Slavia Praga: os intelectuais da capital

A República Tcheca tem um representante na fase de grupos da Liga dos Campeões desta temporada. Até aí nada de mais. A diferença é que ao contrário do que aconteceu nos últimos anos 15 anos, não se trata do Sparta Praga, e sim do seu grande rival, o Slavia Praga, estreante na fase de grupos da competição mais importante da Europa. Depois de cinco tentativas chegou a vez do Slavia, equipe tradicional da República Tcheca e da antiga Tchecoslováquia, que viveu seu auge nos anos 1930 e 1940 e agora parece retomar o caminho das vitórias, esquecido durante décadas.

O Slavia Praga viveu a prosperidade do futebol tchecoslovaco nas primeiras décadas de século XX, quando o campeonato nacional se tornou um dos mais organizados da Europa, atraindo, inclusive, jogadores de outros países do continente. O clube viveu também os problemas do advento do regime socialista. Fundado por estudantes, em 1892 na capital Praga, o Slavia logo adquiriu status de ser o time classe literária da capital, em oposição ao rival Sparta, time da classe operária. Nascia uma das maiores rivalidades do futebol europeu. A ligação com a elite intelectual de Praga valeu ao clube a perseguição do socialismo, implantado na Tchecoslováquia depois da II Guerra Mundial, e rebaixamentos à segunda divisão nacional.

Mas antes dos revezes, o clube viveu seus maiores momentos de glória. Até 1947 foram 13 títulos do campeonato nacional da antiga Tchecoslováquia. Além deles, o Slavia também faturou o título da Copa Mitropa de 1938, também conhecida como Central European Cup, um torneio interclubes jogado por equipes da Europa Central. Participavam da competição times da Hungria, Áustria, Tchecoslováquia, Iugoslávia e Itália. Jogada de 1927 até 1992, com algumas interrupções, a Copa Mitropa é vista, atualmente, como precursora de competições como a Copa dos Campeões da Europa e, por conseqüência, da Liga dos Campeões.

Naquela época, o Slavia contava com a melhor equipe de sua história, que faturou cinco títulos nacionais na década de 1930. Os destaques eram o lendário goleiro Frantisek Planicka, e os atacantes Antonín Puc e Josef “Pepi” Bican. Os dois primeiros integraram a equipe tchecoslovaca vice-campeã mundial em 1934. Ao todo, o Slavia cedeu oito jogadores para a seleção nacional naquela Copa.

Já Bican se tornou uma página à parte na história do clube. Contratado em 1937 junto ao Rapid Viena, o austríaco, filho de tchecos, logo se tornou uma lenda. Venceu seis campeonatos nacionais com o clube, além da já citada Copa Mitropa. Também é o recordista de gols pelo Slavia, com 643 tentos anotados pelo clube.

Vacas magras

Mas se o ditado diz que após a tempestade vem à abundância, com o Slavia foi justamente ao contrário. O campeonato nacional de 1947 seria o último título importante durante muitos anos. Depois disso, o clube passou por um longo momento de ostracismo. Foram dois rebaixamentos na década de 1960 e um incrível jejum de 49 anos sem títulos de expressão. Nesse período, enquanto o rival Sparta se firmava como a grande potência do futebol tchecoslovaco, se tornando o maior campeão nacional com 34 títulos e participando constantemente da Copa dos Campeões e da Liga dos Campeões, o Slavia perdia espaço para equipes como o Dukla Praga e o Slovan Bratislava.

O fim do socialismo e a volta por cima

Mas eis que a década de 1990 trouxe novos ares ao clube. O período coincide com o fim do socialismo no país, em 1989, e a divisão da Tchecoslováquia em duas repúblicas: a República Tcheca e a Eslováquia, em 1993. Com a divisão do país, surge a Gambrinus Liga, nome dado ao campeonato tcheco da primeira divisão. E a mudança fez bem ao Slavia. Em 1996, depois de 49 anos, o clube conquistou o campeonato tcheco. A última conquista, em 1947, aconteceu um ano antes da implantação do socialismo. Durante o período em que o país foi governado sob o regime socialista, o Slavia não venceu nenhum campeonato ou copa nacional.

Da década de 1990 para cá, além de quebrar o jejum em 1996, o clube venceu mais três Copas da República Tcheca e ficou com o vice-campeonato nacional várias vezes, um deles, bastante especial. A segunda posição na temporada 2006/07 valeu a equipe o direito de disputar a fase pré-liminar da Liga dos Campeões. E depois de cinco tentativas frustradas na etapa pré-liminar da competição, o Slavia não desperdiçou mais uma chance. Após eliminar o Zilina, da Eslováquia, nos pênaltis, a equipe bateu de forma surpreendente o Ajax da Holanda, com duas vitórias incontestáveis: 1 a 0 em Amsterdã e 2 a 1 em Praga.

Com isso, o Slavia disputa pela primeira vez a fase de grupos da Liga dos Campeões. Ao lado do clube, no grupo H, estão Arsenal, Sevilla e Steaua Bucareste. Contando com o retorno do meio-campo tcheco Vladimír Smicer (que iniciou a carreira no clube no início da década de 1990 e conquistou a Liga dos Campeões com o Liverpool na temporada 2004/05), o capitão Stanislav Vlcek, o eslovaco Matej Krajcik, além dos brasileiros Rogério Gaúcho e Fernando Costa, o clube desafia o favoritismo de Arsenal e Sevilla na busca por uma vaga nas oitavas-de-final credenciado pelos trunfos na fase preliminar da Liga dos Campeões e pela liderança na Gambrinus Liga desta temporada – foram cinco vitórias em cinco jogos até agora. Mas é claro que uma vaga na Copa da UEFA não pode ser desprezada. De qualquer forma, quando entrar em campo no dia 19 de setembro para enfrentar o Steaua no estádio Evzena Rosickeho, em Praga, o Slavia já vai fazer história.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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