Quando começou a jogar futebol, Paulo Sérgio Rosa, paulistano vindo do Jardim Elisa Maria, próximo à Vila Brasilândia, era outro garoto pobre, como tantos que tentam subir na vida através do esporte. Entre os raros materiais esportivos que tinha para jogar, o jovem tinha um par de chuteiras, da marca Viola. Elas lhe deram o apelido. E sua capacidade lhe deu alguns bons anos dentro do futebol. Por causa deles, ele tem a chance de ser lembrado, neste primeiro dia de 2019 – por coincidência, o dia em que Viola faz 50 anos.

Já “rebatizado”, Viola conseguiu abrir seu próprio caminho no Corinthians, como mais um dos jovens que se salvavam nas antigas peneiras do “terrão”, o campo de saibro em que o clube do Parque São Jorge buscava talentos para as categorias de base. E foi ascendendo até 1988, quando fazia parte do time de aspirantes. O caminho estava nesse ponto, sem grandes perspectivas de mudança rápida.

Mas como isso muda costumeiramente no futebol, ainda naquele 1988 se criaram as condições para um daqueles casos de estar no lugar e na hora certos. Edmar, o experiente titular do ataque que o Corinthians tinha, se ausentaria da equipe logo nas fases decisivas do Campeonato Paulista, indo para a Seleção Brasileira que jogaria o Torneio do Bicentenário da Austrália. Pior: Edmar não voltaria depois, se transferindo para o Pescara, da Itália. Pior ainda: o reserva imediato de Edmar, Marcos Roberto, outro vindo da base corintiana, estava com o braço fraturado.

Restou ao técnico Jair Pereira apostar em Viola – que só jogara uma partida da primeira fase daquele Paulista, num clássico contra o Palmeiras, entrando no lugar do lateral direito Edson. O jovem de 19 anos seria titular na decisão estadual, contra o Guarani, considerado favorito ao título, melhor e mais técnico do que o Corinthians. No primeiro jogo, empate em 1 a 1 no Morumbi, e Viola teve atuação discreta. O segundo jogo ia pelo mesmo caminho: 0 a 0 no tempo normal jogado em Campinas, no Brinco de Ouro. A partida foi para a prorrogação, e a vantagem do empate era do Bugre, que ficava perto de seu primeiro título paulista. Se o Corinthians tentava o ataque, era mais com Édson, o lateral esquerdo Dida, o atacante Paulinho Carioca, os meio-campistas Éverton e Wilson Mano.

E aos cinco minutos do primeiro tempo da prorrogação, Wilson Mano arriscou chute cruzado. Totalmente torto. Mas Viola viu a chance. correu e colocou sua perna no meio do caminho, num carrinho. Sérgio Néri, o goleiro do Guarani, foi deslocado. Era o 1 a 0 do título corintiano no Campeonato Paulista. Era o caminho aberto para Viola comemorar tirando uma camisa e jogando para a torcida, com outra por baixo, antes de bailar a “Dança da Galinha”, a cançoneta da vez nas rádios populares. Caminho aberto para curtir dias de estrela: aparição no programa de Hebe Camargo (já no SBT), reportagens com a família, fotos empinando pipa e lembrando os tempos de infância no Jardim Elisa Maria… acidentalmente, o Corinthians encontrava um novo centroavante.

Pelo menos, parecia ter encontrado. Porque, tão rápido quanto subiu, Viola desceu nos anos seguintes. Só voltou a marcar gols em novembro de 1988, contra Botafogo, Coritiba e Santa Cruz, pelo Campeonato Brasileiro. Não conseguia vencer a concorrência com Marcos Roberto para ser o “camisa 9” corintiano. Começava a brigar com alguns técnicos da época, como Basílio (costumeiramente escolhido para ser interino, entre uma demissão e outra no Corinthians). Ia e vinha dos titulares, sem se firmar.

Restaram os empréstimos: no segundo semestre de 1990, enquanto o Corinthians partia para um inesperado – e saboroso – título brasileiro, Viola aprendia suas lições no São José. E depois da passagem pela Águia do Vale, 1991 teve o mesmo ritmo: primeiro semestre no Corinthians, entrando esporadicamente nos jogos (atuou oito vezes no Campeonato Brasileiro, e em quatro partidas corintianas na Copa Libertadores da América), segundo semestre emprestado – agora ao Olímpia, outro clube do interior paulista. Havia, sim, o risco de que tivesse sido um “foguete molhado”, aquela promessa que se esvai tão rapidamente quanto sua aparição.

1992 acabou com esses temores. Viola voltou ao Corinthians para ficar. Já era outro, pessoalmente: aos 23 anos, acrescentara à personalidade um ar de “malandro urbano”, alternando roupas jovens e o terno-com-chapéu-panamá (para ensaios fotográficos), assumindo seu amor pela negritude na música – dos Racionais MCs ao trabalho antigo de Jorge Ben (Jor). Também era outro em campo: se ainda era mirrado quando surgira em 1988, Viola voltava um atacante forte fisicamente, sem deixar de ter velocidade. E apurara sua capacidade de fazer gols. Começou a mostrar isso naquele ano, fazendo a dupla de ataque com Nílson Esídio: terminou 1992 como titular absoluto do Corinthians, até dividindo o posto de “ídolo” com Ronaldo e Neto.

E em 1993, Viola começou a viver seu apogeu. O Corinthians perdeu os títulos paulista e brasileiro, mas ele ganhou. Ganhou fama com gols: foi o artilheiro do Campeonato Paulista (20 gols), foi destaque absoluto do Corinthians naquele ano, mostrava destemor nas divididas com os zagueiros e poder de finalização admirável, e sempre era saudado pela torcida com um coro similar ao usado pelo personagem Seu Boneco, na “Escolinha do Professor Raimundo” que a TV Globo exibia: “Eô, eô, o Viola é o terror!”. Claro, o reconhecimento via Seleção Brasileira também chegou: o atacante foi reserva na equipe que disputou a Copa América de 1993. Teve um pequeno revés, fraturando o tornozelo contra o Chile, mas se recuperou rapidamente.

Além dos gols, Viola fortalecia sua imagem. As comemorações de gols ficavam mais e mais elaboradas e engraçadas: do “gol porco” no jogo de ida da final do Paulista de 1993 (e do qual a torcida palmeirense se vingou com o título, gritando “Chora, Viola/Imita o porco agora”) ao “trenzinho” com colegas de Corinthians, de falar no “orelhão” do Pacaembu à homenagem a Ayrton Senna contra o Guarani, pelo Paulista de 1994, dias após o acidente fatal do piloto brasileiro, até o “soco no ar” emulando Pelé (num 4 a 0 contra o Santos, também pelo Paulista, também em 1994).

Era o suficiente para se manter no radar de Carlos Alberto Parreira rumo à convocação para a Copa do Mundo de 1994. Uma atuação excelente no amistoso contra a Islândia, último no Brasil antes do Mundial – 3 a 0, um gol dele -, e Viola se garantiu entre os 22 convocados. Quase não entrou. Mas quando entrou, teve utilidade, na mais dramática das horas: no lugar de Zinho, veio para os últimos quinze minutos da prorrogação, na final contra a Itália. Não fez o gol do título. Mas, com mobilidade, ajudou o Brasil a criar chances de ataque. E cansou ainda mais a defesa italiana, já abatida pela canícula em Pasadena, na Califórnia, naquele 17 de julho de 1994, rumo às cobranças de pênalti que afinal fizeram daquela Seleção campeã. Viola apareceu pouco mas teve brilho. Tanto que saiu daquela final dizendo à TV Globo: “Foram os melhores quinze minutos da minha vida no futebol. Agora, é tudo nosso”. Parecia mesmo: Viola esteve ativo no voo do retorno, incluído nos pagodes.

Titular no último amistoso da Seleção em 1994 – 2 a 0 contra a Iugoslávia, em Porto Alegre, com mais um gol -, Viola parecia ocupar as imaginações sobre futuros titulares brasileiros, junto a Ronaldo, seu colega de banco de reservas na Copa. Em 1995, no começo do ano, já acertou sua transferência para o Valencia espanhol. Mas ficaria os últimos seis meses no Corinthians. Mesmo com a ascensão de novos ídolos (Marcelinho Carioca, Zé Elias) e a manutenção de outros (Ronaldo), ainda era ele o sinônimo de gols daquele time. Marcou no jogo de ida da final da Copa do Brasil. Era a referência de ataque. Gostava de sê-lo, até para poder ostentar vários modelos de chuteira (prateados, branco com bolinhas vermelhas…). E Viola foi coroado com os títulos da Copa do Brasil e do Paulista, sete anos após aquele 1988. A conquista estadual encerrava sua passagem pelo Parque São Jorge, após 105 gols em 283 jogos, e ele lembrava: “Entrei como campeão no Corinthians e saio como campeão do Corinthians”.

O que não se esperava é que a passagem pelo Valencia fosse fracassar tanto. Os números foram até razoáveis (10 gols em 30 jogos pelos Ches), mas Viola voltou a encarar turbulências. Algumas delas, verdadeiras, como sua falta de gosto pela vida na cidade espanhola. Outras, crendices, como o boato de que só se alimentava de bolachas nas concentrações do time (“Ele até repete pratos”, desmentia o cozinheiro valencianista). Sentindo-se um peixe fora d’água, o atacante quis voltar, no segundo semestre de 1996. O que não se esperava é que fosse para o… Palmeiras, principal rival do Corinthians.

Em tempos nos quais passagens por clubes rivais ainda eram incomuns, o retorno para o arquirrival corintiano causou celeuma, por mais que Viola posteriormente até contasse que era palmeirense na infância. Foi até mais curioso que Viola fizesse seu primeiro gol pelo Palmeiras justamente num “Derby” contra o time alvinegro (2 a 2, no Brasileiro de 1996). Para não perder o costume, comemorou como um “gavião”. Mas, aos poucos, todos foram se acostumando. Viola é que parece não ter se acostumado muito: teve um 1997 irregular em campo. Aos poucos, foi perdendo espaço no time. Até era escalado por Luiz Felipe Scolari no Campeonato Brasileiro daquele ano, mas já não era nome símbolo de gols, num Palmeiras em transição – outros nomes, como Oséas, chegavam para isso. Foi até sintomático que o último momento de Viola no Palmeiras fosse uma acidentada lesão ocular, após uma cotovelada, na final do Brasileiro, contra o Vasco.

Uma recuperação era necessária. E Viola a teve, em mais um grande clube de São Paulo. No Santos, voltou a ser referência no ataque. Voltou a ter uma torcida a seus pés. Voltou a significar bolas na rede. Não a ponto de voltar à Seleção Brasileira, mas a ponto de ser goleador do Campeonato Brasileiro (20 gols), de ser destaque em mais um título (a Copa Conmebol de 1998, da qual também foi artilheiro), de ser talvez o melhor jogador do Santos, num respeitável ano visto na Vila Belmiro – além do título mencionado, vieram semifinais no Brasileiro e na Copa do Brasil. O esquema tático pensado pelo técnico Emerson Leão favorecia o seu papel de referência. Em alta novamente, pôde dar vazão a seu estilo galhofeiro. Pôde ser “o artilheiro da alegria”, apelido que pululou aqui e ali.

Ir para o Vasco, em meados de 1999, poderia até fortalecer mais o papel de Viola. Entretanto, num time que já tinha Edmundo (e teria Romário), sua fama não era tanta, por mais que fosse grande. O atacante foi útil em São Januário, mas era um coadjuvante para Edmundo em 1999. Quando Romário chegou, então, tornou-se a primeira opção no banco de reservas, não necessariamente a referência. Esteve em momentos importantes, como o vice no Mundial de Clubes de 2000 – converteu sua cobrança na disputa de pênaltis vencida pelo Corinthians. Era reconhecido pela torcida vascaína. Mas foi perdendo espaço para mais gente que chegava: Juninho Paulista e Euller. Em 2001, a volta ao Santos era a esperança de uma volta aos bons tempos. Não foi o que aconteceu. A força física até seguia, mas não era mais acompanhada da velocidade.

E o final da carreira foi chegando. Um sinal foram as passagens por vários clubes. Meio ano no Gaziantepspor-TUR; passagem turbulenta pelo Guarani, em 2004 (“Lá só tem peidão e bundão”, criticou sobre a diretoria bugrina); Bahia, a passagem pelo Flamengo em 2005 – passagem na acepção da palavra: esteve no clube, mas não jogou -, Juventus, Uberlândia, a volta ao Rio de Janeiro (Duque de Caxias, Angra dos Reis e Resende), até o Brusque, no começo de 2010. As controvérsias se avolumaram: prisão por posse ilegal de arma em 2006, atos supostamente xenofóbicos em 2008 contra um colega de Duque de Caxias.

Houve tentativas de manter o grande público se lembrando dele: a participação na terceira edição do reality show “A Fazenda”, da TV Record, em 2010. Houve as aparições nas partidas de showbol, que até hoje acontecem aqui e ali. Houve tentativas de volta, em 2013 (Grêmio Osasco, em São Paulo) e 2015 (Taboão da Serra, também na região metropolitana paulista). Mas o fato é que hoje, aos 50 anos, Viola será lembrado pelo que fez nos campos, aproximadamente entre 1988 e 2000. Parece pouco? Foi o suficiente para ele ser um dos nomes mais marcantes do futebol brasileiro nos anos 1990. Foi nessa época o seu grande momento. E Viola aproveitou.