York: Aqui quem manda é a torcida

Em qualquer lugar do mundo, os dirigentes, para ficar bem com a galera, gostam de dizer que ´a torcida é que manda´. O problema é que isso nunca se prova verdade – não por muito tempo. No York City, porém, a história é diferente. Lá, é a torcida que manda mesmo. Aliás, não só manda, como também é dona do clube.

A torcida assumiu o comando do York há um ano, em 28 de março de 2003. O clube passava por uma grave crise financeira, e a falência parecia inevitável. Porém, a cidade de York não estava disposta a abrir mão de seu pequeno clube de futebol, que disputa a quarta divisão do campeonato inglês.

Um grupo de torcedores formou o ´Supporters Trust´, uma associação que visava – por meio de doações, eventos e relações comerciais – angariar fundos para salvar o time local. Após mais de um ano de trabalho intenso, o trust alcançou seu objetivo, comprando o clube e livrando-o da falência. Hoje, é a associação de torcedores que detém a maioria das ações do York e por isso tem o direito de indicar seu presidente. Isso é feito por meio de votação direta entre todos os membros do Supporters Trust.

Simpático, mas sempre pequeno

O York City Football Club foi fundado em março de 1922. Em 82 anos de história, a equipe nunca chegou a ter destaque no mundo do futebol inglês. Admitida na Football League em 1929, sempre oscilou entre a terceira e a quarta divisão, com exceção de duas gloriosas temporadas na Segundona (1974/5 e 1975/6).

O maior impacto que os Minstermen (apelido do York) tiveram no futebol do país foi conseguido nas copas nacionais. Poucos times têm tão grande reputação de ´matador de gigantes´, e é fácil ver por quê. Em 1955, o clube chegou até as semifinais da copa da Inglaterra, sendo derrotado pelo Newcastle apenas no ´replay´ (segunda partida, realizada quando a primeira terminar empatada). Esse feito tornou o York a primeira equipe da terceira divisão a ficar entre os quatro melhores times da FA Cup.

Entre as grandes zebras que o pequeno York tem em seu currículo, destacam-se as alcançadas na temporada 1984/5. Na FA Cup desse ano, a equipe eliminou o Arsenal e na seqüência empatou com o Liverpool (mas foi eliminada pelos Reds no ´replay´). Onze anos mais tarde, na League Cup, o York despachou ninguém menos que Sir Alex Ferguson e seu Manchester United.

A um passo do fim

Embora nunca tenha sido um clube rico, o York costumava manter suas contas em equilíbrio. No entanto, isso começou a mudar na segunda metade da década de 90. Por incompetência ou má-fé, o presidente Douglas Craig passou a gastar dinheiro além das possibilidades do clube. Com isso, as dívidas começaram a se amontoar.

Vendo a situação se deteriorar, Craig, que também era o dono do clube, decidiu fazer uma malandragem: separou o York em duas empresas. Uma controlava o clube de futebol e estava praticamente falida; a outra ficou sendo dona do estádio de Bootham Crescent (grande nome, não é?), avaliado em mais de US$ 6 milhões. Em dezembro de 2001, Douglas Craig colocou o clube à venda e disse que, se não fosse encontrado um comprador até o final da temporada, fecharia o York e o tiraria da liga inglesa.

Foi nesse contexto que a torcida criou o Supporters Trust. Em vez de assistir passivamente à destruição de seu clube, ou apenas reclamar, os fãs resolveram tomar uma atitude. A associação foi criada em janeiro de 2002, e em pouco mais de um mês já juntava algumas centenas de membros. Hoje, o número de pessoas que contribuem com o trust supera 2 mil.

Porém, com o Supporters Trust ainda dando seus primeiros passos, não seria ele que compraria o York. Quem apareceu como salvador da lavoura ainda no começo de 2002 foi John Batchelor, que comprou o clube pela simbólica quantia de 1 libra. O empresário recebeu o apoio da torcida, mas logo provou ser um engodo. Sob seu comando, a situação dos Minstermen só piorou. Com as dívidas chegando perto dos US$ 2 milhões, o clube não teve outra alternativa a não ser pedir concordata. Segundo os administradores, se dinheiro não fosse injetado, o York fecharia as portas ao final da temporada 2002/3.

Salvo pela torcida

Aí foi a vez de a torcida salvar a equipe. Após 15 meses de trabalho árduo, o Supporters Trust conseguiu levantar dinheiro suficiente para, com a ajuda de empresários locais, costurar um acordo com os credores, assumir o controle do York e quitar as dívidas. O clube estava salvo, mas havia ainda um problema: o estádio de Bootham Crescent.

Em 2002, o ex-presidente Douglas Craig havia se desfeito apenas do clube, mas continuava dono do estádio, que fica em uma área bastante valorizada da cidade. Seu plano era despejar a equipe ao final da temporada 2003/4 e vender a casa do York desde 1932 para uma empresa de construção civil, que construiria uma série de casas no local.

Mas aí entrou em cena mais uma vez a devota torcida dos Minstermen. O Supporters Trust, junto com uma outra associação de fãs, chamada Friends of Bootham Crescent, conseguiu inviabilizar o negócio de Craig. Embora não tenham comprado de volta o estádio, conseguiram garantias de que o York seguirá jogando em Bootham Crescent indefinidamente.

O mais legal nessa história é lembrar que todo esse trabalho duro foi feito para salvar um pequeno clube, que nunca conquistou títulos importantes. Para se ter uma idéia, em plena crise, o York ainda conseguiu manter uma média de público de 4.176 pessoas na temporada passada – uma marca espetacular, para um time da quarta divisão. Mais do que sucesso e conquistas futebolísticas, o York City Football Club provou ser um verdadeiro símbolo da comunidade local. Nada mais justo então do que o clube ser controlado por aqueles que o salvaram – os torcedores e moradores de York.

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