Zamorano: O guerreiro dos Andes
Era inicio da temporada 1994/5 no Real Madrid. Jorge Valdano, campeão mundial em 1986 com a seleção argentina, como jogador, é apresentado como novo técnico. Ele chega do Tenerife, equipe sensação das últimas ligas. Logo na primeira coletiva de imprensa, ‘El Filosofo’ sentenciou: Iván Zamorano estava fora dos seus planos, seria última opção entre os estrangeiros e teria que lutar se quisesse ter chances de jogar.
Relata-se que durante aquela pré-temporada, nas tardes ensolaradas do verão madrileno, ‘Bam Bam’ Zamorano colecionava exibições extraordinárias e lutava nos coletivos como se fosse uma final de Liga dos Campeões. A sua cena diária era a mesma: O semblante de índio feroz, com sobrancelhas arqueadas e dentes cerrados! E claro, muitos gols…
Certo dia, Valdano aproximou-se da estrela chilena e perguntou:
“Ei, rapaz! você sempre se sacrifica assim ou é somente quando está zangado?”
“Não, meu ritmo é esse mesmo!” – respondeu de imediato “Bam Bam”, que na liga anterior (93/94) ficou quatro meses sem marcar.
Valdano olhou nos olhos de Zamorano alguns segundos e finalizou a conversa:
“Sendo assim, nos daremos muito bem”.
Ao fim daquela temporada, o Real Madrid foi campeão espanhol, quebrando a hegemonia do rival Barcelona, e Zamorano foi figura chave, sendo artilheiro, com 28 gols, naquela que ele mesmo considera a melhor temporada de sua carreira.
Essa história resume exatamente o que foi a carreira de Iván Zamorano: coragem, sacrifício e superação.
Esnobado no inicio da carreira
Nascido na Aldeia de Maipú, região metropolitana da capital, Santiago, Ivan Zamorano perdeu o pai, Luis, quando tinha apenas 13 anos. Passou a ser o homem da casa, vivendo com sua irmã e sua mãe, Alicia.
Sempre quis ser jogador de futebol e começou a carreira no Cobresal, onde chegou com 17 anos, vindo de equipes amadoras. Zamorano ficou nos profissionais da equipe por um ano, depois foi emprestado ao Cobreandino (hoje se chama Trasandino), da Série B chilena, e fuzilou as redes adversárias, fazendo 35 gols em 29 jogos, 1,2 tentos por jogo! Começou-se a falar dele em âmbito nacional.
Com tal façanha, o Cobresal o trouxe de volta, sendo peça chave na conquista da Copa do Chile, em 1987.
Suíça: estágio para o tiunfo
Em 1988, era hora de alçar vôos mais altos e ganhar dinheiro. Depois de ser recusado no Bologna, da Itália, Zamorano rumou para a Suíça, emprestado ao St. Gallen. Lá ele se encontrou.
No Campeonato Suíço, já notava-se que era um jogador acima da média da competição. Poderoso no jogo aéreo, rasgava entre as defesas, fazia muitos gols aproveitando lançamentos em profundidade, deixava os marcadores para trás com facilidade, e dava muitas assistências – algo pouco visto durante sua carreira.
Dois anos na Suíça serviram para lapidá-lo, fisicamente e taticamente, para encarar um desafio maior, a Liga Espanhola. Vicente Cantatore, treinador do Sevilla, o trouxe para Espanha. Foram 21 gols em duas temporadas. Em Sevilla, ganhou o apelido de “El Terrible”.
Quase dez anos na elite
Em 1992, Zamorano passou ao Real Madrid. O primeiro campeonato disputado com o manto merengue, em 1992/3, foi excelente: eleito melhor jogador ibero-americano, além de ganhar o título da Supercopa da Espanha e da Copa do Rei.
Sua temporada de ouro viria em 1994/5, onde, auxiliado por estrelas do quilate de Hierro, Redondo, Prosinecki e Michael Laudrup, foi o artilheiro da liga e campeão nacional.
Zamorano deixou a Espanha em 1996, como um dos 50 maiores goleadores da Liga em todos os tempos. Negociado com a Internazionale, surpreendeu Massimo Moratti, presidente do clube milanês, ao se comunicar em italiano, mesmo precário, durante as negociações.
Seu primeiro ano no calcio foi fraco, com apenas sete gols. Seus companheiros Djorkaeff e Ganz marcaram mais do que ele. No ano seguinte, chegou ao clube Ronaldo, e ‘Bam Bam’ jogou várias ao lado do Fenômeno, abastecidos por Djorkaeff. Ele faz um dos gols do título da Copa Uefa, na vitória maiúscula por 3 a 0, na final contra a Lazio, em Paris.
Em 1999, Zamorano continuou prestigiado no elenco interista, mas passou a sofrer com problemas no joelho direito. Em 2000, sua situação piorou e em dezembro, o chileno decidiu deixar a equipe, acusando o técnico Marco Tardelli de boicotá-lo.
Um símbolo para ‘La Roja’
Zamorano passou 14 anos vestindo a camisa da seleção chilena, do amistoso contra o Peru, em abril de 1987, até o dia 1º de setembro de 2001, sua despedida, contra a França. Marcou 34 gols em 69 jogos, tornando-se o segundo maior artilheiro da seleção na história, atrás apenas do fantástico Marcelo Salas, com quem formou uma dupla arrasadora que classificou o país para a Copa de 1998 e foi apontada como uma das mais perigosas do mundo no fim dos anos 90.
Na Olimpíada de Sydney, em 2000, Zamorano foi um dos três jogadores acima de 23 anos convocado, e conduziu a garotada da seleção olímpica a conquista do bronze, sendo o artilheiro do torneio, com seis gols.
América: o retorno para casa e o fim
Aos 34 anos, Zamorano chegou ao América, do México, onde jogou dois anos, período que considera uma das etapas mais felizes de sua carreira. Ele marcou o gol do título do Torneio de Verão 2001, contra o Necaxa, acabando com um jejum de 13 anos sem títulos para os Águias.
Em 2003, ‘Bam Bam’ retornou ao Chile, depois de 15 anos no exterior, para defender o Colo Colo, time do coração de seu pai. Depois de agredir um árbitro em campo e ser suspenso, decidiu abandonar o futebol.
Em dezembro daquele ano, Zamorano fez sua partida de despedida oficial no estádio Nacional, em Santiago. Era o adeus do guerreiro dos Andes, do jogador que abriu as portas para os boleiros chilenos na Europa, do homem que carrega consigo a imagem da superação.
Como expressou o escritor chileno, Luis Sepúlveda, numa homenagem ao seu compatriota goleador: “Zamorano é o fogo, a paixão e o vento selvagem”.