No início dos anos 2000, a ideia de criar uma liga europeia de clubes surgiu com força. O projeto apontava para a união dos principais clubes das ligas ocidentais em um só campeonato anual, que ocupasse o calendário e se tornasse um enorme imã de dinheiro. Uma espécie de “Master Liga” do Winning Eleven 4 na vida real. Não vingou. A reação das federações nacionais, obviamente, foi negativa, assim como da Uefa. Em contrapartida, a entidade europeia mudou o formato da Liga dos Campeões, abrindo mais vagas a times dos países mais fortes.

A iniciativa da liga europeia, contudo, ressurge vez ou outra nos noticiários. E, desta vez, quem encampa a proposta é Karl-Heinz Rummenigge, gerente-executivo do Bayern de Munique e também presidente da Associação Europeia de Clubes. De certa maneira, aproveita um momento de fraqueza da Uefa, em meio às denúncias contra o presidente Michel Platini. A antiga ideia da “Superliga europeia” era defendida pelo G-14, organização fundada em 2000 por 14 clubes importantes de sete ligas diferentes do continente, mas que acabou dissolvida oito anos depois, longe de alcançar os resultados esperados.

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“Você não pode descartar essa ideia. No futuro, podemos criar uma liga europeia com os principais clubes de Itália, Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, sob os cuidados da Uefa ou de uma organização privada. Poderia ser uma competição com 20 times e, talvez, nós jogaríamos algumas partidas na América e na Ásia”, declarou Rummenigge, durante encontro sobre fair-play financeiro em Milão.

Embora uma nova liga de clubes pudesse atrapalhar o interesse sobre a Liga dos Campeões, Rummenigge vê o processo já em andamento, independente dos atrativos que a competição continental já ofereça atualmente: “Os melhores times do continente estão ficando mais e mais fortes em relação aos outros nas principais ligas. E outra liga, de fato, já está nascendo além da Champions”.

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Um dos partidários de Rummenigge é Andrea Agnelli, presidente da Juventus: “A Liga dos Campeões vale 1,5 bilhões em direitos de TV, comparada a quase sete bilhões na NFL. Entretanto, estudos de mercado mostram que, dos dois bilhões de fãs de esporte ao redor do mundo, 1,6 bilhões gostam de futebol, enquanto os que acompanham futebol americano giram em torno de 150 milhões. Isso precisa fazer as pessoas pensarem sobre o potencial inexplorado, olhando para o atual formato das competições de futebol”.

Do ponto de vista comercial, o projeto da Superliga faz todo o sentido. Para os clubes participantes, é claro, em especial daqueles que não veem um potencial de expansão tão grande em seus países, como os próprios italianos. Porém, a ideia coloca um grande ponto de interrogação como seria o futuro das demais equipes e dos campeonatos nacionais. A perspectiva inicial seria de um enorme abismo, caso não houvesse uma redistribuição do dinheiro e nem mesmo a possibilidade de acesso a este novo torneio supranacional. Enquanto o apelo midiático da Superliga chegaria a níveis estratosféricos, o restante dos torcedores conviveria com uma realidade bem mais modesta – e ainda mais modesta para aqueles que já vivem nas divisões de acesso. Seria abraçar de vez uma face do futebol que, independente da rentabilidade, agradaria apenas uma minoria na elite do esporte.