Suazo: O Furacão de Honduras
Apesar de no início de agosto ter renovado contrato até 2010 e de este começo de 2006/7 não ser o mais perfeito, David Suazo pode realizar sua última temporada no Cagliari, clube que representa desde 1999. Foi precisamente nesse ano que começou a carreira de Suazo no exigente calcio, atravessando os difíceis trilhos da Serie B até alcançar um plano de grande destaque na Serie A.
Este hondurenho (já com dupla nacionalidade italiana) é um dos atacantes mais visados do atual mercado. E a grande intransigência dos rossoblu evitou que ele fosse transferido, neste último verão para o Milan ou o Sevilla.
Suazo continuará marcando gols como em 2005/6 para convencer um clube de maior dimensão a decidir-se pela sua aquisição? Também pelo fato de ser o jogador mais querido dos torcedores do Cagliari, a oferta teria de ser quase irrecusável para levar o atual capitão para fora da Sardenha. Atentemos, então, a alguns fatos da carreira de Óscar David Suazo Velásquez, nascido a 5 de novembro de 1979 num país até há pouco tempo conhecido pelos furacões Mitch, Beta, Michelle, Stan ou do Wilma. O Mar do Caribe trouxe outro ainda mais devastador.
Honduras, o início
David Suazo iniciou a sua carreira com a camiseta de Honduras em 1998. Assim, com 19 anos, integrou a seleção sub-20 que se classificou para o Mundial da categoria, na Nigéria. O desempenho coletivo na disputa (individualmente, conseguiu marcar dois gols – um contra a Zâmbia e outro contra a Espanha de Marchena, Varela, Xavi e Gabri) acabou por não ser o melhor, mas mesmo assim o Olímpia (da capital Tegucigalpa) apressou-se a contratá-lo.
O mais curioso é a forma pela qual Suazo surgiu na preparação para aquele Mundial sub-20. O seu primo, o médio Maynor Suazo (joga nos turcos do Antalyaspor com o goleirocolombiano Óscar Córdoba), aconselhou-o ao treinador, sabendo este que David jogava futebol na designada “Liga Bancária”, pelo fato de, na época, trabalhar numa instituição financeira.
Após o Nigéria-99, no qual enfrentou o Brasil de Ronaldinho e outros, a ascensão de David Suazo teve o primeiro grande impulso com a assinatura do primeiro contrato profissional, com o Olímpia. No clube da capital (Tegucigalpa), fez apenas 10 jogos, marcando cinco gols. Os dirigentes do Cagliari foram rápidos e perceberam o novíssimo talento hondurenho. Ofereceram uma verba aproximada de 1,8 milhões de euros – uma autêntica fortuna se tivermos em conta o desenvolvimento do futebol no Caribe. Antes de passarmos à análise da sua carreira na Sardenha, vamos apenas saltar para outros pontos na seleção hondurenha. Suazo fez parte da equipe olímpica hondurenha em Sidney 2000 e contabilizou quatro gols (dois contra a Nigéria e dois contra a Austrália).
Honduras: Infortúnio na Copa América de 2001
Depois do desempenho sofrível na Austrália, que valeu efetivamente pela vitória sobre os anfitriões, Honduras participou da Copa América de 2001 como seleção convidada. Tal como a Costa Rica, que também aproveitou as desistências do Canadá e da Argentina. No entanto, David Suazo teve logo um azar no primeiro encontro frente à Costa Rica, pois lesionou-se aos 15 minutos e nunca mais voltou a jogar no torneio.
Por acaso, a seleção de Honduras, liderada pelo meia Amado Guevara, obteve um desempenho muito bom, conseguindo inclusivamente derrotar o Brasil orientado por Luiz Felipe Scolari (2 a 0). A inexperiente seleção banhada pelo mar do Caribe alcançou surpreendentemente o terceiro lugar no pódio (na única participação na Copa America).
Casteddu: Nova realidade
Em agosto de 1999, David Suazo transferiu-se para Cagliari (“Casteddu”, em dialeto sardo). Tinha quase 20 anos e o seu clube era o Olímpia de Tegucigalpa, o mais consagrado e popular do futebol hondurenho e que recebeu cerca de 1,8 milhão de euros pela transferência. Suazo realizou apenas 13 partidas na Serie A, uma vez que tirar um lugar de Patrick M´boma ou de Luís Oliveira não era tarefa fácil. O Cagliari de 1999/2000 era treinado por Renzo Ulivieri, o artífice da fantástica subida do Bologna desde a C1 até à Serie A.
Mas, além de M´boma e Oliveira, havia mais jogadores bem referenciados naquela equipe. Lembram-se do inspirado médio uruguaio O’Neill e do defesa Zebina? Naquelas treze partidas, em que imperou a condição de suplente, tal como Bernardo Corradi, Suazo marcou apenas um gol. Foi na 33.ª jornada, em Piacenza, onde até atuava um jovem chamado Alberto Gilardino, com 17 anos. Acabou por ter um significado especial: foi o primeiro dos cerca de oitenta gols que Suazo marcou nas oito edições de ligas italianas em que participou.
Dupla com Cammarata
Devido à tenra idade, é natural que a desilusão de Suazo em ter descido à Serie B não tenha sido assim tão grande. Em 2000/1 ganhou a titularidade no ataque do Cagliari, ora sob as ordens de Gianfranco Bellotto, ora com Giuseppe Materazzi, os dois treinadores nessa temporada. Geralmente em 4-4-2, fazia dupla com Fabrizio Cammarata, atacante que tinha marcado nove gols em 99/00 na Serie A pelo Verona e que foi formado na Juventus.
Cammarata acompanhou Suazo em 2001/2 (Nuciari e Sonetti eram os treinadores), sendo que no banco estava sentado Marco Negri que depois da má experiência em Glasgow (Rangers) ainda efetuou uma operação de salvamento em Vicenza.
O início dos três atacantes
Em 2002/3, Giampiero Ventura, o técnico principal, opta por aplicar assiduamente sistemas de três defesas, com futebol rápido, directo e recurso intensivo às faixas laterais. Daí que o velocíssimo Suazo, cada vez mais motivado, adquira uma nova utilidade no onze, cada vez mais vocacionado para a execução do contra-ataque. Mauro Esposito (direita) e Antonio Langella (esquerda) tornam-se os extremos de referência, que coordenam com Suazo todos os movimentos de diagonais e roturas.
O magnífico tridente de ataque do Cagliari
A temporada seguinte era mais que decisiva. A aposta na subida de divisão era fortíssima e foi contratado o genial Gianfranco Zola para dar mais experiência e golos ao Cagliari, que manteve Ventura como técnico principal. No entanto, os resultados de Ventura pautavam pela inconstância e havia muitas dúvidas se o Cagliari iria, ou não, subir à Serie A. Edoardo Reja substituiu Ventura a meio da temporada e a equipa acabou por subir de divisão com 83 pontos (46 jornadas), ex-aequo com o campeão Palermo – nos sicilianos pontificava Luca Toni. Zola, com 13 golos, foi de uma importância extrema no desempenho do Cagliari na segunda volta de 2003/4. A sua brilhante visão de jogo e desenvoltura técnica possibilitou muitos passes que tinham como destino Suazo, um velocista puro que rasgava em todo o perímetro do ataque. O hondurenho marcou 19 golos, mais dois que Esposito, o camisola 7, verdadeiro extremo da equipa (Langella era agora um importante suplente).
Regresso à Serie A afetado por lesão
Esposito-Suazo-Zola: este era o grande tridente do Cagliari que ficou famoso pela ascensão à Serie A, mas que em 2004/5 foi abalado pela lesão de Suazo (virilha). O atacante não foi tão feliz quanto esperava neste regresso à divisão máxima porque ficou afastado durante bastantes jornadas. No entanto, 7 golos marcados nos 22 jogos que efectuou é uma boa marca e talvez já indiciasse a quantidade de golos que veio a contabilizar em 2005/6.
A melhor temporada
Em 2005/6, já sem Zola, o Cagliari esteve muito perto da descida à Serie B. Registando apenas duas vitórias fora em toda a temporada, o clube sardo bem pode agradecer aos golos de Suazo. Sem eles, o Cagliari poderia estar agora na Serie B. Apesar de os rossoblu terem feito uma temporada nervosa (quatro treinadores: Attilio Tesser, Daniele Arrigoni, Davide Bellardini e Nedo Sonetti; juntamente com Udinese e Lecce foi o clube com mais “chicotadas” na Serie A), Suazo apontou 22 golos dos 42 da equipa. Desses 22 golos marcados, 13 foram em casa, 9 fora e 5 foram de penalty.
Curiosamente, os números de Suazo voltaram a ser “ofuscados” na tabela dos capocannonieri pelo ponta-de-lança da Fiorentina, Luca Toni, que veio a sagrar-se Bota d’Ouro europeu com 31 golos pelo clube viola – depois de já ter marcado 30 pelo Palermo na Serie B em 2003/4. David Suazo (3407 minutos em 37 jogos) foi absolutamente determinante para a manutenção do Cagliari na Serie A (16.º lugar antes das sentenças do Calciopoli -> 14.º lugar).
O perigo vem do espaço
Ainda que seja um avançado sem a “escola” das academias (como viram, surgiu um pouco tarde como jogador de futebol profissional), possui uma corrida e uma técnica muito apreciáveis que põem os defesas adversários em alerta máximo, especialmente na evolução dos contra-ataques. Quanto ao estilo na conclusão dos lances, talvez possa ser descrito com um misto da fineza de Eto’o com a potência de McCarthy, que remata de pronto, normalmente sem adorno. Ainda comparando um pouco com o camaronês, Suazo adapta-se com facilidade à presença nas alas, de forma a conferir mais movimentação dos colegas de equipa no eixo. É destro, mas direcciona muito bem os remates com o pé esquerdo.
Falta-lhe, contudo, mais agressividade nas desmarcações em espaços curtos, em que há maior aglomeração defensiva do adversário. Essa é a principal lacuna que terá de ver desenvolvida no seu jogo. É um excelente executante, mas com excessiva necessidade de espaços. Por essa razão, quando existe maior concentração de jogadores na grande área adversária, Suazo cai frequentemente numa das alas para flectir em diagonal à procura de uma tabela. Ou então refugia-se nos dez metros à frente da grande área esperando que surja possibilidade de rotura ou de remate. O desgaste de “pequena área” não é propriamente o seu forte.
Actualmente é o ponta-de-lança do 4-3-3 de Marco Giampaolo, ficando frequentemente Esposito mais à direita e Simone Pepe habitualmente mais posicionado no lado esquerdo (recentemente Antonino D’Agostino tem substituído Pepe no onze – não confundir com Gaetano D’Agostino, que foi formado na Roma e que agora está na Udinese).
Hoje, com 27 anos, Suazo é um dos avançados mais cobiçados do mercado, tendo estado bastante próximo do Sevilla logo após Javier Saviola ter anunciado a sua saída de Nervión. Capitão de equipa, tem o carinho dos adeptos e em cada golo que marca faz-nos recordar o nome de Luigi Riva, o maior goleador de sempre da Squadra Azzurra e que foi a maior referência de sempre do Cagliari. Que mais pode querer David Suazo? Provavelmente lugares cimeiros, mas isso terá que procurar com outro emblema ao peito, uma vez que o Cagliari não tem equipa para muito mais do que lutar pela manutenção. Estaremos atentos às próximas janelas de transferências. Porque não está previsto que o Furacão Suazo diminua de intensidade nos próximos tempos.