Vicente Del Bosque: A lenda blanca e, agora, roja
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Por João Marcos Pereira Soares
A seleção espanhola campeã do Mundial da África do Sul é admirada por muitos, sobretudo por sua capacidade de trabalho em equipe, onde todos os jogadores têm praticamente a mesma importância – inclusive alguns reservas. Além de precisar contar com um elenco de qualidade para executar esse estilo de jogo, um treinador capaz e que conheça as características dos seus comandados também é de grande valor.
Vicente Del Bosque González é o nome do comandante espanhol, que tem duas carreiras invejáveis: a atual, como treinador, e a que já teve um fim, como jogador de futebol, colecionando títulos em ambas, pelo Real Madrid.
O início da bela história de Vicente Del Bosque no futebol começou na sua cidade, Salamanca, onde defendeu clubes modestos, como o Fátima, o Zamorano e o Salomé. Seu primeiro time um pouco mais expressivo foi o Salmantino, que hoje é o clube reserva do principal time da cidade, o Salamanca. Pelo Salmantino, o atual comandante de La Roja atuou apenas pela base, não participando do elenco profissional, o suficiente para chamar a atenção do Real Madrid, maior clube espanhol, na época.
O início difícil
Na temporada 1970/71, com apenas vinte anos e ainda tido como promessa, Del Bosque foi emprestado ao Castellón, da província de mesmo nome. Sofreu com seguidas lesões no joelho e nas costas, chegando a operar o menisco e a clavícula, e não conseguiu sucesso na sua primeira época como profissional, voltando ao Real Madrid, no final dela. Já recuperado, mas ainda não preparado para jogar por um clube grande, foi novamente cedido, desta vez ao Córdoba, como parte do pagamento por Juan Verdugo, defensor que fez carreira no Real Madrid e no Espanyol, de Barcelona.
No Córdoba, Vicente Del Bosque foi comandado por Edvaldo Izídio Neto, o Vavá, que dez anos antes havia sido bicampeão do mundo com a seleção brasileira e teve carreira discreta como técnico. Ao lado do Peito de Aço, Del Bosque não não foi bem novamente e o Córdoba acabou por voltar à Segunda División, terminando a última estadia do time na elite do futebol espanhol.
O reconhecimento e a oportunidade
Aos vinte e dois anos, na temporada 1972/73, o salmantino rumou à sua última época de empréstimo, novamente ao Castellón, que voltava a disputar a primeira divisão espanhola, de onde esteve ausente desde 1966. Vicente Del Bosque finalmente conseguiu se firmar no cenário do futebol nacional, participando da manutenção do Castellón por mais uma temporada em La Liga e comandando o time de Valencia na épica campanha até a final da Copa Del Rey, onde o clube deixou escapar o primeiro título para o Athletic Bilbao, após eliminar Valencia, Bétis e Sporting Gijón, realizando o maior feito da história do Castellón.
Provas sobre o talento de Del Bosque não eram mais necessárias, e o técnico Miguel Muñoz, comandante do Real Madrid já por 13 anos, resolveu dar uma chance ao jovem salmantino no elenco principal merengue.
A Espanha veste branco
Foram pouco mais de 14 anos de serviços de altíssimo nível prestados ao Real Madrid. Um jogador descrito pelos que já o comandaram como um meio-campo ofensivo, responsável por fazer a transição do meio ao ataque, por sua visão de jogo diferenciada e capacidade de organização, além do vigor físico que impunha no centro do campo, que acabou por ser providencial para que, no decorrer da carreira, Del Bosque fosse sendo recuado, chegando a atuar como volante. Por essa versatilidade, acostumou-se a atuar em todas as posições do meio-campo madridista, de acordo com a opção dos vários técnicos que o dirigiram.
O salmantino foi cinco vezes campeão de La Liga e quatro da Copa Del Rey, com o Real Madrid, sendo titular absoluto no meio-campo merengue. Disputou 335 partidas oficiais pelos blancos e marcou 37 gols, tornando-se uma lenda no Santiago Bernabéu.
Fez sua estréia pela seleção da Espanha em 1975 e, até 1980, esteve regularmente presente nas convocações de László Kubala, chegando a disputar a Eurocopa de 1980, onde La Roja foi eliminada na fase de grupos, decepcionando aos adeptos. Seu único gol internacional foi marcado, justamente, na fase de qualificação pra Euro-80, no dia 15 de dezembro de 1978, em uma vitória por 5 a 0 sobre o Chipre. A coincidência fica por conta de que o tento de Del Bosque foi anotado no Estádio El Helmántico, que fica em Salamanca.
A nova carreira
Del Bosque iniciou sua carreira de técnico no clube satélite do time em que é ídolo. Após cinco anos treinando o Real Madrid Castilla, o salmantino recebeu um convite para treinar pela primeira vez o time principal do Real Madrid, na temporada de 1994, dirigindo o clube blanco por 11 jogos e alcançando uma média de 45% de vitórias, sendo substituído, poucos meses depois, por Jorge Valdano, que conquistaria o título espanhol da temporada no fim da temporada e tornaria-se diretor do clube no futuro. Voltou a comandar o Real em 1996, interinamente e apenas por um jogo, já que a diretoria havia demitido Arsenio Iglesias, então ocupante do cargo, e Del Bosque trabalhava nas categorias de base. Assim como nos tempos de jogador, somente após algumas tentativas não tão bem sucedidas, por considerarem-no despreparado, é que Del Bosque conseguiu se firmar como técnico, assumindo o Real Madrid em 1999 e permanecendo no Santiago Bernabéu até 2003.
A primeira divisão espanhola era uma velha conhecida de Vicente Del Bosque, já que conquistou cinco delas quando entrava em campo pelo Real Madrid. Ao tornar-se técnico, venceu mais duas, pelo mesmo clube, e não parou por aí. O título mais cobiçado por todos que trabalham com futebol em grandes clubes da Europa, é a Liga dos Campeões, troféu ausente do currículo do salmantino durante os quatorze anos de jogador e, antes mesmo de conquistar o seu primeiro Campeonato Espanhol como treinador, Del Bosque e seus comandados já levantavam o troféu de campeões europeus, feito que seria repetido duas temporadas depois.
Um dia após a conquista do segundo título espanhol da era Del Bosque, o treinador foi demitido. Fato que causou espanto na torcida e imprensa. Foi convidado a ser diretor técnico, cargo que recusou. Apesar de ser considerado calmo e sempre respeitar e lidar muito bem com as contratações “galácticas” realizadas por Florentino Pérez e Jorge Valdano, as hipóteses sobre sua demissão giram desde o choque de opiniões com a diretoria madridista, quanto diferenças com alguns jogadores, especialmente Fernando Hierro, então capitão e ídolo do clube. Ambas são surpreendentes e não fazem muito sentido, tanto é que o motivo da saída ainda é uma incógnita Desde a demissão do treinador, o Real Madrid não passa das oitavas-de-final da Liga dos Campeões e ainda não encontrou um comandante que faça as super-estrelas renderem aquilo que podem. José Mourinho é o novo candidato e, talvez, o mais capacitado a alcançar os feitos do salmantino na década.
Na época seguinte à demissão do Real Madrid, Del Bosque assinou com o Besiktas, da Turquia, e teve uma chegada badalada, com muita festa por parte torcida. No entanto, não repetiu o sucesso dos tempos de Real Madrid e saiu logo ao fim de sua primeira temporada treinando os Black Eagles, que, hoje, contam com Bernd Schuster, outro ex-jogador e treinador do Real Madrid, no comando do time.
Em 2004, após o fracasso da Espanha na Eurocopa, Del Bosque foi convidado pela primeira vez a assumir La Roja, cargo que acabou recusando, mesma atitude tomada perante a Federação Mexicana de Futebol, que o contatou para treinar El Tri, após a eliminação da Copa de 2006.
Madrid veste vermelho
Após dois anos de uma pausa na carreira, Del Bosque anunciou que seria o novo técnico da Espanha, que acabara de ser campeã europeia, sob o comando de Luís Aragonés, e, segundo especialistas, tinha a melhor geração de todos os tempos no país. Após uma campanha sólida nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, tendo alcançado o recorde de treinador estreante com maior número de vitórias consecutivas em uma seleção nacional e estabelecendo um novo, de trezes jogos, quatro a mais que o anterior, Del Bosque foi para o Mundial da África do Sul com a responsabilidade de comandar uma das favoritas e acabar com a fama de amarelar quando a situação fica séria, atribuída à seleção espanhola ao longo da história. Depois de um início preocupante em solo africano, Del Bosque, Villa, Iniesta e companhia deram o tão sonhado título mundial à Espanha, após uma batalha épica travada com os rivais holandeses em Johannesburg.
Vicente Del Bosque foi um jogador exemplar dentro e fora de campo, conquistou títulos pelo Real Madrid, atuou pela Seleção da Espanha, mas não conseguiu vencer uma Liga dos Campeões, maior sonhos dos jogadores que atuam na Europa, e nem disputar uma Copa do Mundo. Provando que a persistência é, de fato, importantíssima no mundo do futebol, Del Bosque não desistiu dos sonhos e resolveu entrar na profissão de treinador, conquistando a Europa com seu time, o Real Madrid, e, não só participando, como vencendo uma Copa do Mundo com sua Seleção, a Espanha.