser aflitos” é só um resumo do que foi o caminho, não o final, até o desafogo aliviado aos 49 do segundo tempo e a vibração febril por aquilo que aconteceu nesta noite.