Soprar as velinhas e apagar o incêndio

No dia em que completa 98 anos, o Santa Cruz, entre todos os clubes que ostentam o mesmo apelido, é o que mais faz jus à alcunha de “o mais querido”. Afinal, além de ter uma torcida loucamente apaixonada (e ninguém ousaria contestar o adjetivo por mim escolhido, muito menos o advérbio que o precede), o drama pelo qual passou nos últimos anos despertou em amantes do futebol espalhados por todo o país genuínas simpatia, compaixão e admiração. Mesmo sendo uma das três forças de Pernambuco desde sempre e marcando presença constante na primeira divisão nas primeiras duas décadas de Brasileirão (com destaque para a quarta colocação de 1975), foi só na hora da desgraça que os olhares de parte da mídia se voltaram para o Tricolor.

O mérito é todo de sua torcida, que nunca abandonou o clube, mesmo vendo-o caindo pelas tabelas. Por várias tabelas, aliás. Da Série A, em 2006, o Santa despencou para a D (que sequer existia quando a derrocada começou), num intervalo de três anos. Quando muitos apostavam no apequenamento da instituição, foi o torcedor quem limpou suas feridas e a recolocou de pé para as próximas batalhas. A cada solavanco, a média de público, a maior do Brasil em 2010 e 2011, só parecia aumentar. E a massa coral virou exemplo de fidelidade e entrega, gerando uma inveja sadia em torcedores de clubes tradicionais que, mesmo brigando por taças importantes e contando com grandes jogadores, mal conseguem levar 20 mil entusiastas a campo.

Um princípio de redenção veio no ano passado, com a conquista do título pernambucano, que não vinha desde 2005, e a sofrida classificação à Série C, cujo último ato foi um empate em 0x0 com o Treze, em pleno Arruda, com direito a sufoco do time paraibano. Tentando pôr as contas em dia e pagar as dívidas deixadas por várias administrações incompetentes e/ou fraudulentas, o Santa passou a investir também em patrimônio, comprando um terreno para tirar do papel o sonho do CT próprio, o futuro Ninho das Cobras. Mas 2012 não começou bem pelas bandas do Arruda. Em seis rodadas, duas vitórias e um empate em três jogos em casa; e uma vitória e duas derrotas em partidas realizadas no interior. O técnico Zé Teodoro, considerado quase uma unanimidade entre a torcida, teve até de aturar os gritos de “burro”, vindos das arquibancadas do Arruda, no empate contra o Central.

Amanhã, o Santa vai aos Aflitos para enfrentar o Náutico, no chamado Clássico das Emoções. Vencendo, claro, recupera uma boa dose de confiança. Mas no caso de uma derrota, o treinador ficará pressionado e todo o projeto iniciado no ano passado poderá estar por um fio. É verdade que o time anda devendo boas apresentações desde o estadual do ano passado, mas Zé Teodoro não tem lá muito material humano para fazer mais do que isso. O orçamento é apertado e os atacantes que defenderam o clube na Série D e nesse início de 2012 desenvolveram uma incrível incapacidade de converter as chances criadas. O folclórico Flávio Caça-Rato, por exemplo, é uma espécie de Zé Love do mangue. O que chama a atenção é a má fase da defesa, considerada o ponto forte nas campanhas do ano anterior.

Os reforços para 2012 não inspiram lá muita confiança. Carlinhos Bala é festim há muito tempo, assim como Luciano Henrique, que não rende nada desde a Copa do Brasil conquistada pelo Sport, quando atuaram juntos. Dênis Marques, que deve estrear amanhã, é esperança de gols, mas não joga há um ano e meio (diria o torcedor do Flamengo, que a essa conta falta somar o tempo que ele passou na Gávea). No meio de tantas incertezas, o melhor a fazer é não abrir mão do técnico, que, aos trancos e barrancos, vem conquistando os objetivos traçados. É chato ouvir gozação dos rivais, mas o grande foco do ano para o Santa tem de ser a Série C. E a longo prazo, manter vivo o sonho de comemorar o centenário disputando a elite do Brasileirão. É natural que o torcedor coral esteja preocupado. Mas o momento é de se apegar à certeza de que o pior já passou e à esperança de que o melhor ainda está por vir.

A propósito

Durante a semana, representantes de 14 dos 20 clubes que disputarão a Série C em 2012 (os times de São Paulo, Rio de Janeiro e o Tupi-MG não compareceram) se reuniram para aprovar a proposta de uma nova fórmula de disputa para o campeonato. Em lugar dos 4 grupos de 5 equipes, seriam apenas 2 grupos, ainda regionalizados, com 10 equipes cada. Um deles alinharia os clubes do Norte, Nordeste e do Mato Grosso. O outro contaria com equipes do Sul e Sudeste, mais o Vila Nova, representante goiano, e o Brasiliense, do Distrito Federal. Os dois primeiros de cada chave subiriam automaticamente para a Série B e disputariam um quadrangular valendo o título.

A intenção é deixar o torneio mais atraente para patrocinadores e televisão. De quebra, se os grupos tiverem jogos de ida e volta, cada clube teria 9 jogos garantidos em seus domínios, mais do que o dobro do previsto pela fórmula atual. Tudo muito bonito, tirando o fato de que a proposta tem de ser aprovada pela CBF para sair do papel. E a instituição até sinalizou dar o seu aval, mas com uma ressalva: os clubes terão de achar um patrocinador, evitando a chance de casos de W.O. durante a temporada. É isso mesmo que você leu: a entidade que organiza o campeonato não se mexe, faz que não é com ela e joga a responsabilidade toda para os clubes. Coisas do país da Copa.

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Equipe Trivela

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