Treinado por Xavi, Al Sadd tentará representar também o poderio do Catar no Mundial de Clubes

A campanha do Al Hilal na conquista da Liga dos Campeões da Ásia teve o seu maior desafio nas semifinais. Se os sauditas sobraram na decisão contra o Urawa Red Diamonds, confirmar a presença na final seria muito mais difícil. E o adversário neste duro embate, curiosamente, também figura no Mundial de Clubes – que terá seu início nesta quarta-feira, com a fase preliminar. O Al Sadd não conseguiu passar pelo Al Hilal, apesar da vitória por 4 a 2 na volta em Riad, que quase reverteu a derrota por 4 a 1 em Doha. Em compensação, os alvinegros já tinham conquistado o Campeonato Catariano de 2018/19 e serão (ao menos no papel) um dos mais fortes representantes do país-sede no atual formato do Mundial.

O Al Sadd, afinal, possui o respaldo direto do governo do Catar para constituir o seu poderio. O clube é presidido por Mohammed bin Hamad bin Khalifa Al Thani, membro da família real e irmão mais novo do atual emir do país. Formado em Georgetown e Harvard, o dirigente de 31 anos encabeçou a campanha catariana para se tornar sede da Copa do Mundo de 2022 – com todas as suas controvérsias e acusações de suborno. Atualmente, também lidera o organismo responsável pela infraestrutura do Mundial, que encara denúncias sobre as estimadas 4 mil mortes de trabalhadores imigrantes. O Al Sadd é mais um braço esportivo e, de certa forma, cartaz entre os clubes da Ásia sobre a imagem que o estado pretende passar.

Campeão asiático em 2011, o Al Sadd participou do Mundial de Clubes naquela ocasião e foi goleado nas semifinais pelo Barcelona. Treinado pelo uruguaio Jorge Fossati, terminou numa razoável terceira colocação. No entanto, por mais que permaneça como o maior vencedor da liga nacional, o investimento não garantiu necessariamente ao clube uma hegemonia local nos últimos anos. Desde o título em 2012/13, estrelado por Raúl, os alvinegros passaram a viver sob a sombra do Al Duhail (antigo Lekhwiya) no Campeonato Catariano. Outra agremiação fomentada pelos Al Thani – e, no caso, pelo também presidente do Málaga – o Duhail faturou quatro dos cinco troféus disputados entre 2013/14 e 2017/18. O Al Sadd sempre terminava em segundo ou terceiro, até romper o jejum em 2018/19.

A conquista do Al Sadd no último Campeonato Catariano simboliza a força que a equipe construiu ao redor de si. Os alvinegros levaram a taça com 18 vitórias em 22 rodadas, sofrendo apenas uma derrota. Além disso, o ataque chegou à absurda marca de 100 gols, o que significa uma média de 4,5 tentos por compromisso. É um clube com significativo investimento em estrelas internacionais e o troféu ofereceria um toque especial nesse sentido. Xavi abraçara o Al Sadd e o próprio projeto do Catar ao redor do futebol desde 2015. A campanha marcou justamente seu título mais importante nestes quatro anos, em sua aposentadoria dos gramados.

Logo após pendurar as chuteiras, Xavi mudou de função dentro do Al Sadd. O craque cumpriu suas pretensões e se tornou treinador dos alvinegros a partir de julho, em movimento já previsto ao longo dos últimos anos. Substituiu o lusitano Jesualdo Ferreira, comandante vitorioso sobretudo em sua passagem pelo Porto no final da década passada, que também assumira a equipe catariana em 2015. Nestes primeiros meses em que aplica suas “ideias sobre o espaço-tempo” na prancheta, o espanhol não vem sendo tão bem sucedido. O Al Sadd é apenas o quarto colocado no Campeonato Catariano, com três derrotas em oito partidas. Em compensação, quase Xavi conseguiu reverter a situação nas semifinais da Champions contra o Al Hilal. E certamente se empenhará por uma digna campanha no Mundial.

O Mundial de Clubes, no fim das contas, se torna um laboratório ao Catar dentro de seu calendário de compromissos com a Fifa. Um dos estádios prometidos à Copa do Mundo já será usado na competição, enquanto o outro inicialmente planejado, por conta de atrasos nas obras, foi convenientemente substituído pela própria casa do Al Sadd. Os representantes do país-sede terão a chance de atuar no Jassim bin Hamad, para 11 mil torcedores, onde já costumam disputar seus jogos como mandantes.

Não bastasse esse fator casa potencializado, o Al Sadd ainda possui um elenco forte para almejar as semifinais do Mundial contra o Liverpool. Xavi se foi, mas o futebol espanhol continua presente dentro de campo através do volante Gabi, antigo capitão do Atlético de Madrid. Já a estrela internacional que realmente brilha é Baghdad Bounedjah, centroavante campeão da Copa Africana de Nações com a Argélia. Desde 2016 em Doha, ele é o maior artilheiro da história dos alvinegros. Seus números foram inflados pelos inacreditáveis 39 gols em 22 aparições na última edição do Campeonato Catariano. No meio, ainda há a presença dos sul-coreanos Jung Woo-young e Nam Tae-hee – este último, trazido do Al Duhail para ocupar a vaga de Xavi, reconhecido por sua técnica e por sua capacidade para bater na bola.

E se os estrangeiros dão um gás a mais ao Al Sadd, o elenco também se vale do sucesso alcançado pelo Catar em 2019. Nada menos que nove jogadores do clube estiveram presentes na campanha que rendeu o título da Copa da Ásia em janeiro, enquanto na Copa América o número de representantes alvinegros chegou a dez. Traduz não apenas a força financeira da agremiação, como também suas relações internas, que facilitam o acesso às revelações da Academia Aspire – o projeto governamental criado para fomentar a formação de talentos no país.

Há nomes um pouco mais tarimbados entre os astros catarianos do Al Sadd. Capitão da seleção, o camisa 10 Hassan Al-Haydos é também o recordista em partidas pelo clube. A base do sistema defensivo da seleção vem da agremiação. O goleiro Saad Al Sheeb e quatro dos cinco defensores titulares na decisão da Copa da Ásia vestem a camisa do Al Sadd, com destaque aos alas Ró-Ró e Abdelkarim Hassan, importantes no apoio. De qualquer maneira, o maior talento joga mais à frente, e nem é Al-Haydos.

Eleito o melhor jogador em atividade no futebol asiático em 2019, Akram Afif dispensa apresentações a quem acompanhou a epopeia catariana ao longo dos últimos meses. Principal cérebro da seleção, o camisa 11 terminou a Copa da Ásia com 11 assistências em sete partidas e, para muitos, merecia mais o prêmio de MVP do torneio que o próprio artilheiro Almoez Ali. Dono de uma visão de jogo privilegiada, pode atuar tanto aberto nas pontas quanto centralizado como segundo atacante. Suas bolas paradas, em especial, são uma arma à equipe. Graduado pela Academia Aspire, o jovem de 23 anos chegou a rodar pela Europa antes de se firmar no Al Sadd a partir de 2018. Ainda tem vínculo com o Villarreal.

Pela base sólida que possui e pelos destaques individuais, o Al Sadd tende a fazer uma boa campanha no Mundial de Clubes. Exceção feita aos sul-americanos e europeus, os anfitriões geralmente são as equipes mais competitivas do torneio e, ao menos no papel, o representante da casa no Catar não fica devendo aos demais participantes do torneio. Caso os alvinegros confirmem sua força contra o modesto Hienghène Sport nas preliminares, podem até receber um ligeiro favoritismo contra o Monterrey – que vem em bom momento, ao alcançar a final do Clausura do Campeonato Mexicano. Problema mesmo a qualquer um deles será passar pelo Liverpool nas semifinais.

Em entrevista ao site da Fifa, Xavi prometeu um futebol de posse de bola e comentou as perspectivas do Al Sadd no Mundial: “O que tentaremos fazer é garantir que os jogadores não sintam a pressão extra que existe por jogar em casa, o que acontece muito – a pressão de provar a si mesmo. Esse precisa ser um prêmio especial para nós. O que vou tentar dizer à equipe é para mostrarem o que podem fazer. A pressão é algo para eu lidar, como treinador. Vimos o Hienghène e entendemos que somos favoritos. No futebol, entretanto, você precisa se provar em campo. Minhas equipes não carecerão de esforço, quero que eles tentem. Podem falhar 200 vezes, mas quero que tentem”.

O Mundial de Clubes deve ser visto como um teste dentro do Al Sadd, em diferentes sentidos. Será mais uma prova de força à espinha dorsal da seleção em sua preparação à Copa do Mundo, bem como pode oferecer mais destaque a alguns jogadores com potencial no clube – muito embora não seja tão simples competir com a dinheirama oferecida em Doha no mercado de transferências. Também se tornará o primeiro grande palco ao “Xavi técnico” neste início de carreira. Expectativas não faltam quanto a um bom papel dos alvinegros. Capacidade também não, como se notou na Champions Asiática. Terão agora que cumpri-la em campo.

* Logo mais, teremos um especial sobre o Hienghène, adversário do Al Sadd, enquanto o Guia do Mundial sairá completo no final de semana.