Volendam: Lá e de volta outra vez

Em cada campeonato nacional, existem aqueles clubes que parecem fortes demais para a segunda divisão, mas fracos demais para a primeira. São os casos de Sunderland, na Inglaterra, Empoli, na Itália, e Arminia Bielefeld, na Alemanha, só para ficar em alguns exemplos. E se a Holanda tem um time assim, este é sem dúvida o FC Volendam, que acaba de voltar à primeirona e recebeu de sua própria torcida o apelido de “Heen-en-weer club”, algo como o “clube vai-e-vem”.

A torcida, aliás, comemora os triunfos de uma forma bem peculiar: possui um barco chamado exatamente “Heen-en-weer”, pintado com as cores do clube e no qual atravessam o rio Ije de uma margem a outra, para depois retornarem. Talvez o ato simbolize as campanhas do clube, que festeja por se aventurar na Eredivisie, mas logo volta para o lugar ao qual pertence: a segunda divisão.

Dessa forma, não chegou a ser surpresa que, tão logo os torcedores desceram do barco após comemorarem a conquista da sexta Eerste Divisie, interrompendo uma ausência de cinco anos na divisão principal, eles já começassem a se preocupar com o rebaixamento na próxima temporada. De fato, se alguma casa de apostas já tiver aberto seus caixas, a cotação do Volendam para um novo descenso deve ser alta – e pagar muito pouco. Modificar essa escrita é a missão do clube a partir de agosto.

Tradição laranja

O FC Volendam foi fundado por um grupo de pescadores em 1º de junho de 1920, com o nome de “Victoria”. Três anos depois, recebeu a denominação atual, sendo rebatizado em homenagem à pequena vila do norte da Holanda que somente hoje chegou aos 20 mil habitantes. Para entender a história do clube, é preciso entender também a história da cidade, já que poucos times de futebol no mundo possuem conexão tão grande com seu local de origem.

Chega a ser curioso, mas a cidade de Volendam é uma das mais tradicionais e conservadoras da Europa, mesmo estando a poucos quilômetros de Amsterdã, mundialmente conhecida por sua modernidade cultural. Fundada no século XIV, possui vocação natural para a pesca devido à sua localização, às margens do rio Ije. O próprio nome da cidade, aliás, tem a ver com a geografia: Vollendam significa “barragem cheia”, em alusão ao porto local.

A população é católica fervorosa e mantém tradições seculares, como as famosas roupas típicas. Historicamente, muitos missionários e bispos nasceram na cidade, que ainda hoje distingue seus habitantes pelo sobrenome. Foi devido à forte influência católica que o FC Volendam foi criado: os pescadores, que freqüentavam a igreja todas as semanas, decidiram montar um clube para disputarem o campeonato nacional da Associação Católica Holandesa de Futebol (KVB).

De início, o uniforme era vermelho e preto em listras verticais, com calções pretos. As cores seguiam a bandeira da região, composta pelas cidades de Volendam e Edam. Com a mudança de nome, saiu o vermelho e entrou o laranja, também presente na bandeira, em homenagem à família real holandesa. Até por isso, o clube se auto-entitula “a outra laranja”, em alusão à seleção nacional.

Idas e vindas

Após conquistar por duas vezes o título da Associação Católica (1935 e 38), durante a Segunda Guerra Mundial o Volendam foi obrigado pelo regime nazista a se afiliar à Federação Holandesa de Futebol ou a encerrar suas atividades, uma vez que os invasores fecharam a KVB e destituíram o campeonato católico.

Disputando divisões inferiores, o clube decidiu pela profissionalização apenas em 1955, quando disputou pela primeira vez a segunda divisão. A partir daí, começou a incrível série de acessos e rebaixamentos quase que consecutivos: de 59, ano do debut na Eredivise, até 1987, quando subiu e conseguiu sua maior permanência na história (dez anos), o Volendam caiu e subiu cinco vezes. Ou seja: quase todos os anos os laranjas estavam envolvidos na briga pela primeira divisão, quer para não saírem dela, quer para voltarem para lá.

Historicamente, o time nunca chegou a empolgar ou revelar grandes talentos. O maior deles talvez tenha sido Arnold Mühren, meia que participou da campanha do acesso de 1970 e que depois jogaria por Ajax, Manchester United e seria campeão europeu de 88 pela Holanda (foi de Mühren o cruzamento para o golaço de Van Basten na final). Gerrie, irmão de Arnold, também começou no Volendam, e ganhou três títulos europeus com o Ajax entre as décadas de 60 e 70.

Sobrenomes iguais, aliás, são comuns no clube e típicos de cidade pequena. Muitos jogadores eram parentes e a solução para evitar confusões dentro de campo era a criação de apelidos. Em um determinado momento da década de 70, o Volendam tinha uma linha média composta por “Galinha”, “Apostador” e “Vaca”. E por falar em sobrenomes, anote: se na próxima geração holandesa surgir algum Molenaar, Veerman, Mühren, Zwarthoed, Jonk, Tol, Tuyp, Schilder, Sier, Bond ou Kras, pode ter certeza: foi revelado em Volendam.

Resultados modestos

As melhores campanhas foram no início da década de 90, com dois sextos lugares. Na Copa da Holanda, o máximo que o clube conseguiu foi chegar a uma semifinal na temporada 1978/79, sendo eliminado no jogo extra pelo Ajax, uma espécie de rival e amigo, dada a proximidade entre ambos.

Na campanha atual, que garantiu o nono acesso à Eredivisie, o Volendam contou principalmente com os 24 gols de Jack Tuyp (sobrenome familiar?), que ajudaram a equipe a ter o melhor ataque da competição, o que se provou fundamental para o título, já que o RKC Waalwijk terminou com os mesmos 77 pontos, mas com quatro gols a menos de saldo. Nos playoffs pelo acesso, os vice-campeões acabaram perdendo para o ADO Den Haag, mostrando o quão importante foi para o Volendam ter aberto essa margem.

Na defesa, o grande nome foi o capitão Mathieu Boots, experiente zagueiro de 33 anos e 1,90m que comandou uma equipe jovem, com idade média de 23 anos. O 4-3-3 ofensivo montado por Stanley Menzo, ex-jogador do Ajax na década de 90, priorizou a velocidade do marroquino Abdelhali Chaiat e do holandês Rowin van Zaanen, para as conclusões de Tuyp.

Para o desafio na Eredivisie 2008/09, o clube já perdeu Chaiat para o De Graafschap e Menzo, que não quis renovar contrato. Frans Adelaar, que já comandou equipes médias da primeira divisão, assumiu seu lugar. Se “a outra laranja” conseguirá de vez fincar pé firme na elite do futebol holandês ainda é dúvida. Mas talvez nem os próprios habitantes de Volendam desejem isso, pois significaria o fim da tradição de atravessar o rio Ije de barco e retornar. Afinal, de tradição esse time da segundona entende.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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