Trinidad e Tobago: zebra de fora

Não foi desta vez que a zebra voltou. Se na Copa do Mundo de 2006 todos se surpreenderam com a participação das pequenas ilhas gêmeas caribenhas – menor nação em número populacional a participar de um dos torneios -, em 2010 já não verão mais a mesma sorte de Trinidad e Tobago.

Apesar de chegarem na quarta e última fase das Eliminatórias da Copa da Concacaf, os Soca Warriors esbarraram nos adversários e, com a pior campanha no hexagonal final, terminaram na lanterna e sem chances de figurar no seu segundo Mundial: em dez jogos disputados, tiveram apenas uma vitória, três empates, e seis derrotas.

O time, que já foi comandado pelo brasileiro Renê Simões entre junho de 2001 e maio de 2002, recebe o apelido de Soca Warriors devido ao estilo musical tradicional local, que recebe o nome de “Soca”.

As ilhas gêmeas

O país é formado por duas ilhas, vizinhas marítmas da Venezuela e de Granada, e a principal língua, além dos dialetos, é o inglês, falado na nação que tem cerca de 1,3 milhão de habitantes.

Após ocupação holandesa e espanhola, a colonização que deu certo foi a inglesa. A independência das ilhas, porém, veio só em 1962. Desde então, o setor quemais cresce, além de indústria de base e extração de gás natural e petróleo, é o turismo, como bom país caribenho.

Na área esportiva, a paixão nacional não é o futebol, mas sim o esporte muito popular na região caribenha: o críquete. Além disso, o beisebol também é de grande influência local.

“Fomos roubados”

Não se pode dizer que os Soca Warriors contem com a sorte. Nas Eliminatórias de 1973, para a Copa do ano seguinte na Alemanha Ocidental, o time nacional foi derrotado – e, posteriormente e em consequência, eliminado – em uma das partidas de arbitragem mais duvidosa já vista. No dia 4 de dezembro daquele ano, os trinitenses perderam para o Haiti fora de casa por 2 a 1, no estádio Sylvio Cator. Porém… com cinco gols anulados e pênalti não marcado pelo árbitro salvadorenho Jose Enrique, e bandeirinha canadense James Higuet, ambos banidos do esporte pela Fifa após o ocorrido.

A cidade de Port-au-Prince se calou. O ultraje foi tamanho, que nem mesmo os haitianos conseguiram comemorar o feito da vitória. O silêncio foi quebrado pelo choro do atacante Steve David que, revoltado com a situação de seu país, eliminado da forma mais injusta possível do que seria seu primeiro Mundial, abraçou os colegas e deixou os gramados sem dizer uma palavra. Após a partida, nenhum jogador da seleção visitante concedeu entrevistas, ou sequer cumprimentou os adversários.

Aquela era a primeira ocasião que T&T se classificava para a fase final das Eliminatórias da Concacaf, com um elenco que era chamado de “Classic Team”, um dos grupos mais ofensivos já vistos na seleção: David, Everald Cummings e Warren Archibald. Era o prêmio para um time que vinha sendo trabalhado desde 1966, e finalmente havia alcançado maturidade suficiente para chegar longe.

“Era como se estivéssemos em transe”, explicou David, o artilheiro das Eliminatórias com seis gols, em declarações posteriores. “Sentíamos que poderíamos continuar marcando à vontade, então nem discutíamos; apenas continuamos a jogar cada vez que eles anulavam um de nossos gols. Estávamos certos de que não iríamos perder para o Haiti”.

Os jornais locais estamparam as matérias em suas páginas com o título: “Fomos roubados”. “Dizem que gols vencem partidas. Desta vez, não”, dizia o Trinidad Guardian, um dos jornais locais mais populares, no dia após o jogo. O jornal ainda acrescentava que seus atletas, que jogaram como campeões, voltavam para casa como palhaços.

A polêmica foi ainda mais longe, e até o México – além, claro, da própria federação de Trinidad e Tobago – reclamou do resultado e alegou que a situação punha em dúvida a validade do torneio inteiro. O árbitro salvadorenho foi banido pela Fifa, mas a entidade alegou que o protesto veio mais de 48h depois do jogo, e, portanto, seu resultado não poderia ser alterado. Apesar de vencer os três compromissos depois deste resultado (1 a 0 sobre a Guatemala, 4 a 0 sobre o México e mesmo placar sobre as Antilhas Holandesas), a seleção não conseguiu a classificação para o Mundial.

Um quase, e um prêmio

Outra classificação dos trinitenses que bateu na trave foi para a Copa de 1990, na Itália. Chegando à fase final das Eliminatórias, no dia 19 de novembro de 1989, tudo o que a seleção caribenha precisava era de um empate contra os Estados Unidos fora de casa, no National Stadium. Porém, Paul Caligiuri marcou o gol da vitória norte-americana aos 38 minutos de jogo, encerrando as esperanças dos visitantes.

Pelo bom comportamento apresentado pela torcida de T&T, que apesar da derrota e eliminação, em um estádio completamente lotado e em festa, manteve a calma e não se envolveu em uma só confusão, os fãs da seleção caribenha receberam o prêmio anual da Fifa de fair play.

Finalmente, o Mundial

O quadro dos trinitenses mudou, finalmente, em 2005. Apesar de terem chegado à fase final das Eliminatórias da Concacaf, os Soca Warriors figuravam na lanterna, com apenas um ponto de um empate em três jogos. Quando as expectativas pareciam perdidas, a situação de T&T mudou completamente: a chegada do técnico holandês Leo Beenhakker – que tem no currículo passagens pelo Ajax, Real Madrid, seleções da Holanda e, depois, Polônia – deu novo ânimo ao time. O treinador trouxe de volta os veteranos Dwight Yorke e Russell Latapy, e a seleção saltou para a quarta posição.

A classificação para o Mundial, porém, veio apenas após repescagem contra o Bahrein, com 1 a 1 em casa e uma incrível recuperação ao vencer por 1 a 0 em Manama, garantindo a vaga.

Na Copa, caiu no grupo B, com Inglaterra, Suécia e Paraguai. No primeiro confronto com os suecos, os Soca Warriors seguraram o empate em 0 a 0 com um jogador a menos, mas, apesar de terem dado trabalho aos ingleses, perderam os jogos seguintes por 2 a 0.

Nas Eliminatórias desse ano, T&T ficou de fora, na lanterna do hexagonal. Na terceira fase, classificou com a segunda vaga na chave dos Estados Unidos, superando Guatemala e Cuba, mas o time comandado pelo ex-jogador Latapy amargou resultados pífios, com apenas uma vitória, sobre o penúlimo colocado e também eliminado El Salvador, em casa.

Veja o elenco que disputou a última partida das Eliminatórias de 2009:

Goleiros: Marvin Phillip, Jan-Michael Williams (ambos W Connection).

Defensores: Robert Primus e Dennis Lawrence (ambos San Juan Jabloteh), Kern Cupid (W Connection).

Meio-campistas: Clyde Leon (W Connection), Densill Theobald (Caledonia AIA), Trent Noel e Hayden Tinto (ambos Joe Public).

Atacantes: Carlos Edwards (Ipswich Town-ING), Kerry Baptiste (Joe Public), Kenwyne Jones (Sunderland-ING).

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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