Talleres Córdoba: Oficina de futebol

Na linguagem do futebol, as máquinas, especialmente os trens, sempre foram associadas a bom desempenho. Expressos, locomotivas, carrosséis, tanques e outros engenhos ocupam o fértil imaginário da bola. Se a proximidade entre os trilhos e a prática do esporte bretão fosse garantia de êxito, o Talleres – ´oficinas´, em português -, fundado por jovens trabalhadores da empresa ferroviária Central Córdoba, seria detentor de muitas glórias. Mas ficou só na analogia.

Nos poucos momentos em que esteve a todo vapor, o clube andou descarrilando, para desespero de sua fidelíssima torcida, a oitava maior da Argentina, segundo pesquisa recente publicada no diário La Nación. No Clausura-2004, depois de sustentar uma invencibilidade de oito jogos e a pouco habitual liderança, o Talleres tombou diante de Boca e Racing, reforçando a tese de que, quando dispõe de faca e queijo na mão, desliza. Isso já ocorrera, por exemplo, na decisão do Nacional de 1977, em que Bochini, com um gol a sete minutos do fim, deu o título a um Independiente que tinha três homens a menos em campo.

Ainda que não conquiste o Clausura, o Talleres, se der prosseguimento à boa campanha, estará retomando a boa fase da virada de século, em que conquistou uma Copa Conmebol (1999), alcançou ótimos postos nos torneios da AFA (quinto no Apertura-99, quarto no Apertura-2000) e foi às quartas na Mercosul-2001 (eliminado pelo Grêmio). Além disso, poderá voltar à Libertadores, competição na qual debutou em 2002. Se, porventura, o inédito título nacional vier, os ´tallarines´ pintarão as árvores de azul e branco, enfeitarão as fachadas com flâmulas e entoarão ´´y a pesar de los añooos / los momentos vividooos/ sigo estando a tu ladooo / che Talleres queridooo…´´.

Envolto em polêmicas

Maio de 1914. Do outro lado estava o Belgrano, rival cordobês. Era a estréia do Atlético Talleres Central Córdoba. Quatro minutos. O oponente José Lascano marca em posição suspeita, e o gol é validado. A indignação é de tal monta que ´La T´ abandona a cancha e a federação cordobesa, à qual, em abril, com o apoio da gerência da ferrovia, se filiara. O exílio dura até setembro, apenas. No ano seguinte, os já ´albiazules´- antes vestiam branco e violeta – sagram-se campeões invictos do torneio local, fato que se repetiria em 1916.

Em novembro de 1917, outra celeuma, novamente num jogo contra os Piratas Celestes. Integrante de uma família cujo terreno no bairro inglês sediara os primeiros confrontos do Talleres, o centroavante Horacio Salvatelli agrediu José Cardozo, ensejando uma guerra que alcançou as tribunas. A alteração para o nome até hoje vigente (Club Atlético Talleres) foi imposta como condição para o retorno aos certames, em 1918.

Daí até 1979, o time faturou mais 25 títulos regionais. Já disputava o campeonato nacional, competição criada pela AFA em 1968 e realizada até 1985, mas faltavam os embates do prestigiado campeonato metropolitano. Isso tornou-se possível por meio da polêmica lei 1309, resultante de um movimento dos clubes do interior liderado pelo presidente de La T, Amadeo Nuccetelli. Era o impetuoso Talleres metendo a colher num espaço ao qual não fora chamado.

Foi uma faca de dois gumes. O fim dos torneios provinciais e a incapacidade de administrar dividendos fizeram o rendimento da equipe cair paulatinamente. Em 1993, o time, embora fraco, poderia ter se livrado do descenso, não fosse um pênalti inexistente a favor do River Plate, assinalado por Javier Castrilli (ele mesmo!). Sentindo-se garfados, os ´tallarines´ protestaram e cinco foram expulsos. A sanha ´albiazul´ contagiou a torcida, que invadiu o campo do Chateau Carreras. O tribunal deu os pontos ao River e, na rodada subseqüente, frente ao Newell´s, os jogadores suspensos se apresentaram para jogar, desacato sem precedentes no futebol argentino.

Tal qual Boca e River

Após esse episódio, viveu-se até 1998 uma fase de fracassos em momentos capitais, os quais impediram o retorno definitivo à primeira divisão e invocaram os fantasmas de bairro Jardín, onde fica o estádio La Boutique, palco da equipe de 1931 a 1978, hoje usado primordialmente para treinos.

Uma insólita coincidência pôs Belgrano e Talleres na final do Nacional B de 1997/8. Seria a redenção ou a eterna galhofa dos inimigos. O duelo fez parar La Docta – como é conhecida a cidade de Córdoba, por ter abrigado a primeira universidade da Argentina – e atraiu a atenção de todo o país. Nos instantes derradeiros do segundo jogo, gol do Belgrano. Prorrogação e pênaltis. Iria o Talleres dar colher de chá? Não dessa vez. O ex-pirata Roberto Oste dardejou o canto direito do arqueiro celeste e o esquerdo do peito tallarine, decretando o 4 a 3. Em alta voltagem, deu-se a volta à elite e a volta olímpica, num Chateau Carreras entupido.

´´Nunca podrás olvidarteeee / aquella tarde en Chateau…´´, até hoje canta a torcida de La T. Trata-se de uma rivalidade intensa, acirrada por fatos inopinados como a entrada de um jumento pintado de azul-celeste em campo, em 1932. O histórico de violência entre as torcidas, lamentavelmente, é vasto. Conta com a troca de pedradas entre os jogadores do Talleres e a torcida ´boliviana´, em 1933, e chega à contemporaneidade com ´barras´ de ambos os times (Los Bulldogs e Las Violetas são as mais famosas do Talleres) tomando parte em conflitos brutais.

Los Matadores

Até a década de 60, o Talleres teve alguns grandes jogadores em suas linhas – caso de Miguel Romero, maior artilheiro do clube. Às vezes, surpreendia os grandes em amistosos, como em 1944, na comemoração de seus 31 anos, quando surrou o Boca por 7 a 3 em La Boutique.

Inegavelmente, a Copa Conmebol, apesar dos adversários inexpressivos como o finalista CSA e o semifinalista Deportes Concepción, foi a maior conquista do Talleres. Porém, inesquecíveis mesmo foram ´Los Matadores´ dos anos 70. Para prová-lo, basta citar uma edição do jornal El Clarín que, em meio à euforia da façanha internacional, faz menção aos ídolos de duas décadas antes: ´´Que não faltem os que se deleitaram com o talento de Daniel Willington, a qualidade de Luis Galván, a arte de Daniel Valencia e os gols de Humberto Bravo´´.

Tais craques foram símbolos de uma era dourada, em que o clube do bairro Jardín encantava nos nacionais e cedia jogadores à seleção (Galván e Valencia foram campeões mundiais em 1978, o primeiro como titular). O presidente era Nuccettelli e dirigiram a equipe grandes treinadores, como os ex-craques Labruna e Pedernera. O excelente terceiro lugar no metropolitano de 1980 foi o desenlace desse capítulo fulgurante da história do Talleres.

A locomotiva de hoje almeja revisitar essas saudosas estações. O zagueiro Maidana, remanescente de 1999, o uruguaio Piriz Alves, o colombiano Serna e Aldo Osorio são bons ferroviários, mas têm estoque limitado de carvão. O maquinista Juan José López busca uma forma de conter os trens-bala que zunem em seus ouvidos. O chefão da companhia, Carlos Dossetti, cuja gestão termina em 2005, sonha com uma viagem jamais feita, que possa calar os passageiros cordobeses que tanto o criticam.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo