Primeiro, o Real Madrid, com direito a uma goleada inapelável dentro do Santiago Bernabéu. Depois, a Juventus, virando o placar em Turim e podendo fazer mais. O Ajax derrubou duas camisas pesadíssimas nos mata-matas desta Liga dos Campeões. Duas camisas tão pesadas quanto a sua. E os Godenzonen redescobrem sua grandeza no cenário continental com um time que não deixa mais dúvidas sobre a sua qualidade, coletiva ou individual. Os garotos de Erik ten Hag tratam muito bem a bola, como manda a cartilha do Futebol Total. Eles envolvem os adversários e praticam um estilo de jogo plástico, atrativo, intenso. Todavia, também se encorpam ao longo da campanha e ganham maturidade. Partida a partida, este timaço ajacieden prova o seu nível competitivo. Não se incomodou com o calor da torcida, não temeu o bom início da Juve, não se desconcentrou com o gol adversário abrindo o placar. Foi melhor nos pés e na mente, para se tornar senhor do jogo durante o segundo tempo. A classificação se consumou de maneira razoavelmente tranquila, sem grandes problemas nos minutos finais. Tudo porque este Ajax não se encolheu diante da Velha Senhora, firme nas divididas e sedento pelo ataque. A vitória por 2 a 1, após o empate por 1 a 1 em Amsterdã, coloca o clube em uma semifinal de Champions pela primeira vez desde 1996/97. Confirma que o lugar destes jovens é a história.

As duas equipes vieram com alterações em relação ao primeiro jogo. A Juventus não contaria com o lesionado Mario Mandzukic, substituído por Paulo Dybala no ataque. Além disso, Massimiliano Allegri realizou duas mudanças técnicas. Depois do trabalho que David Neres deu a João Cancelo na lateral direita, Mattia De Sciglio apareceu no setor. Já a troca no meio aconteceu com a participação de Emre Can, na vaga de Rodrigo Bentancur. De resto, a mesma base que arrancou o empate em Amsterdã, com Cristiano Ronaldo e Federico Bernardeschi liderando o ataque. O Ajax, por sua vez, precisou encontrar um substituto para o suspenso Nicolás Tagliafico. O técnico Erik ten Hag confiou em Noussair Mazraoui na lateral esquerda. Já os outros dez atletas eram os mesmos que iniciaram o duelo na Johan Cruijff Arena. Frenkie de Jong, dúvida nos últimos dias, estava na faixa central. E o ataque vinha com a trinca composta por Hakim Ziyech, Dusan Tadic e David Neres.

O primeiros minutos Turim, porém, foram totalmente diferentes em relação ao que se viu na Holanda. A Juventus estava disposta a inverter os papéis e demonstrou um vigor característico ao Ajax. Marcava a saída de bola dos holandeses com muita força, se impunha no campo de ataque e rodava a bola quando tomava a posse, buscando as laterais. Faltava abrir a defesa adversária. O único susto aconteceu por um vacilo de André Onana, que chutou em cima de Emre Can durante uma reposição. Carimbou o alemão e, por sorte, viu a rebatida saindo apenas pela linha de fundo. No mais, a defesa dos Godenzonen ia muito bem nos combates. Por mais que ficassem expostos no mano a mano, os marcadores não davam trégua e eram perfeitos nos desarmes.

Como se não bastasse a situação difícil ao Ajax, Mazraoui torceu o pé e precisou deixar o campo logo aos 11 minutos, substituído por Daley Sinkgraven. Os Godenzonen encontravam extremas dificuldades em se aproximar do ataque e apelaram até mesmo aos chutões. Entretanto, logo o ritmo da Juve diminuiu e os holandeses conseguiram equilibrar as investidas. A primeira boa chance aconteceu aos 21 minutos. Em troca de passes cadenciada, David Neres invadiu a área e tabelou com Tadic. O brasileiro buscou o espaço para finalizar, mas não achou e bateu prensado. Mesmo assim, a bola sobrou com Donny van de Beek e o meio-campista emendou de primeira. Mesmo com o gol escancarado, mandou por cima do travessão.

A Juventus respondeu na sequência. Dybala chutou da entrada da área e Onana fez defesa firme. Claramente o duelo tinha se tornado igual. Isso até Cristiano Ronaldo aparecer, aos 28, e abrir o placar à Velha Senhora. A defesa do Ajax deu uma bobeira imensa, ao deixar o artilheiro livre em uma cobrança de escanteio. Outra vez o craque primou em sua movimentação, aparecendo sozinho para completar de cabeça o cruzamento de Miralem Pjanic. Apenas cumprimentou, em direção ao chão, sem dar tempo de reação a Onana. Houve um princípio de confusão na beira do campo, com os visitantes reclamando de uma falta sobre Joel Veltman. Contudo, o árbitro reviu as imagens no vídeo e percebeu que o empurrão tinha sido do próprio Matthijs de Ligt. Lance legal, que dava a vantagem à Juventus.

O gol não mudava tanto a obrigação do Ajax. Os Godenzonen precisavam balançar as redes uma vez, algo que sabiam desde o início. O mais importante é que os visitantes não sentiram a desvantagem em Turim e precisaram de pouco tempo para responder. Seis minutos depois, aconteceu o empate. Ziyech recebeu de fora da área e chutou sem tanta força. Porém, a bola caiu justamente nos pés de Van de Beek, posicionado na mesma linha que o último marcador. O meia dominou e, totalmente desmarcado, apenas tirou do alcance de Wojciech Szczesny. E o tento motivou os Ajacieden, que mantiveram o ritmo. Por mais que o fim do primeiro tempo tenha carecido de chances mais claras, via duas equipes mais leves em busca do resultado. Dybala ainda sentiria, dando lugar a Moise Kean no segundo tempo.

No entanto, o cenário mudou completamente na volta do intervalo. O Ajax recuperou o seu futebol cintilante e envolvente de Amsterdã. E a Juventus acabou subjugada por esta magia. O prenúncio a uma reviravolta histórica em Turim. Era impressionante a facilidade dos holandeses em encadear os passes, botando a defesa bianconera na roda. Assim, as oportunidades surgiram aos montes. Szczesny parecia pronto a ser o protagonista da Velha Senhora. Quando Ziyech apareceu livre dentro da área, o goleiro operou um milagre no chute à queima-roupa, parando a bomba com um só braço. Depois, seria a ver de Van de Beek testar o polonês. Após mais um giro do carrossel, o meia bateu da entrada da área no capricho, buscando o ângulo. Chute que tinha endereço, até a mão salvadora do camisa 1 tirá-lo da direção certeira. De qualquer forma, não demoraria à pressão dos visitantes dar resultado.

Em uma das raras chegadas da Juventus, Cristiano Ronaldo acelerou com Kean e o garoto bateu para fora, chamando a torcida. Logo o fogo se apagaria. O Ajax estava a um triz do gol. Quando Ziyech bateu cruzado, Pjanic executou um carrinho salvador. Depois, De Ligt completou o escanteio para fora. E quando Allegri tentou dar mais ofensividade pelo lado direito, com Cancelo na vaga de De Sciglio, a desatenção do português quase custou caro em novo lance de Ziyech. A merecida virada, enfim, se consumou aos 22. Cobrança de escanteio pela direita, feita por Lasse Schöne. De Ligt não subiu sozinho como Cristiano Ronaldo, mas conseguiu prevalecer entre dois marcadores e superou Szczesny. Não era a melhor atuação do zagueiro, muitas vezes salvo por Blind ao seu lado. De qualquer forma, acabou premiado pelo destino como herói.

A Juventus passava a necessitar de mais dois gols. E não mostrava futebol para tanto. Pelo contrário, se expunha aos contra-ataques do Ajax, bem mais perigoso na busca pelo terceiro tento. O único a garantir um respiro à Velha Senhora era Cristiano Ronaldo, que vez por outra arrematava, quase sempre atrapalhado pela marcação atenta dos zagueiros holandeses. E, aos poucos, os bianconeri pareceram sufocados em seu próprio desespero. David Neres poderia ter feito o terceiro aos 29, após um passe soberbo de Ziyech, mas não pegou em cheio na bola. O próprio Ziyech balançou as redes aos 34, em lindo chute na gaveta, mas o árbitro assinalou o impedimento. A Velha Senhora era insuficiente e a saída de Bernardeschi, dando lugar a Rodrigo Bentancur, parecia tirar as possibilidades de reverter a situação. Onana manteve a segurança, os defensores chegaram junto em todas e mal os juventinos podem dizer que tentaram uma última pressão. Até houve uma reclamação de pênalti, que não deu em nada. Os minutos que passavam só aproximavam os Ajacieden da história. Sua torcida silenciava os italianos nas arquibancadas. Ao apito final, o grito que os holandeses guardavam no peito desde 1997 saiu: a semifinal é realidade.

Vários e vários jogadores merecem elogios pela atuação excelente do Ajax. Blind fez um jogo praticamente perfeito, comandando a linha defensiva e recobrando o seu melhor futebol. Mais à frente, Van de Beek fez o jogo de sua vida, sempre muito incisivo e dando o suporte aos ataques. Outros tantos cresceram ao longo da noite, como Ziyech, De Ligt, Neres, De Jong. E fica a impressão de que, quanto mais essa equipe dos Godenzonen se aproxima da façanha, mais ela tem ganas de jogar. Foi o que aconteceu nos 45 minutos finais irrepreensíveis, que poderiam ter marcado uma diferença maior no placar. Foram dez finalizações dos holandeses nos 45 minutos finais, contra quatro dos mandantes. A goleada vista no Bernabéu só não se repetiu por detalhes – e por Szczesny.

Do outro lado, fica uma impressão de que a mudança não tardará. A Juventus foi muito menos soberana nesta temporada do que em outras e o trabalho de Massimiliano Allegri mostra seus desgastes. Cristiano Ronaldo, que deveria potencializar os multicampeões, virou um salvador em diferentes momentos. Foi assim em Amsterdã e quase se repetiu em Turim, mas a defesa do Ajax conseguiu neutralizá-lo. O sonho bianconero de reconquistar a Champions aguardará um pouco mais. E, exceção feita à vitória sobre o Atlético de Madrid, sem que o time tenha se mostrado tão capaz a isso.

A verdade é que poucas temporadas da Liga dos Campeões nos últimos anos se mostraram tão abertas a novidades. O Ajax aproveita essa brecha com muita bola e destemor para encarar os adversários. Se os torcedores dos Godenzonen se desacostumaram a pensar grande nos últimos anos, e até existissem receios ao pegar Cristiano Ronaldo, esta geração relembra qual a verdadeira dimensão do clube. Não devem nada a ninguém para sonhar com a taça. Obviamente, os possíveis adversários nas semifinais oferecem desafios distintos – seja Tottenham ou Manchester City. Mas a verdade é que, a esta altura do campeonato, só a teimosia permite duvidar dos Ajacieden. Teimosia esta respondida com intensidade e autoconfiança, remédios imensos para reverter os prognósticos e ter sucesso no futebol. Este foi mais um passo inesquecível dos garotos de Erik ten Hag.