SOS Nordeste

O Nordeste não é a maior nem a mais populosa região brasileira, muito menos a que possui maior tradição no futebol. Ainda assim, é a que foi agraciada com mais sedes na Copa de 2014: quatro. As justificativas são várias, como maior número de capitais, proximidade com a Europa e América do Norte e até a paixão do nordestino pelo esporte.

Politicagem e elefantes brancos à parte, se essa paixão for realmente maior do que no restante do país, o ano de 2009 tem grandes chances de ser mais de tristeza do que de alegria por sediar boa parte do Mundial. É um cenário lamentável, mas dificilmente a maioria dos rebaixados para a Série C não será de clubes nordestinos. Com a vitória do Duque de Caxias sobre o América em pleno Machadão, ambos trocaram de posição e o Mecão junta-se a ABC, Campinense e Fortaleza no chamado Z-4. Na rodada do final de semana, novos reveses fizeram com que os vizinhos permaneçam ameaçadíssimos pelo descenso.

Dos quatro piores da Série B até o momento, o viés é diferente para duas duplas. ABC e Campinense estão em alta, com a quarta e quinta melhores campanhas do segundo turno, após passarem todo o primeiro duelando pela inglória lanterna – potiguares ficaram em último duas vezes e paraibanos, quatorze. O vigésimo lugar, aliás, só não foi ocupado por nordestinos em duas oportunidades nas 19 primeiras rodadas, já que Ceará e Fortaleza também bateram no fundo do poço.

Bastou virar o turno, entretanto, para a reação. O ABC venceu as últimas quatro partidas em casa – incluindo o clássico no sábado, contra o América – e já está a apenas dois pontos de fugir da zona do rebaixamento. O ataque que só marcou treze vezes em dezenove jogos finalmente começou a funcionar, graças principalmente à nova dupla, formada por Ricardinho e Junior Negão.

Por sua vez, o Campinense alcançou reação similar e venceu quatro jogos, com destaque para Edmundo, que marcou cinco gols em sete rodadas. Contudo, como o prejuízo era grande, só agora o clube conseguiu deixar a lanterna para o Fortaleza. A chance de se distanciar era exatamente contra o Tricolor no Castelão, mas a derrota por 3 a 0 colocou em xeque o verdadeiro potencial de recuperação da Raposa.
A falta de sorte – e de qualidade – sem fim do Fortaleza parece fadar o Leão ao destino do qual escapou por pouco no ano passado. A vitória em cima do Campinense pode ter dado uma sobrevida, mas este foi o primeiro triunfo em sete rodadas, o que configura a pior campanha do returno: apenas quatro pontos.

Salários atrasados e elenco com desequilíbrio entre as posições fizeram do desmotivado time uma presa fácil para os adversários. Para piorar, as promessas que despontaram nos últimos anos, como Adaílton e Bambam, sofreram com problemas pessoais e internos e não aproveitaram a chance de se efetivarem como titulares. Sobrou para o goleiro Douglas, o zagueiro Gilmak e o meia Bismarck, jovens de talento que obviamente não têm dado conta de segurar o rojão.

Rojão que estourou definitivamente no América após a derrota no clássico no final de semana. O Dragão começou a temporada lá embaixo, subiu de produção, bateu no G-4 e voltou às posições inferiores. O discurso da diretoria, de lutar pelo acesso, e a aposta em veteranos como Souza (que treina quando quer e joga quase nunca) e nomes questionáveis como Sandro Hiroshi (que atuou nove partidas e foi embora para a Coreia) resultaram até aqui numa campanha desastrosa, especialmente no segundo turno: a segunda pior, com cinco pontos ganhos.

Apesar do momento ruim, o consolo é que a briga contra o rebaixamento está mais aberta, com os cinco clubes acima muito próximos, no máximo a quatro pontos de distância. O problema é que um deles é o outro nordestino restante, o Bahia, dono da quarta pior campanha do returno, com sete pontos. Quatro derrotas consecutivas tiraram Sérgio Guedes do comando e nem mesmo o Pituaçu, caldeirão desde o início de 2009, faz mais efeito: nos dois últimos jogos em casa, derrotas.

Com o Bahia também à espreita, a possibilidade de quatro nordestinos caírem é considerável. A fase negra afeta também os da Série A, com Sport e Náutico tendo boas chances de cair. O curioso é que, por causa disso, o número de clubes na Série B de 2010 pode até aumentar: se a queda da dupla pernambucana se confirmar, o Ceará não subir e só três caírem na B, os nordestinos serão sete no ano que vem, contra seis atualmente, porque ASA e Icasa subiram da Série C.

O que não é nenhuma boa notícia, afinal com a regionalização das Séries C e D, é muito improvável que não tenhamos novos nordestinos subindo a cada ano – de qualidade tão duvidosa que deverão cair na temporada seguinte. Assim, não deixa de ser um sintoma da realidade do futebol na região o fato de que as quatro capitais premiadas como sedes da Copa podem encarar rebaixamentos ao final de 2009. E em meio à festa de dinheiro que será gasto nos estádios e obras do Mundial, difícil imaginar que sobrará tempo ou vontade para atender ao pedido de SOS e tirar os clubes desta situação.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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