Tudo ao contrário e em perfeita ordem
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Por Gustavo Ribeiro
Há uma máxima no futebol de que vida de torcedor não é fácil. E é fato verídico. Os momentos bons aparecem de vez em quando, mas quando a fase é ruim, é sofrimento só. Agora, imaginemos como é a vida do torcedor de time pequeno. Tudo é muito mais potencializado e inversamente proporcional ao seguidor comum, por assim dizer. Os momentos bons são raridade e as fases ruins são constância. Torcer para time pequeno é chute na canela.
Mas se é assim, por que cargas d’água alguém decide torcer por um clube que, sabidamente, vai de derrota atrás de derrota? Das teorias por aí, fiquemos com uma que cai bem: não escolhemos o time, mas o time nos escolhe. Com raras exceções, há uma ligação praticamente carnal entre as duas partes. E cá para nós, é necessário que seja assim.
A conexão se forma a partir das mais variadas razões. Pode ser um avô, que passa a paixão pelo time da cidade para o filho, que leva até o mais novo. É uma ligação muito forte, que vem acompanhada de uma carga gigantesca de sentimento, de história, de vida. A conexão também pode vir da localização geográfica. É algo como “sou daqui e o time quem aqui é esse, então vai tu mesmo”. E isso mexe demais, pois vivendo a cidade, vive-se o time da cidade. E quando juntam-se família e localização, pronto, não há o que possa quebrar o laço. É natural, é instintivo, é real.
Com essa ligação tão verdadeira, atrevo-me a dizer que torcer para um time pequeno é mais forte, mais profundo, mais gostoso. As emoções ficam mais intensas, pois há mais entre o torcedor e o time do que se possa imaginar. Vai além das quatro linhas, é estado de espírito. É a certeza da derrota que vem acompanhada de uma esperança sem tamanho. E quando a esperança se transforma em realidade, o turbilhão de sentimentos fica incontrolável.
A verdade é que as pequenas conquistas se transformam em feitos sem precedentes. Um chute na trave é gol. Um gol é uma vitória. Uma vitória é uma classificação. Uma classificação é uma final. Uma final já é um título. E um título, bem, um título é uma vida. É o momento que uma vida toda espera, às vezes, em vão.
É um misto de felicidade com tristeza. É triste sim, pois a probabilidade de voltar a ser feliz é rasa. Parafraseando o poeta, é uma tristeza que vem da felicidade de se saber torcedor de time pequeno. É ser feliz sendo triste, e ser triste sendo feliz. É um manto de contradições. Porque ser torcedor de clube pequeno é se contradizer a todo momento, é fazer tudo ao contrário em perfeita ordem.